quarta-feira, 24 de agosto de 2016

La poética de la violación ou estuprador emancipado

Foto: Jose Miguel Carrasco

Brasília, 24 de agosto de 2016.

Ayelén, Carla Di Grazia, Josefina e Carla Rímola,

Esta carta é, antes de tudo, um pedido de desculpas a duas garotas que vou intituladas por N. e A. O desejo de fazer isso me surgiu ontem, após assistir vocês com o La Wagner, na abertura do 17º Cena Contemporânea - Festival Internacional de Teatro de Brasília. A obra que vocês criaram é um desabafo social poetizado nos seus corpos sob as vestes das composições do alemão Richard Wagner (1870-1873) e direção do jovem argentino Pablo Rotemberg.

A força da cena portenha me interessa por ser bruta. E da brutalidade surge a poesia. Desnudas, a dança-teatro de vocês dói nas suas carnes, enquanto arde em nós, que assistimos à poética do estupro, coreografada a partir de referências da violação sexual. Como será para um estuprador assisti-las? Como será para uma vítima assisti-las?

Vocês geram constrangimento pelo desnudamento do corpo nu, não pelo nu em si. Não ficamos somente diante de uma estética de mulheres à mostra, erotizadas. Ficamos diante de corpos que se abrem para nós. Em pouco tempo, estar nu se perde no tempo, não impressiona mais. Porque o que os corpos exaustos/agredidos de vocês nos falam é mais importante. Me lembrou as provocações entre erotismo e pornografia propostas pela Cia. Dita, de Fortaleza (CE), enquanto os jogos com a violência real podem ser relacionados com o grupo Cena 11 Cia. de Dança, de Florianópolis (SC).



Dados

Em agosto de 2016, comemoramos uma década da Lei Maria da Penha (11.340/2006), criada no intuito de punir com mais rigor e erradicar a violência contra a mulher. O aniversário dessa lei foi comemorado ontem, com vocês quatro. Ainda assim, os dados do Disque 180 mostram que os casos de assédios, estupros e outras agressões ainda é crescente.

De acordo com o Mapa da Violência Contra a Mulher 2015, entre 1980 e 2013, num ritmo crescente ao longo do tempo, tanto em número quanto em taxas, morreu um total de 106.093 mulheres, vítimas de homicídio. Efetivamente, o número de vítimas passou de 1.353 mulheres em 1980, para 4.762 em 2013, um aumento de 252%. A taxa, que em 1980 era de 2,3 vítimas por 100 mil, passa para 4,8 em 2013, um aumento de 111,1%.

Na publicação Estupro no Brasil (2014), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que, por ano, no mínimo 527 mil pessoas são estupradas no Brasil. Desses casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 89% das vítimas são do sexo feminino, sendo que as crianças e adolescentes representam mais de 70% das vítimas. Os agressores, não são apenas desconhecidos, mas também maridos, namorados, pais, patrões e amigos. De acordo com o 9º Anuário da Segurança Pública, no Brasil (2015), 90% das mulheres têm medo se sofrer violência sexual. O Brasil registrou um estupro a cada 11 minutos.

Espetáculo La Wagner. Divulgação.


Retrocesso

O trabalho de vocês se faz necessário porque o machismo é um problema universal. No Brasil, amanhã (25/08), por conta de um congresso repleto de homens conservadores, assistiremos à saída ilegítima da presidenta Dilma Rousseff, que tem forte atuação em defesa das mulheres, . O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), é autor do Projeto de Lei 50.6913, que dificulta o aborto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em caso de estupro. O projeto é apoiado pela maioria da congresso, bem como todas as pautas que retrocedem as liberdades e direitos individuais, a julgar pelo Estatuto da Família (PL 6583), que define legalmente como família apenas casais heterossexuais. A situação por aqui está difícil, por isso vocês são necessárias aqui no Cena.


Espetáculo La Wagner. Dilvulgação.

Pedido de desculpas

Mas porque essa carta é um pedido de desculpas? Na minha adolescência, namorei com N. Porém, antes de namorarmos, segurei-a à força na sala de aula e tentei beijá-la, enquanto ela se esquivava. Tempo depois, no início da faculdade, fiz o mesmo com A., durante uma festa. O contato com diversas mulheres feministas e o reconhecimento da minha homossexualidade, aos poucos, me tornaram um homem sensível à pauta de gênero, emancipado – ainda que isso não mude os privilégios que tenho por ser homem numa sociedade sexista. Caso contrário, provavelmente estaria eu reproduzindo todos os braços do machismo.

A cultura do estupro é algo naturalmente ensinado nas rodas de machos heterossexuais - reproduzido também entre homens gays. Em festas, na escola, nos bares, na universidade, a todo momento o culto à força e à dominação sobre a mulher se torna um bem comum entre os homens. Até me entender como um violador dos direitos de uma mulher levou tempo. Há homens que passam uma vida inteira com esses tipos de comportamentos, que chegam à violência sexual e moral, onde o estupro é naturalizado como instrumento de poder.

Ayelén, Carlas e Josefina, estou encaminhando esta carta também para N. e A. Obrigado pela que reflexão que vocês trouxeram ao nosso festival. Reconheço meu lugar de fala, me envergonho de quem fui nesses momentos em que agi guiado pela lógica opressora dos homens. Estou na luta com vocês.


Com respeito,

Danilo.
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segunda-feira, 25 de julho de 2016

DEUS É NEGRA



DEUS É NEGRA é uma intervenção de lambe-lambe que contesta o ideal de soberania racial e de gênero atribuído a Deus no Cristianismo. A motivação surgiu quando Danilo Castro, na adolescência, não se permtiu encenar Jesus durante uma Paixão de Cristo.

Afinal, Danilo não se sentia imagem e semelhança de Deus por ser negro, já que a imagem de Cristo que ele conhecia, imposta ao imaginário popular, é sempre a de um homem branco, dos olhos claros e cabelos lisos.



Em Gêneses 9:1-29, Noé amaldiçoa o neto: "Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos". Canaã é filho de Cão, que significaria, em hebraico, escuro ou queimado. Cão foi o responsável por povoar a África após o dilúvio.

Esse motivo legitimou a escravidão imposta pelos europeus ao povo negro - os colonizadores estariam resguardados pela #BíbliaSagrada. Parece mentira, mas ainda hoje, fundamentalistas como Marco Feliciano soltam pérolas justificando porque negros são amaldiçoados.


O trabalho contou com a colaboração da designer Letícia Maria Lima, autora do projeto "rabisco". Os lambes foram colados dia 17 de julho de 2016, em Brasília, pelos arredores da Catedral.
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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Pré-candidato do PSol, Ari Areia grita contra meritocracia das genitálias em seu espetáculo

Foto: Divulgação

Brasília, 11 de julho de 2016

Ari,

Em pequeno, na Igreja Senhor do Bonfim, em Fortaleza, eu ficava olhando, impressionado, pra imagem gigante do homem morto perfurado pelas mãos e pés, ferido e ensanguentado no altar da igreja. Imagem cruel estampada diariamente à nossa cara. De tanto vermos o homem crucificado, a imagem naturalizou-se. Não é absurdo que escolas, casas, repartições exibam o corpo morto na cruz.

Não entendo como o seu sangue escorrendo sobre a imagem do cadáver na cruz pode ser uma ofensa ao cristianismo vinda de pessoas que sequer se deram ao trabalho de assistir sua obra, de procurar entender do que se trata. Ari, seu espetáculo “Histórias Compartilhadas – Ou dos corpos que não se bastam” é um belo documentário cênico sobre histórias de homens trans, que derramam sangue todos os dias simplesmente por serem quem são.

Sangue em cena não é novidade no teatro brasileiro. José Celso Martinez e o Teatro Oficina, na remontagem de Pra Dar um Fim no Juízo de Deus (2015), do francês Antonin Artaud (1896-1948), extrai sangue de um dos atores e o derrama sobre outro ator, numa proposta de reconstrução da anatomia humana. Dá pra julgar a obra apenas por esta descrição?

Mas que bobagem essa polêmica criada em cima do seu trabalho. Mostra quão imaturos são o Ministério Público do Ceará, a Ordem dos Advogados do Brasil (CE) e a Assembleia Legislativa do Ceará diante de uma obra de arte. Como uma foto e um relato no Facebook podem gerar tamanha ignorância a ponto de você receber notificações desses órgãos e notas de repúdio pelo seu espetáculo?

Eu fico pensando o quanto essas instâncias induzem os fascistas e fanáticos religiosos que te ameaçaram de morte por conta do seu trabalho, legitimado pela relevância crítica, artística e estética em nota pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Tais instâncias, que deveriam lutar pelo povo, fomentam o discurso contra a liberdade de expressão. 

Após a estreia do espetáculo, a amiga de Jair Bolsonaro, deputada pelo Ceará, Silvana Oliveira (PMDB), conhecida pelas declarações homofóbicas e racistas (tanto que o Facebook removeu do ar a página dela), propõe projeto de lei que autoriza PM a interromper eventos "no ato". Indução institucionalizada à censura artística e à violência. 

Em maio, ela e sua turma retiraram trechos sobre diversidade combate à discriminação contra homossexuais em escolas da rede estadual do Plano Estadual de Educação do Ceará. Basta ouvir o discurso inflamado que ela fez à Rádio Universitária FM, durante entrevista com você, Ari.

Certamente, essas pessoas não te conhecem, nada sabem da profundidade da sua pesquisa e da sensibilidade que você tem com o outro. Em especial os homens trans (aqueles que nasceram com vagina, mas que no decorrer da vida perceberam-se como homens e afirmaram suas identidades).

A sua obra e a tal cena polêmica, interpretada de forma cega e pueril por uma carrada de gente conservadora que não te assistiu, é uma alegoria da dor dessas pessoas que, no decorrer da vida, transitam entre gêneros. O seu espetáculo, dirigido por Eduardo Bruno, é por si um ato político. Um basta à meritocracia das genitálias. Nessa vida, eu digo o que eu sou. Meu corpo, minhas regras. É apenas isso.

Ali, no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, eu fiquei com a cabeça fervilhando. Você conseguiu acontecer com o teatro bem além da nossa redoma artística. Você envolveu setores da sociedade e tem envolvido mais pessoas diante das liberdades individuais, da diversidade de gênero, de orientação sexual. Não estamos descolados do mundo. Por isso mesmo, saiba que você me representa na sua pré-candidatura à vereador pelo PSol.

E, se o Ministério Público te intimou a responder: “Que se quer dizer com a peça?”, eu digo que seu trabalho é sobre amor e compaixão. Seu sangue tem poder. É também derramado por nós, LGBTs. Cito 1º Coríntios, capítulo 12, versículos 25 e 26, da Bíblia Sagrada, “a fim de que não haja divisão no corpo, mas, sim, que todos os membros tenham igual cuidado uns pelos outros. Quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele”.

Abreijos (como diz o pesquisador Fernando Villar) trans pra você.

Danilo.

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

VOCÊ NÃO É NEGRO, Festival da Utopia (RJ)

Festival Internacional da Utopia, Maricá (RJ). Foto: Danilo Zuleta
"VOCÊ NÃO É NEGRO" é uma intervenção urbana de resgate às memórias que roubaram a negritude de Danilo, autor do trabalho. A partir da técnica do lambe lambe e pintura, cartazes são distribuídos pela cidade junto a uma carta aos racistas, com frases doloridas que até hoje ecoam na trajetória do artista. A intervenção é parte do Projeto Achados & Perdidos, de Fortaleza (CE), coletivo que utiliza reminiscências pessoais para para criar obras em várias linguagens.
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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Carta-crítica aos Casoneros (Argentina): A mulher que aborta entristece o homem


Grupo de Casonero de Teatro del Oprimido

Maricá, 24 de junho de 2016

Casoneros,

A cada novo espetáculo que tenho me deparado no Festival Internacional da Utopia, que acontece até 26 de junho, em Maricá, mais eu percebo que a força das questões trazidas estão para além da estética. Discutir a cena como forma pouco tem me interessado aqui. Mais tenho sido fisgado pela força temática que vocês, artistas de teatro do festival, têm trazido nas suas obras. Não poderia ser diferente com o trabalho de vocês: Qué me estás queriendo decir?, Grupo Casonero de Teatro del Oprimido (Argentina), que assistimos hoje no cine-teatro de Maricá.

O espetáculo narra a trama de uma recém-casada moça, que não quer ter filhos agora. Porém, por um descuido com o marido, engravida. Ele quer o filho a todo custo. Ela não se sente preparada e quer abortar. A cena parou e nós, público do teatro-fórum de Augusto Boal, fomos convidados a intervir. Ao meu lado, uma mulher disse: “A mulher que aborta entristece o homem”. Na mesma hora eu perguntei pra ela: E você não se importa com a tristeza da mulher que não quer ter o filho e engravidou?

Enquanto a perspectiva masculina tomar conta do pensamento das mulheres, será necessário pôr o tema em questão que, por mais evidente que seja, ainda é mal interpretado. Abortar será sempre uma decisão difícil. A campanha pela legalização, difundida em vários espaços feministas, não é uma campanha pela banalização da vida, mas pela saúde e direito da mulher sobre o seu corpo. Somos biologicamente diferentes: homens e mulheres. 

A natureza masculina é privilegiada nesse sentido. Não é meu corpo que se transforma ao engravidar, não sou eu que engordo, crio estrias, não é meu peito que cresce e dói, nem eu que fico noites sem dormir, amamentando. O desgaste físico e emocional para uma mulher com uma criança é enorme.  Precisamos respeitar se ela não quiser passar por isso. 

Por que não comentamos sobre os rotineiros casos dos pais que não querem os filhos e simplesmente desaparecem? Um filho não pode ser um fardo. Se o casal errou ao não se prevenir, o filho não pode ser uma punição - porque essa punição será somente para ela, de uma forma absurdamente desproporcional.

Se você, mulher que está lendo essa carta pública, é contra, não aborte. Mas não queira impedir uma outra mulher de decidir sobre seu próprio corpo. Não é uma questão religiosa. Não é uma crueldade. Pode acontecer com qualquer uma. É uma decisão íntima e não coletiva. Aborto é uma questão de autonomia, emancipação e saúde pública. Tanto que o aborto clandestino é 5ª motivo que mais mata mulheres no Brasil (em geral negras e pobres que não podem abortar de forma segura). Legalizar é dar mais segurança eacompanhamento psicológico a essas mulheres.

Portugal, Alemanha, Austrália, Cuba, México, Uruguai, França, Canadá e tantos outros países possuem leis flexíveis conforme não prejudique a saúde e integridade da mulher. No Brasil, ainda é difícil discutir essa questão sem o fervor ideológico, ainda mais diante de um congresso conservador e masculino – que possui projeto de lei para obrigar mulheres a terem o filho inclusive em casos de estupro.

Casoneros, o espetáculo de vocês, serviu para aquela mulher que falou comigo na plateia. E mesmo que tenhamos apenas uma pessoa no mundo que não compreenda essa luta, será nosso papel didatizar o que significa isso tudo. Precisamos discutir o aborto. Empoderar mulheres, sensibilizar homens sobre a pauta. É um caminho árduo, mas não impossível.

850 mil mulheres no Brasil abortam por ano 

A pesquisa “Magnitude do Abortamento Induzido por Faixa Etária e Grandes Regiões”, de 2014, indica que entre 7,5 milhões e 9,3 milhões de mulheres interromperam a gestação no Brasil entre 2004 e 2013. O levantamento se baseia nas internações em consequência de abortos espontâneos e induzidos do Datasus, banco de dados do Sistema Único de Saúde. Calcula-se que, para cada internação por abortamento na rede pública, cerca de quatro clandestinos são feitos.

Cntinuemos na luta pela vida das mulheres!

Danilo.

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quinta-feira, 23 de junho de 2016

CARTA-CRÍTICA: teatro indiano Jana Sanskriti e o machismo como uma questão universal

Foto: Divulgação, Festival da Utopia

Maricá, 23 de junho de 2016.


Ontem, a riqueza que o teatro de vocês emanou no cine-teatro de Maricá (RJ) e me encheu de alegria. Pra nós, brasileiros, entender mais sobre sua cultura através do espetáculo, que compôs a programação do Festival Internacional da Utopia, foi mais uma lição em várias instâncias para chegarmos à uma conclusão óbvia: o machismo é uma questão universal, presente desde as indicações do presidente-interino ilegítimo no Brasil, Michel Temer, que não reconhece mulheres na sua equipe ministerial, até o recente estupro de uma jovem carioca por 30 homens.

Uma dos aprendizados de ontem é que pouco conhecemos do teatro indiano porque nossas referências etnocenológicas, infelizmente, ainda são euro-hegemônicas. Há pouco tempo, descobri o Natya Shastra, manual indiano escrito em sânscrito (entre 400 anos a.C/d.C). A obra traz um conjunto de orientações sobre palavra, dramaturgia, signo, cena e performance. 

O manual entende a experiência cênica como algo uno entre artistas, espectadores e elementos da cena, sendo uma referência importante para o hibridismo no teatro contemporâneo. Porém, estudamos somente a Poética de Aristóteles (Grécia, 400 anos a.C) nas faculdades de teatro brasileiras. E vocês, aí na Índia, há 30 anos praticando o método do Teatro do Oprimido, criado pelo pesquisador carioca Augusto Boal (1931-2009).

Outro aprendizado de ontem é que pudemos experienciar, de forma lúdica e contundente, um espetáculo que retrata a vida da mulher indiana antes, durante e depois do casamento. No país, ainda hoje, as mulheres são criadas para as atividades domésticas, proibidas de estudar, são exploradas e violadas sexualmente. 

Quando se tornam jovens, os pais as vendem para se casarem com homens de famílias abastadas, mesmo contra a vontade delas. Elas são, literalmente, produtos que valem dotes de variados preços. Assim, a tradição perdura, massacrando a dignidade e o direito humano de liberdade daquelas jovens.

O espetáculo de vocês é uma denúncia ao mundo, um grito de coragem do coletivo, sendo que vocês são apenas um dos grupos do movimento indiano Jana Sanskriti, que traz a opressão como pauta para a luta e transformação. Mesmo o espetáculo sendo encenado em hindú, a dor das mulheres e a expressividade de seus códigos e partituras físicas nos são uma comunicação sem ruídos. 

Por fim, a plateia é interrogada (em inglês e com tradução simultânea para espanhol e português) num teatro-fórum: o que temos adizer para o pai da jovem? O que faríamos se fôssemos a jovem? Algumas pessoas são convidadas a entrarem na cena e substituírem os personagens e tomarem atitudes de revolução.

Moro com duas amigas em Brasília, capital do Brasil. Duas feministas, que tanto me ensinam sobre meus privilégios por ser homem e me sensibilizam diante de suas pautas. A mim, cabe apenas trabalhar meu machismo e o dos meus pares, levantar e lutar com elas. É isso que o teatro de vocês evoca. É um convite para a ação, para sairmos do comodismo, para entrarmos na cena e lutar.

Estamos com vocês, na utopia do combate ao patriarcalismo na Índia, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo.
Força!


Danilo.
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quarta-feira, 22 de junho de 2016

CARTA-CRÍTICA: O príncipe negro que renasce em mim















Maricá (RJ), 22 de junho de 2016

Mônia, Gabriel, Daniele e Patrícia,

Deparar-me com o trabalho de vocês no Festival Internacional da Utopia, que acontece até 26 de junho, em Maricá (RJ), foi me reencontrar comigo, minhas dores, descobertas e luta. O cine-teatro da cidade inaugurou hoje numa evocação à África, aos meus antepassados. Queria poder ter tido uma infância longe do racismo – mas essa utopia ainda não conquistamos.

Queria ter meus 6 ou 7 anos e me deparar com o espetáculo que vocês apresentaram hoje: “Kawagalana – Histórias de um príncipe negro” e, ali, me perceber também um príncipe, ter oportunidade de me fabular num universo de rei. Porém, no meu espectro de moleque que vivenciou o teatro ainda na infância, restaram-me apenas, na 1ª série do ensino fundamental, o Baltazar (rei Mago negro) e, na 3ª, o saci-pererê.














Nosso imaginário é branco. Nossa educação é branca. As tramas que nos ensinam desde a infância são de heróis e heroínas brancos. A gente aprende que o berço do teatro é a Grécia (maior equívoco - o teatro e as artes cênicas desenvolveram-se simultaneamente em várias partes do mundo). E por esse motivo nunca pude ser Jesus Cristo nas paixões da semana santa ou qualquer outro herói consagrado. “Não pode porque você é negro”. O racismo, por privilégio de uma raça/etnia historicamente abastada, está difundido na nossa literatura teatral, no cinema, nas novelas e romances. 

Há uma lacuna gigantesca na visibilidade dos autores negros narrando sobre nossa perspectiva, sobre nossos personagens. Quantos escritores, autores de novela, cineastas, diretores negros nós conhecemos? Quantos príncipes e princesas negros já vimos nas tramas da infância? Porque não existem ou porque não há espaço para que eles apareçam?



Olhei a plateia, cheia de crianças da rede municipal de Maricá. Olhei a cor da pele delas – a mesma da minha. Ali, nós nos tornamos príncipes valentes na trama criada pela professora carioca Daniele Zamorano (também diretora da obra). Ganhei o dom de adivinhador do futuro, enfrentei a Morte e, mesmo sendo escravizado no Brasil, consegui lutar contra nossos colonizadores e me tornei o primeiro príncipe negro do país - obrigado por essa oportunidade, Trupe Amadores S/A. 

A arte não tem cor. Tanto que dos três artistas que encenam negros e negras, apenas Gabriel Leal (Kawagalana) é negro. A diretora e autora, também não é negra, mas mostra profunda sensibilidade com  o tema. Repito: a arte não tem cor. Com ela, podemos ser quem nós quisermos ser. Pena que só aprendi isso depois de adulto. Em nós, negros e negras, há uma necessidade latente de resistência diante de todas essas invisibilidades. 















Por isso a gente se afirma negro, LGBT, mulher, pessoa com deficiência, idoso, jovem, rural, de periferia e tantas outras identidades. Porque são segmentos oprimidos por uma elite que nos rouba o direito de sermos quem somos e nos criminaliza. Ser negro no Brasil é já nascer lutando e o trabalho de vocês evoca essa luta, sensibiliza crianças brancas sobre nossa história, empodera crianças negras que tanto são massacradas pela cor.

Coisas que eu não precisava ter escutado na minha infância:

Você é um neguinho (de um familiar branco adulto, em tom pejorativo);
Você é um neguinho de alma branca (de outro familiar – pardo - adulto);
Seu preto cor de merda (de crianças brancas amigas da família);
Cabelo duro, etc (de amigos da escola brancos).

Reafirmo a necessidade de atenção à Lei 10.639, de 2003, que insere no currículo escolar o estudo da História da África e dos Africanos, apesar de poucas escolas levarem a pauta a sério e ainda endeusarem a Princesa Isabel, Dom Pedro I e II, Cristovão Colombo, etc. Lembrei do trabalho da MC Soffia, rapper infantil que empodera meninas negras nas suas canções. Lembrei também do trabalho do ator e contador de histórias cearense Edivaldo Batista, que apresenta espetáculos infantis a partir de contos africanos.

Kawagalana significa “amor fraterno, amor universal”, como vocês mesmos me disseram. É isso que a obra de vocês emana. AMOR. Hoje cedo, na abertura do festival, João Pedro Stédile, fundador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), disse que a revolução acontecerá pela Cultura – o trabalho de vocês é uma pequena revolução. 

Aleida Guevara, filha de Che, disse que temos que ser capazes de sentir as dores dos povos no mundo. Quando pudermos sentir essas dores juntos, conseguiremos força para lutar juntos também, lutar uns pelos outros, independentemente da nossa diversidade.

Com amor e fraternidade,

Danilo.

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