quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Nudez e Arte no Brasil: Escancarar verdades contra a manutenção de mentiras

O Cena Contemporânea 2017: Festival Internacional de Teatro de Brasília trouxe obras que questionam noções de “nudez” e “atentado ao pudor” em um contexto político conservador
















Por Danilo Castro*

Ainda que o Brasil seja conhecido no mundo como um país que ostenta corpos nus, grande parte da população permanece extremamente conservadora em muitos aspectos. E os reflexos dessa repressão na produção artística do país têm sido comum nos últimos tempos com apoio do Governo. Em protesto, o Cena Contemporânea 2017: Festival Internacional de Teatro, realizado em agosto deste ano, realizou uma foto de nu artístico coletiva a céu aberto, em frente ao Museu Nacional da República.

Performar é gerar uma ruptura política no cotidiano e desviá-lo para a poesia, gerar crise para levar à reflexão. O artista Maikon K, no dia 15 de julho de 2017, foi bruscamente impedido de realizar sua performance “DNA de DAN”. A polícia do Governo de Brasília o levou preso, alegando “atentado ao pudor” porque ele estava nu, em performance, dentro de uma bolha gigante de plástico. 

Maikon tinha autorização do Museu para estar ali e se apresentava na mostra Sesc Palco Giratório, uma das mais importantes mostras de Artes Cênicas do país. Ainda assim, a polícia destruiu seu cenário e o levou preso. Um mês depois, Diego Ponce de Leon, coordenador pedagógico do Cena Contemporânea 2017, idealizou e produziu a foto com 155 pessoas nuas. Ao centro, o artista Maikon K foi convidado para a fotoperformance no mesmo local onde a censura do seu trabalho aconteceu. O clique do fotógrafo Kazuo Okubo expõe uma relação entre as pessoas nuas e a arquitetura de Oscar Niemeyer, que assina os projetos arquitetônicos da capital brasileira. 

















O crítico literário Mário Pedrosa diz: “Em época de crise, fique do lado do artista”. A frase está estampada na entrada do Museu, na exposição Não Matarás, que relembra a ditadura militar no Brasil (1964-1989). A arte antecipa e evidencia questões que a sociedade ainda não conseguiu discutir ou não se sensibilizou para tal. A truculência da polícia é também uma performance, mas de hipocrisia, fragilidade e despreparo. A polícia continua com seu analfabetismo poético em nome da “ordem do Estado” ou pela simples manutenção de seu suposto poder.

O erótico e o pornográfico estão na performance nua? Ou na cabeça de quem vê? Dessa vez, a polícia não foi capaz de prender 155 pessoas. Liberdade de expressão é direito previsto na Constituição da República Federativa do Brasil (1888). Bem como atentado ao pudor está no Código Penal Brasileiro (1940). Como definir limites do que é certo ou errado diante dos nossos marcos legais, da arte e dos nossos corpos? Num país que pende cada vez mais para o fascismo, a arte ficará sempre de escanteio, ainda que ela seja essencial para gerar a crítica da crise.

Em julho de 2016, a então presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, sofreu impeachment após um golpe político que feriu a Constituição de 1988. A partir disso, a supremacia deste documento legal perdeu força, tanto que outros direitos constitucionais estão sendo violados a cada dia. A arte, nesse contexto, é disputa de poder, de interpretações, de confrontos. É um lugar de luta. O festival Cena Contemporânea 2017, ao propor esse nu artístico coletivo, resiste contra o conservadorismo e o enrijecimento que querem da arte no Brasil.














Essa repressão é legitimada por um parlamento e um presidente que evocam retrocessos, com interesses empresariais sobre os bens públicos. Para eles, os artistas precisam ser silenciados, tanto que a primeira medida do governo golpista de Michel Temer foi extinguir o Ministério da Cultura. Mesmo com uma grande parte da população sem memória, ignorante e burguesa, a liberdade resistirá. Estamos o tempo todo em performance. Uns para escancarar verdades. Outros pela manutenção de mentiras.

*Danilo Castro é ator, jornalista e crítico em Artes Cênicas. Escreve, entre outros, em blog
próprio (http://odanilocastro.blogspot.com.br)


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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Teatro-documentário pela descolonização do conhecimento e das artes


Foto: Humberto Araújo

Brasília, 31 de agosto de 2017

Clarisse, Daniele, Cris e Mariana,

Há mais futuro que passado, apresentado por vocês ontem no Cena Contemporânea 2017, é um manifesto necessário contra os nossos privilégios enquanto homens na história da humanidade. E que vergonha deu de todo nosso machismo que se retroalimenta no conforto das nossas calças. O teatro-documentário de vocês, que nos conta a história de grandes mulheres artistas na América Latina, é aquele tapa didático que a gente precisa pra acordar. Por que só lembramos de homens diante dos grandes feitos históricos? Aprendemos assim, a cada geração. E, enquanto não houver pessoas como vocês, que contestem aquilo que nos disseram que é a verdade, estaremos colonizados.

De fato, em 517 anos de “história eurocêntrica” no Brasil, temos apenas 128 anos sem colonização oficial – mas continuamos em colônia até hoje, em muitos aspectos. Enquanto houver o “papel da mulher”, continuaremos em colônia. Enquanto eu continuar sendo o único negro em vários espaços que frequento, continuaremos em colônia. Enquanto depreciarmos o Brasil para enaltecer a Europa, continuaremos em colônia. Enquanto nossas referências teóricas e artísticas forem somente masculinas, ricas, brancas, cristãs e heterossexuais, continuaremos em colônia. Temos muitos anos pela frente pra reverter esse tipo de aprendizado hierárquico. Há mais futuro que passado. E vocês nos provocam o exercício de olharmos cada um para o próprio umbigo, assumirmos a meia culpa diante dos privilégios que temos, para em seguida tentarmos nos somar e descolonizar.

Como disse a escritora portuguesa negra Grada Kilomba em palestra-performance realizada em São Paulo, em 2016, “que alienação ser forçado a identificar-se e a performatizar a si mesmo/a partir do roteiro feito pelo sujeito branco. Que decepção sermos forçados/as a olhar para nós mesmos/as como se estivéssemos no lugar deles/as. E que dor encontrar-se preso/a nesta ordem colonial”. Quando falarei de Grada sem precisar afirmar que ela é negra? Precisamos descolonizar nossas casas, nossos filhos, nossos amigos, nossas práticas diárias, nossos representantes políticos, nossas críticas de Artes Cênicas. Das sete pessoas que criticam o Cena, apenas duas são mulheres. Esta carta se inscreve também como uma tentativa de descolonização.

Esses dias eu estava estudando o clássico do historiador Nelson Werneck Sodré, História da Imprensa no Brasil (1999), e me deparei várias vezes com o termo “homens das letras”. O livro narra a imprensa de 1500 ao século XIX. Não vi uma mulher ser mencionada. E me perguntei: quem eram as Mulheres das Letras? O google deu aquela ajuda pra eu descobrir Narcisa Amália de Campos (1852-1924), primeira jornalista profissional do Brasil, feminista e abolicionista. Passando por alguns artigos, descobri que várias mulheres, durante esse período, se travestiam de pseudônimos masculinos para serem aceitas nos folhetins. A história não é mesmo só aquilo que a gente vê. É aquilo que se revela quando a gente nada contra a maré.

Sobre a encenação que vocês nos mostram, o ritmo de apresentação das histórias contadas em cartas, que se repetem inúmeras vezes com pouca variação estilística e de intensidade, me levou a um conforto da apreciação – daquele tipo que distancia mais que acolhe ou instiga. Mais ou menos assim: uma-carta-um-vídeo-uma-história-uma-carta-um-vídeo-uma-história-uma-carta-um-vídeo-uma-história… A outra questão trata da dramaturgia coletiva que vocês assinam. Fiquei pensando a respeito da solução encontrada para arrematar essa trama que costura as histórias dessas grandes mulheres por meio de cartas que teriam sido enviadas entre as artistas.

Na verdade, as cartas foram criadas por vocês para solucionar esse enredo. Como um deus ex machina*, todos os problemas são resolvidos. Após nos contarem a biografia de mulheres como a estilista brasileira Zuzu Angel e a poeta peruana Victoria Santa Cruz, vocês nos revelam: essa história das correspondências é inventada; as cartas não foram trocadas por elas; essa foi a nossa forma de mostrar mulheres invisibilizadas. Pra mim, que embarquei nesse enredo real, consistente e político, foi como um tomar golpe disfarçado de “nossa ficção”.

Nademos juntos. Estou com vocês,

Danilo**

*A expressão “deus ex machina”, do latim, significa literalmente “deus surgido da máquina”. O termo é utilizado para solucionar, de forma inesperada, uma obra de ficção.

Crítica feita a convite do Festival Cena Contemporanea 2017.
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Carnaval de Kitinete: por mais Circo, Dança e Performance no Cena 2017!


Foto: Humberto Araújo


Brasília, 29 de agosto de 2017

Léo,

Uma apresentação de Artes Cênicas não é só um evento. É uma experiência. O filósofo argentino Jorge Dubatti, em Teatro dos Mortos (2017), fala sobre teatro não como um lugar para ver, mas para conVIVER. Ele compreende Circo, Dança e Performance dentro do termo “teatro”. E o seu Carnaval de Kitinete, que partilhei com você e mais alguns desconhecidos ontem numa kit da quadra comercial 716 Norte, durante o Cena Contemporânea 2017, me deslocou daquele lugar confortável e comum que nos colocamos enquanto espectadores: faça que eu estou aqui para assistir.

A experiência começa ao procurarmos o endereço da sua galeria-doméstica. Algumas pessoas sabem dizer onde é, outras não. Ao chegarmos na portaria do prédio, uma pessoa da produção avisa que devemos nos dirigir ao trailer do outro lado da pista para recebermos as instruções. Duas mulheres que estão tomando vinho nos esperam. Sentamos com elas e recebemos as instruções para a apreciação do seu trabalho, com direção-curadoria de Tatiana Bittar.

Regras: pode fotografar, pode filmar, pode conversar, pode tocar nos objetos, pode entrar sem bater. Faz tempo que o francês Marcel Duchamp colocou um mictório num museu (1917), mas ainda estamos condicionados a não interagir porque muitas vezes nós, artistas, criamos obras cênicas de cima para baixo: sentem e nos assistam. Bora desacostumar da tradição?

Já você nos diz: entra, come um risoto, toma uma cerveja, mas tem que lavar a louça. E ficamos ali o tempo que a gente quiser, ouvindo e contando histórias – conhecendo outras pessoas que acabam se tornando protagonistas do seu Carnaval, do seu cotidiano performado. A sensação que tive era a de que eu estava em uma festa estranha com gente esquisita, partilhando memórias e afetos.

Mas me veio à cabeça: qual o sentido político disso que você nos propõe? Porque é comum a gente ver uma performance reverberar como fato inusitado, notícia, mas que não gera uma reflexão mais profunda sobre o sentido do que nos é proposto. Quem me falou disso numa conversa certa vez foi o mineiro André Carreira, do grupo Experiência Subterrânea (SC). É político sair da sala de espetáculo. É político questionar as cênicas, as galerias, as curadorias, os museus, as instituições de arte e suas burocracias. Tudo de uma forma leve, desavergonhada.

Queria te indicar o espetáculo Los Autores Materiales do grupo colombiano La Maldita Vanidad, que se apresenta em um apartamento junto ao público transitando na casa. Também te indico o espetáculo Dança Delivery, da coreógrafa paulistana Cláudia Müller, que libera um telefone durante o dia para receber ligações e vai dançar à noite na casa das pessoas que solicitam. Cada casa é responsável por mobilizar seu público. E a gente assiste dentro de casa um espetáculo de dança. Bacana, né?

E aí lanço ao Cena uma provocação desde que vi a programação oficial: que tal mais intercâmbio de linguagens da cena contemporânea? Porque acredito que, numa programação com 22 obras, poderíamos ver mais performances, mais circo, mais dança. Mais espetáculos de teatro que dialogam com outras linguagens. Equilibrar linguagens, potencializar interdisciplinaridades. Afinal, essa tem sido uma das principais características das artes na contemporaneidade.

Conversemos, partilhemos.

Danilo.

Crítica feita a convite do Festival Cena Contemporânea 2017.


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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Maratona em NY: artistas e festivais na corrida do sistema












Brasília, 28 de agosto de 2017.

Formigas colombianas, 

Essa é uma crítica que corre
Uma crítica que de-sa-ce-le-ra
Uma crítica que que se supera
Uma crítica que perde
Uma crítica que ganha
Uma crítica que questiona processo
Uma crítica que critica além da cena.

O espetáculo de vocês, Maratona em Nova Iorque, do grupo El Hormiguero Teatro, que se apresentou ontem no Teatro Sesc Gararem, dentro da programação do Cena Contemporânea 2017, me levou a uma reflexão que transborda a pista da maratona cênica.  Dois homens correm, enquanto dialogam a dramaturgia escrita por Edoardo Eba. Apenas. Correm durante uma hora. Apenas. Seguindo a direção de Gianluca Barbadori. Apenas. E, ao mesmo passo em que a genuidade sintética do trabalho de vocês me leva ao "Teatro Pobre” (1968), clamado pelo polaco Jerzy Grotowiski, ou ao “Teatro Essencial”, proposto pela paranaense Denise Stoklos, fico pensando sobre a lógica do capital que muitas vezes se impõe sobre as nossas produções e as dos festivais de cultura.

Há quem diga que teatro deve ter foco na relação do artista da cena com o público. O mínimo de recursos para o máximo de teatralidade. E deve fugir das pombas ou parafernalhas técnicas para centrar-se no trabalho de atores e atrizes, como vocês fazem duma forma refinada e que rompe com nossas expectativas de superabundância imagética. Pra mim, todo teatro é possível e não há teatro melhor que outro. Em tempos onde somos bombardeados de signos por todas as partes, inclusive no teatro contemporâneo, vocês nos trazem quase nada de sonoplastia, quase nada de cenário, nada de maquiagem, dois moletons, dois pares de tênis e um treinamento que os fazem correr por um longo tempo. Ainda assim, submergimos preenchidos nesse ritmo de corrida. Objetivo, simples, ofegante e limpo. 

Num país em crise, a primeira a perder corpo na maratona dos orçamentos públicos é a Cultura. Não à toa extinguiram nosso ministério logo após o golpe político que vivemos no Brasil, de 2016 até agora. Gestores públicos não compreendem cultura como direito, não a tem como prioridade. Por esse motivo, os festivais de cultura em todo o país estão com verbas cada vez mais escassas. Fazer um festival consistente se tornou ato de resistência. Coincidência ou não, todos os trabalhos que assisti até agora no Cena Contemporânea 2017 são trabalhos sintéticos. Consequentemente, demandam menos produção e menos verba. É provável que a curadoria tenha sido obrigada a se pautar a partir da questão financeira. 

Eis que caímos no dilema: produzir para se adequar e circular? Submeter a criação artística à lógica do mercado? Selecionar pelo preço? Precisamos sobreviver, precisamos de praticidade, precisamos ser econômicos, precisamos realizar festivais. Precisamos, na verdade, brigar por políticas públicas, mas, ao mesmo tempo, brigar para não depender só delas. Porém, tolher a criação pode não ser uma boa saída. Às vezes entramos na maratona das pequenas produções para não ficar atrás na maratona do capital. Não que esse seja o caso de vocês, formigas, mas lanço a provocação a todos nós e ao festival.

A diretora francesa Ariane Mnouchkine, na década de 1970, ocupou uma antiga fábrica de armamentos e fundou a Cartoucherie, onde são criados e apresentados os grandiosos espetáculos do Théâtre du Soleil. O Clowns de Shakespeare, de Natal (RN), fundou o Barracão Clows para caberem seus trabalhos. Pode não parecer, mas ambos possuem apertos para produzirem suas obras do tamanho que elas devem ser, de acordo com seus anseios criativos. São escolhas que geram consequências. Não se trata aqui de responsabilizarmos os artistas ou os realizadores de festivais, mas o próprio Estado, o sistema e o capital que muitas vezes nos levam à lógica da sobrevivência pela redução criativa. Estejamos cientes disso para não corrermos de olhos fechados, fingindo que nada está acontecendo. O desafio é: como correr no contrafluxo da multidão?

Com carinho,

Danilo

Crítica publicada a convite do Festival Internacional Cena Contemporânea 2017.

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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Tsunami: tragédia para refletir sobre drama e colaboração


















Brasília, 26 de agosto de 2017

Jonathan,

O italiano Eugênio Barba fala sobre um Terceiro Teatro, que seria aquele onde os coletivos deixam suas heranças legitimadoras (teóricos do teatro no mundo) se diluírem para se tornarem “autônomos”, com descobertas e caminhos teóricos e práticos próprios. Resumindo, talvez ele esteja falando da consistência de se encontrar uma identidade a partir de uma metodologia surgida após um longo período de treinamento. Te escrevo depois de assistir o Tsunami, que se apresentou ontem no Cena Contemporânea 2017, no Sesc Garagem.

Há pouco mais de um mês, assisti o seu Caipora Quer Dormir (2017), recém-estreado na Funarte Brasília. Em ambos os trabalhos, creio que consigo enxergar a tal identidade da sua poética. Pontos que se evidenciam com potência nas obras e que, certamente, só existem porque seus processos devem ter ganhado cada vez mais corpo, língua e asas que te levam além dos territórios artísticos que foram legitimados antes de nós. As mulheres em solo. O cenário que surpreende como mágica a cada novo manuseio. A iluminação que desenha a imagem como uma pintura refinada ou quem sabe um cartoon. A atmosfera jocosa, brincante, infante.

Tsunami talvez seja mais de você do que você imagina, mas também muito daqueles que caminham contigo. Tsunami talvez seja até mais nosso, público, do que seu. Tsunami talvez seja muito dos jovens da escola Stella dos Cherubins, em Planaltina (DF), que participaram do seu processo criativo. E nessa onda pós-dramática, te vejo tão dramático e, ao mesmo tempo, tão contemporâneo que você consegue criar um espaço de coexistência entre o novo e a tradição. Sua dramaturgia segue a linha apresentação-problema-clímax-resolução. Em geral, somos treinados apreciar teatro somente dessa forma, com uma história que nos é contada, infelizmente. Teatro está bem além disso, sabemos.

Mas o seu drama é repleto de nuances e de complexidades que nos levam a várias atmosferas num lugar com signos tão fortes que é quase como se o drama fosse de igual peso diante dos outros elementos que compõem sua obra. Tudo vem com força, de uma vez, e sem tanta hierarquia entre dramaturgia, direção, cenografia, adereços, sonoplastia (Tomás Seferin), videomapping (Fernando Gutierrez), maquiagem (Roberto Dagô), performance (Ana Flávia Garcia). Rimos, choramos, temos compaixão, nojo, somos cúmplices da protagonista de Tsunami: uma mulher solitária que nos conta em gramelô* uma história de perdas em uma grande tragédia.

A sua história não seria a mesma se lhe faltasse qualquer um desses elementos, obviamente. Mas acho que seria ainda pior: a máquina não funcionaria. A equipe artística que trabalha com você, cada um na sua especificidade, é capaz de nivelar-se à potência do seu drama-direção. Que bom, senão poderíamos cair no risco de um trabalho hierarquizado na apresentação de seus elementos, como é comum em muitas direções que se dizem não-hierárquicas. Essa carta é para você, talvez porque nós, críticos e jornalistas, temos essa tendência de hipervalorizar autor e diretor. Mas, na verdade, essa carta é também para a turma que te acolhe nas suas ideias e cria com você. Eis o achado de estar em colaboração.

Um beijo, querido!

Danilo**

*gramelô é uma espécie de conversação improvisada sem o uso específico de uma língua. Um conjunto de sons livres emitidos pela intérprete vão compondo ideias e a comunicação com o público vai sendo estabelecida.
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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Barro Rojo: entre tapas e afetos

Foto: Bruno Meyer


Brasília, 24 de agosto de 2017

Javier Liñera,

Na revista cubana Tablas (2008), o pesquisador espanhol Oscar Conargo questiona: “Como saber quais as boas obras, que são mais bem interpretadas, o que vai entrar para a história, que história é. Quais são os critérios?”. Ontem, ao te assistir em Barro Rojo, no pequeno teatro do Sesc Garagem, durante o Cena Contemporânea 2017, pensei em discutir com você e com quem me lê agora sobre o risco do seu trabalho de ator e o risco do meu trabalho de crítico.

Com direção de Daniela Molina e Linda Wise, você nos conta a história de um homem torturado na Alemanha de Adolf Hitler (1889-1845) e na Espanha de Francisco Franco (1892-1975) simplesmente por ser gay. É um espetáculo em homenagem a todos aqueles que morreram vítimas da homofobia durante os períodos de recessão militar. E, ainda que décadas tenham se passado dessas realidades cruéis, no Brasil, ainda somos o país que mais mata por homofobia, de acordo com relatório do Grupo Gay da Bahia (2016).

Somos um país com um projeto de lei intitulado Estatuto da Família (PL 6583/2013), que tramita no Congresso, com adesão de uma maioria fanática cristã, para restringir os direitos civis de homossexuais, definindo apenas a união de homem e mulher como família. Por isso mesmo o seu espetáculo, Javier, nos é necessário. Te indico um trabalho brasileiro interessante, que faz um bom diálogo com o seu. Chama-se BR Trans (2013), de Silvero Pereira. O intérprete, também em tom documental, conta histórias que colheu de diversas travestis no percurso Ceará-Rio Grande do Sul, numa poética que se assemelha a sua, em alguns aspectos.

Estar em cena, definitivamente, é dar a cara a tapa. Fazer crítica também. E me questionei se não havia no seu trabalho uma celeridade rítmica e um não polimento das ações e marcações do palco que te atrapalham mais que te potencializam. Não que para performar seja necessariamente preciso codificar. Mas, na sua proposta, a descodificação me chegou como uma ausência de arremate e não como uma encenação livre e despojada. Se a sua energia não oscila durante a dramaturgia do seu trabalho de ator, a gente, do lado de cá do teatro, vai se desinteressando.

Em muitos momentos, nós já sabíamos o seu máximo, então nada de novo nos fisgava no seu trabalho como intérprete dessa trama instigante. E sobre os seus choros, quando não forem choros críveis, talvez seja preciso ainda mais cuidado na hora de simulá-los. Podem cair num aspecto fajuto. Conte-nos aquelas dores, apenas. As histórias são trágicas por si, são dolorosas por si. São suficientes para emocionar. Então volto ao pensamento de Oscar. Como saber quais as obras mais bem interpretadas? Você pode me questionar: como saber qual a boa crítica? Qual autoridade você tem para falar do meu trabalho de ator?

Crítica opiniosa é diferente de crítica com opinião. Aquela parte do gosto, esta parte da reflexão. E meu papel aqui é o de tentar sempre contribuir pra te potencializar ainda mais. Eis os nossos dilemas. Estamos em risco. Você na cena. Eu na escrita. Mas eu cá estou para afetar, nunca para tapear.

Com respeito,

Danilo.

Fonte: Cena Contemporânea 2017
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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Black Off: Como vocês no Brasil chamam as pessoas negras?

Foto: Rômulo Juracy


Brasília, 24 de agosto de 2017

Querida pessoa que me lê,

Você provavelmente não me conhece. Por isso, primeiro gostaria que você imaginasse honestamente como eu, um dos críticos do Cena Contemporânea 2017, sou fisicamente. Pense antes de continuar a ler. Pensou? Acredito que não foi a imagem de um homem negro que veio à sua cabeça. Pois bem. É também dessa violência simbólica e estrutural que Black Off, espetáculo sul-africano que abriu o festival ontem na Caixa Cultural, trata.

Se você é uma pessoa branca, a “post drama queen” Ntando Cele pode ter te constrangido. Você pode tê-la achado agressiva ao trazer os dolorosos dilemas das “white people problem” na figura de sua persona coach certificada Bianca White. Quando ela lança para o público – majoritariamente branco, afinal, teatro na Caixa Cultural ainda é prioritariamente das pessoas brancas – a pergunta: como vocês no Brasil chamam as pessoas negras? Um homem branco respondeu num tom de obviedade: “negros!”, como quem diz “ué?”. Ao fundo, um homem negro respondeu “MACACO!”.

Parece que muita gente branca tá fechando os olhos pra não enxergar aquilo que o Black Off escancara: seu racismo. Uma performer preta, pintada de branca, com lentes azuis, peruca loira, figurino comportado faz um belo stand up para que você reconheça os privilégios em ter nascido branco numa sociedade racista. E teve gente branca que saiu se sentindo ofendida – protegida pela ideia equivocada de “racismo reverso”. Ntando não ataca ninguém. Ntando nos dá uma resposta a tanta violência. Se a carapuça serviu, é o que tem pra hoje, baby. Imagine ter a saúde mental violada por crescer ouvindo ofensa racista, apanhar por causa de racismo, morrer por causa de racismo. O nosso lugar de revolta, nem sempre paciente e didático, também é um lugar legítimo.

Em Gêneses 9:1-29, Noé amaldiçoa o neto: “Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos”. Canaã é filho de Cão, que significaria, em hebraico, escuro ou queimado. Cão teria sido o responsável por povoar a África após o dilúvio. Esse motivo justificou a escravidão – os colonizadores estariam resguardados pela Bíblia Sagrada. Escravizar é sinônimo de lucro. A Emenda Constitucional 95/2016, que congela até 2036 os gastos com saúde e educação, é sinônimo de lucro. A Reforma Trabalhista é sinônimo de lucro. O lucro e a hegemonia eurocêntrica e cristã, seja em 1500, seja em 2017 no triste parlamento brasileiro, são perversos e racistas.

Pode o subalterno falar? (1985), questiona a indiana Spivak ao trazer os estereótipos que os hegemônicos constroem para nos retratar. Pode uma preta interdisciplinar grávida dirigir e atuar no próprio espetáculo e ainda fazer um show de rock rebolando a bunda dentro de um teatro em um dos maiores festivais de cênicas do país? Ntando Cele será um dia considerada uma grande artista contemporânea ou será sempre uma grande artista negra contemporânea? Serei eu um dia um grande crítico ou serei sempre o crítico que precisa afirmar-se negro em tudo que produz?

Precisamos descolonizar as artes e o conhecimento. Sair das senzalas que ainda nos acorrentam. Sair das casas grandes que ainda nos confortam. Como uma rainha pós-dramática, Ntando tem muito o que nos ensinar sobre as artes, sobre a vida. É um espetáculo em legítima defesa. É manifesto incômodo para muitos de vocês, brancos que andam ocupados demais com suas artes acadêmicas e complicadas. No fim, Ntando pisa num território que também é nosso, mas sempre nos disseram que não. Querida pessoa branca que me lê, racismo é também um problema seu.

Beijos escuros.

Danilo

Crítica publicada no site do Festival Internacional Cena Contemporânea 2017.
Escrevo a convite do evento.
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