terça-feira, 29 de novembro de 2016

Expressões Humanas entra em cartraz para comemorar 25 anos de teatro de Herê Aquino

Foto: Carol Veras
Na trajetória da diretora de teatro Herê Aquino, vida e obra se confundem nesses 25 anos de estrada. Orlando é seu mais recente trabalho, assinado pelo grupo Expressões Humanas. A dramaturgia, adaptada da obra homônima de Virgínia Woolf, propõe a discussão de gênero e identidade. Para celebrar todo o tempo de resistência artística da diretora, o grupo entra em temporada no Teatro Dragão do Mar às terças de dezembro (6, 13 e 20), sempre às 19h.

Orlando, que estreou em 2013, narra a trama de um ser imortal que, ao longo de quatro séculos, vive a experiência de ser homem e mulher sem perder a consciência de sua identidade. Amante das artes, o/a protagonista transgride o tempo, o espaço e as convenções dos sexos, na perene busca pelo sentido da vida, da arte e do amor. A obra inglesa, escrita em 1928, ganha uma roupagem cênica brasileira sob comando do Expressões.


O espetáculo, numa proposta imagética fantástica e poética, é permeado por canções ao vivo, com direção musical de Juliana Veras, que está em cena ao lado de Marina Brito e Murilo Ramos. Em 2014, Orlando já participou do Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, do Festival de Teatro de Fortaleza e da Feira do Livro em Cabo Verde, na África.

Vida e Obra

As pautas sociais e a luta contra as opressões sempre fizeram parte da poética que Herê leva para a cena em suas direções desde que fundou o Expressões Humanas. Militante dos movimentos de cultura, mulheres, mobilidade urbana e LGBT, a diretora se tornou referência para uma gama de artistas na capital. Aos 58 anos, Herê soma direção em 18 espetáculos, além de inúmeros prêmios locais, regionais e nacionais.

SERVIÇO

ORLANDO
Dias 6, 13 e 20 de dezembro às 19h.
Teatro do Dragão do Mar
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Informações: (85) 3021 4946/ (85) 99929 9112
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domingo, 27 de novembro de 2016

Carta-crítica ao espetáculo Fio a Fio

Édi Oliveira e Giselle Rodrigues e, Fio a Fio. Foto:  Diego Bresani.

Brasília, 26 Nov 2016.

Édi Oliveira e Giselle Rodrigues,

Eu me chamo Janaína e, a convite de meu amigo e crítico Danilo Castro, me arrisco a escrever minha primeira crítica em Dança. Escolhi o formato de carta-crítica por acreditar nessa genuína proposta em que o afeto passa a ser o ponto 1 de partida para uma crítica em arte. Como uma carta, nada mais apropriado do que enfatizar meu particular prévio respeito pelo trabalho e história da dança em Brasília que vocês representam.

Ontem, ao assistir o espetáculo FIO A FIO no Prêmio Sesc do Teatro Candango, via suscitar em mim sensações e imagens atreladas de memórias (talvez estas memórias mais inventadas do que de fato vividas, mas nem por isso menos reais) de um envelhecimento presente. Os dois corpos mostrados entre o ato de vestir-se e despir-se, junto aos encontros que permitiam nascer danças sutis alcançou-me com extrema sensibilidade.

Perguntei-me, por algumas vezes, sobre as escolhas das repetições no espaço, entre as ações de sentar o outro à cadeira e deitar-se ao chão, que esboçavam uma transformação do movimento que, a meu ver, não chegou a acontecer tal qual a expectativa que por ora me havia gerado. Nessa carta, então, aproveito para voltar a pergunta a vocês: havia, de fato, a escolha em permanecer em uma dinâmica linear da repetição? Reforço que minha pergunta se faz numa tentativa de compartilhar das impressões de uma jovem coreógrafa cujo trabalho de dois coreógrafos que compõem minha lista de referências me fez repensar questões
sobre tempo e espaço.

Ainda, me destino particularmente à Giselle em relação a sua presença neste específico trabalho que, em contraponto à presença de Édi, me dava a impressão de um leve apagamento do estado de presença feminino. Digo isto por reconhecer a potência de seus trabalhos e, claro, levando em consideração que os signos e símbolos da dança sempre produzem textos “a partir de”. 


Nesta ocasião, os contextos culturais e sociais não me permitem ignorar que a presença de um corpo feminino e um corpo masculino em cena me levarão diretamente a diversas questões de gênero. Assim, ao me deparar com a mulher sempre sendo carregada, ou lançada aos pés, ou com a fala cortada, mais esquecida ou, talvez, “acuada”, me leva a questionar os estados de presença propostos durante o espetáculo.

Para finalizar, deixo mais uma vez minha admiração pelos profissionais e espero ter sido clara nesse desafio que é a escrita crítica no seu sentido de “fazer pensar”, FIO A FIO ao invés do senso comum atribuído à palavra crítica, associando-a a “achar problemas ou julgar”. Ainda, aproveito para agradecer ao Danilo pela oportunidade de me despertar novas maneiras de atuar artisticamente, no pensar e fazer que é a Dança.

Com respeito e carinho,

Janaína Moraes.

CARTA-CRÍTICA 

As cartas-críticas são uma proposta de crítica defendida pelo artista e jornalista Danilo Castro, em pesquisa atualmente em desenvolvimento no Mestrado em Artes Cênicas do Programa de Pós-Graduação da Universidade de Brasília/UnB.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

OTELO: nova roupagem para que questão?

Otelo (2016), Cia. Brasilienses de Teatro.


Brasília, 25 de novembro de 2016.

James Fensterseifer,

Prazer, eu me chamo Danilo e costumo escrever sobre as cenas que assisto. Eu queria dizer diretamente a todos os que compõem o Otelo, by Cia. Brasilienses de Teatro, que assisti ontem durante o Prêmio Sesc Candango de Teatro. Porém preferi ter você como destinatário primário dessa carta-crítica não pela tendência escrota que nós (críticos, artistas, acadêmicos, jornalistas) temos de hierarquizar o papel da direção como superior ao papel dos atores, técnicos, etc. Mas porque acredito que o que assisti tem uma referência muito forte do seu olhar de encenador. Me corrija se eu estiver enganado, por favor. Se o processo for colaborativo e horizontal na concepção estética.

Fiquei pensando nas suas escolhas e resoluções para dar conta da tragédia shakespeariana. Fiquei pensando no papel dessa dramaturgia para o teatro contemporâneo, mas principalmente no papel do que você propõe com a direção e com os signos que evoca através da iluminação, figurinos (Marcus Barozzi), cenário, sonoplastia (Adriano Sommer). Quais provocações vocês querem lançar pra nós com esse trabalho? Qual é a questão da obra de vocês? Eu pergunto realmente na dúvida, acho que não consegui captar. Ou será que ficou difuso tudo isso? Ou será que o mote era simplesmente tentar dar uma nova roupagem - inspirada no movimento construtivista (como diz a sinopse) - a uma obra clássica? O objetivo é redizer aquilo que já está dito, aquilo que já conhecemos dessa renomada obra da literatura inglesa?

Essa carta não é para desafiar, muito menos depreciar a poética de vocês. É para refletir. Reconheço com todo respeito esses mais de dez anos dedicados ao teatro dessa Brasília que me acolhe desde 2013, quando pisei aqui pela primeira vez, mas há um lugar político do fazer teatral dos nossos tempos que talvez peça mais força à obra, peça um argumento mais denso que case ou destoe do texto medieval de amor-ciúme-ódio que vocês nos apresentaram. A gente sabe o que o autor quer nos dizer. Mas o que a Cia. Brasilienses quer com essa obra, mesmo que seja a terceira de Shakespeare que vocês lançam ao mundo?

Daí me vem à cabeça vários pontos que gostaria de pincelar: o gran finale com o blackout a la Deus Ex Machina* resolvendo como de costume as mortes de Desdemona (Rodrigo Issa), Emília (Gustavo Gris) e Otelo (Tainá Baldez) – aqui reconheço uma importante discussão de gênero na inversão dos papéis entre homens e mulheres da companhia; friso também a ausência de transição quando Emília descobre que Desdemona está morta; o solilóquio aparentemente  desproposital, brando, pacífico e leve de um Otelo assassino que está tomado pela fúria do seu próprio amor. Para pensar: o que significa chamar pejorativamente de negro um Otelo de 1603, mas no ano de 2016?

Acerca do cenário fúnebre, da iluminação penumbrosa, dos figurinos dark (com telas e borboletas que anulavam o rosto dos atores, distanciando-nos deles) o que me chegou foi uma concatenação de elementos que provocavam pouca mudança na composição imagética, deixando tudo, ao meu ver, com um ritmo linear. Das pessoas que conversei, sentimos o mesmo: a vontade de ser surpreendido, de arregalar o olho para adentrar naquela trama e crescer com ela. Talvez vocês tenham na mão uma dramaturgia tão consolidada, que não seja mesmo necessário muitos elementos, transições, mudanças de luz. Porém, essa história teria que de fato estar orgânica aos atores, dum modo que seria apenas necessário que eles existissem para que a obra acontecesse.

Espero que eu tenha conseguido explicar tudo que pensei sem me enrolar tanto. E que possamos aprender juntos sobre teatro.

Com respeito,

Danilo.


*De origem grega, Deus Ex-machina refere-se ao surgimento de um evento introduzido numa trama ficcional com o objetivo de resolver uma situação ou desemaranhar um enredo.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

De Fortaleza à BH, enviadescer como sinônimo de libertação

Campeonato InterDrag de Gaymada! Diversidade no Rio de Janeiro

Belo Horizonte, 20 de novembro de 2016.

Lindas do Toda Deseo,

Dia da Consciência Negra e assisto a um  vídeo do discurso de uma garota preta, pobre, consciente do seu lugar de fala, que carrega na sua estética a defesa para o próprio tormento. Um tormento que não nasceu com ela, mas que impuseram à sua condição. Ela afirma que, cada vez mais, estamos encontrando pessoas que fazem parte da “Geração Tombamento”. Gente empoderada, que não tem medo de ser aquilo que é e que encontra nisso uma forma política de resistir no mundo. Talvez o coletivo de vocês, Toda Deseo, seja mais um reflexo dessa geração em tempos onde o país têm sido tão repressor, cerceado pelo fanatismo religioso no Congresso Nacional e no Executivo, pela hegemonia de pensamento de uma elite pequena que quer padronizar nossos corpos e nossos comportamentos.

Presenciei ontem o encontro das cearenses veteranas As Travestidas com vocês, bichas de Belo Horizonte que compõem o grupo Toda Deseo – jovens artistas que discutem a identidade de gênero em cenas onde escracho e sem-vergonhice são palavras de ordem. Tudo isso no nobre Sesc Palladium. E eu, no alto do meu conforto de homem-cis*, olhei pra vocês e quis que vocês fossem esteticamente “limpinhas” e impecáveis como As Travestidas são nas makes, nos figurinos, nos números de dublagem, canto e dança a la Teatro de Revista – ainda que a apresentação tenha sido fragmentada pelos longos blackouts entre os números.

Toda Deseo (Rocinha -RJ)
Gisele Almodóvar (Silvero Pereira), dyva mother das travas, avisou: “quem esperava ver uma dramaturgia, uma coisa séria, se deu mal. Aqui é um espetáculo de fechação!”. E quem disse que fechação não é um ato representativo de resistência? Ainda mais na cena teatral. A arte transformista tem ganhado respeito como linguagem cênica no Brasil, tem saído dos guetos e boates gays para ganhar palcos importantes do teatro brasileiro. E nisso, as travas, drags e atores-transformistas cearenses do grupo As Travestidas, numa luta que já dura mais de dez anos, têm responsabilidade grande.

A “poética trash” do Toda Deseo é também uma forma de se situar esteticamente no teatro contemporâneo brasileiro. Não à toa as alusões diretas ao Dzi Croquettes são recorrentes. Eles surgiram no meio da repressão dos anos 1960 e 1970 e vocês eclodem no meio do golpe de 2016. Para todo processo de repressão, haverá sempre um movimento contrário que se fortifica, que através da criatividade resiste no meio do caos. Vejam o que foi o nascimento do Butoh após as bombas De Hiroshima e Nagasaki. E mesmo que o Brasil seja o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, temos que comemorar que instituições respeitadas como o Sesc circulem com trabalhos como Uma Flor de Dama, do Silvero, na maior mostra de circulação de artes cênicas do país (Palco Giratório).


Aí descubro que vocês, Toda Deseo, pra completar, promovem as Fechações – criações de intervenções cênico-musicais e o Campeonato Interdrag de Gaymada, realizado em espaços públicos de Belo Horizonte. É pura viadagem! Quer coisa melhor? Um salve ao nosso bom humor, à alegria que nossa cultura LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) emana por natureza. No dia anterior, assisti a um evento internacional de Vogue no espaço Tambor Mineiro. Organizado por gays? Não! Por três belas garotas-cis do Trio Lipstick, que estão fazendo a cena na cidade enviadescer ainda mais ao trazer a cultura afrogay das periferias americanas para o Brasil. Os movimentos de cultura estão em fluxo, em transformação. Que possamos interagir, agregar pautas. Isso é que que elas fazem pela luta das mulheres e dos LGBT.


Tô pra achar uma capital mais inspiradora para desfilar de salto que Belo Horizonte. Enviadescer será sempre necessário. Enviadescer como sinônimo de libertação, não de homossexualidade. Nós, homens, mulheres, cis ou trans**, pessoas não binárias***, homossexuais, heterossexuais, bissexuais, temos mais é que polenizar e polemizar destemidos nossas liberdades, nossos desejos – porque o tempo todo a maré fica tentando nos engolir. Toda Deseo, colem nas Travestidas, circulem com elas, aviadem ainda mais o Brasil!

MARÁ – o quê? – VILHOSAS!

Beijos,

Danilo.


*Homem-cis é aquela pessoa que nasceu com o sexo masculino e se identifica como homem.
**Trans são aquelas pessoas que nasceram com um sexo, mas que se identificam como do gênero "oposto".
***Pessoas não-binárias são aquelas pessoas que não se identificam nem como homem ou nem como mulher.




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Arte enquanto identidade (Diário do Nordeste)



Para o ator Danilo Castro, seu fazer artístico, inspirado em memórias da infância à fase adulta, é totalmente atravessado pela experiência de ser negro. Ele conta que soava muito opressor, escutar frases como “Você é negro, mas seu cabelo é bom” e “Você é negro, mas seus traços são bonitos”, sobretudo quando ele era criança e adolescente. “Então, a partir dos 20 e poucos anos, isso começou a entrar no meu trabalho como ator. 

Dentro do (grupo) Achados e Perdidos, na ‘Obra Cênica #1’, eu uso farinha para me ‘branquear’ em cena”, detalha Danilo. No último mês de julho, em Brasília (DF),ondemorahoje,o ator cearense e a designer Letícia Maria realizaram a intervenção urbana “DeuséNegra”. Segundo o texto de apresentação da intervenção, feita com cartazes lambe-lambe, colados ao redor da Catedral da capital federal, a ideia era contestar “o ideal de soberania racial e de gênero atribuído a Deus no cristianismo”.

Umapassagembíblica do livro da Gênesis (9:1-29) é posta em questão: no caso, a mesma que colonizadores brancos eeuropeus usaram para “legitimar” a escravidão de povos negros africanos. Em fase de elaboração, o ator Danilo Castro trabalha agora na escrita da peça teatral “Príncipe Norueguês”. “Será baseado num namoro que tive com um cara, e que me falava várias frases racistas. Quero pesquisar, entrando na vida desse cara e da minha, marcada pela discriminação racial”, adianta.

Corpo Partindo da ideia de que uma das potências artísticas da negritude está na presença física do próprio corpo dos artistas em questão, a atriz Vanéssia Gomes reflete que o orgulho negro encontra caminhos sutis, também, nofazer artístico. “No caso do grupo em que eu trabalho, do Teatro de Caretas, a gente tem escolhas muito específicas e culturais. E eu, enquanto integrante do grupo,ajudoaelaboraressasescolhas. Isso se dá pela dramaturgia que escolhemos, ou pelo entendimento da nossa ancestralidade (o legado de antepassados). Esta, quando é observada, traz a força do tempo”, reflete a atriz.

Ancestralidade 

Além do trabalho como atriz, Vanéssia hoje é articuladora dearteeculturadaUniversidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Direcionando o olhar para a pesquisa da africanidade, elas edeclara em constante reflexão sobre essa ancestralidade. “E isso acaba atravessando meu olhar (também como artista)”, pontua ela. Enquanto realizava a intervenção “Você não é negro”, colando cartazes pelas ruas de Maric (RJ), o ator Danilo Castro carregava uma de suas referências ancestrais. Ele pôs, na cabeça, um turbante, em homenagem a sua vó paterna, negra, que costumava usar a vestimenta e por isso já fora taxadade “macumbeira”. 

Cursando o mestrado em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (Unb), ele diz que é o único negro de uma turma de 14 alunos do curso. “Estudei em bons colégios, em universidade pública.Tive ‘privilégios’ que normalmente negros que têm a pele mais escura que a minha não têm. Sou filho de uma mãe branca, com pai negro. Ele usava um black power.Não tinha como eu não me reconhecer como negro”, conta Danilo. (FG)

Fonte: Caderno 3 - Diário do Nordeste
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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

La poética de la violación ou estuprador emancipado

Foto: Jose Miguel Carrasco

Brasília, 24 de agosto de 2016.

Ayelén, Carla Di Grazia, Josefina e Carla Rímola,

Esta carta é, antes de tudo, um pedido de desculpas a duas garotas que vou intituladas por N. e A. O desejo de fazer isso me surgiu ontem, após assistir vocês com o La Wagner, na abertura do 17º Cena Contemporânea - Festival Internacional de Teatro de Brasília. A obra que vocês criaram é um desabafo social poetizado nos seus corpos sob as vestes das composições do alemão Richard Wagner (1813-1883) e direção do jovem argentino Pablo Rotemberg.

A força da cena portenha me interessa por ser bruta. E da brutalidade surge a poesia. Desnudas, a dança-teatro de vocês dói nas suas carnes, enquanto arde em nós, que assistimos à poética do estupro, coreografada a partir de referências da violação sexual. Como será para um estuprador assisti-las? Como será para uma vítima assisti-las?

Vocês geram constrangimento pelo desnudamento do corpo nu, não pelo nu em si. Não ficamos somente diante de uma estética de mulheres à mostra, erotizadas. Ficamos diante de corpos que se abrem para nós. Em pouco tempo, estar nu se perde no tempo, não impressiona mais. Porque o que os corpos exaustos/agredidos de vocês nos falam é mais importante. Me lembrou as provocações entre erotismo e pornografia propostas pela Cia. Dita, de Fortaleza (CE), enquanto os jogos com a violência real podem ser relacionados com o grupo Cena 11 Cia. de Dança, de Florianópolis (SC).



Dados

Em agosto de 2016, comemoramos uma década da Lei Maria da Penha (11.340/2006), criada no intuito de punir com mais rigor e erradicar a violência contra a mulher. O aniversário dessa lei foi comemorado ontem, com vocês quatro. Ainda assim, os dados do Disque 180 mostram que os casos de assédios, estupros e outras agressões ainda é crescente.

De acordo com o Mapa da Violência Contra a Mulher 2015, entre 1980 e 2013, num ritmo crescente ao longo do tempo, tanto em número quanto em taxas, morreu um total de 106.093 mulheres, vítimas de homicídio. Efetivamente, o número de vítimas passou de 1.353 mulheres em 1980, para 4.762 em 2013, um aumento de 252%. A taxa, que em 1980 era de 2,3 vítimas por 100 mil, passa para 4,8 em 2013, um aumento de 111,1%.

Na publicação Estupro no Brasil (2014), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que, por ano, no mínimo 527 mil pessoas são estupradas no Brasil. Desses casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 89% das vítimas são do sexo feminino, sendo que as crianças e adolescentes representam mais de 70% das vítimas. Os agressores, não são apenas desconhecidos, mas também maridos, namorados, pais, patrões e amigos. De acordo com o 9º Anuário da Segurança Pública, no Brasil (2015), 90% das mulheres têm medo se sofrer violência sexual. O Brasil registrou um estupro a cada 11 minutos.

Espetáculo La Wagner. Divulgação.


Retrocesso

O trabalho de vocês se faz necessário porque o machismo é um problema universal. No Brasil, amanhã (25/08), por conta de um congresso repleto de homens conservadores, assistiremos à saída ilegítima da presidenta Dilma Rousseff, que tem forte atuação em defesa das mulheres, . O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), é autor do Projeto de Lei 50.6913, que dificulta o aborto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em caso de estupro. O projeto é apoiado pela maioria da congresso, bem como todas as pautas que retrocedem as liberdades e direitos individuais, a julgar pelo Estatuto da Família (PL 6583), que define legalmente como família apenas casais heterossexuais. A situação por aqui está difícil, por isso vocês são necessárias aqui no Cena.


Espetáculo La Wagner. Dilvulgação.

Pedido de desculpas

Mas porque essa carta é um pedido de desculpas? Na minha adolescência, namorei com N. Porém, antes de namorarmos, segurei-a à força na sala de aula e tentei beijá-la, enquanto ela se esquivava. Tempo depois, no início da faculdade, fiz o mesmo com A., durante uma festa. O contato com diversas mulheres feministas e o reconhecimento da minha homossexualidade, aos poucos, me tornaram um homem sensível à pauta de gênero, emancipado – ainda que isso não mude os privilégios que tenho por ser homem numa sociedade sexista. Caso contrário, provavelmente estaria eu reproduzindo todos os braços do machismo.

A cultura do estupro é algo naturalmente ensinado nas rodas de machos heterossexuais - reproduzido também entre homens gays. Em festas, na escola, nos bares, na universidade, a todo momento o culto à força e à dominação sobre a mulher se torna um bem comum entre os homens. Até me entender como um violador dos direitos de uma mulher levou tempo. Há homens que passam uma vida inteira com esses tipos de comportamentos, que chegam à violência sexual e moral, onde o estupro é naturalizado como instrumento de poder.

Ayelén, Carlas e Josefina, estou encaminhando esta carta também para N. e A. Obrigado pela que reflexão que vocês trouxeram ao nosso festival. Reconheço meu lugar de fala, me envergonho de quem fui nesses momentos em que agi guiado pela lógica opressora dos homens. Estou na luta com vocês.


Com respeito,

Danilo.
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segunda-feira, 25 de julho de 2016

DEUS É NEGRA



DEUS É NEGRA é uma intervenção de lambe-lambe que contesta o ideal de soberania racial e de gênero atribuído a Deus no Cristianismo. A motivação surgiu quando Danilo Castro, na adolescência, não se permtiu encenar Jesus durante uma Paixão de Cristo.

Afinal, Danilo não se sentia imagem e semelhança de Deus por ser negro, já que a imagem de Cristo que ele conhecia, imposta ao imaginário popular, é sempre a de um homem branco, dos olhos claros e cabelos lisos.



Em Gêneses 9:1-29, Noé amaldiçoa o neto: "Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos". Canaã é filho de Cão, que significaria, em hebraico, escuro ou queimado. Cão foi o responsável por povoar a África após o dilúvio.

Esse motivo legitimou a escravidão imposta pelos europeus ao povo negro - os colonizadores estariam resguardados pela #BíbliaSagrada. Parece mentira, mas ainda hoje, fundamentalistas como Marco Feliciano soltam pérolas justificando porque negros são amaldiçoados.


O trabalho contou com a colaboração da designer Letícia Maria Lima, autora do projeto "rabisco". Os lambes foram colados dia 17 de julho de 2016, em Brasília, pelos arredores da Catedral.
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