segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O PIOR ESTÁ PARA ACONTECER NO CCBNB


Performance Pajeú - Foto: Andrei Bessa
O que você vai ler agora é o que você vai ler agora. Nós seguimos aniquilados e degradantes. Talvez estejamos cansados de lutar pela utopia da transformação. Fizemos pairar no ambiente uma força melancólica e latente que está nos destruindo. A dinâmica do poder está tirando a nossa rigorosa capacidade de pensar. Estamos em crise, afogando-nos em soluções que afundam a nós mesmos. E queremos abrir diálogos sobre o fim do mundo, quem sabe, cavando nosso próprio fim para nossa insurreição. Por isso, nós, da Inquieta Cia., vamos expor as Derivações do PIOR no Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), em Fortaleza, de 1 a 4 de fevereiro.

Derivações do PIOR é uma instalação performativa, que expande o espaço sensível da nossa obra cênica PRA FRENTE O PIOR, estreada em 2016. Estamos contaminados por diferentes linguagens artísticas e trazemos proposições em performances que tratam dos discursos atuais sobre o fim do mundo, sobre o declínio do corpo e dos modos de existir. O projeto é apoiado pelo Programa de Produção e Publicação em Artes 2016 de Fortaleza – Instituto Bela Vista/Secultfor.


Programação

Instalação "Derivações do PIOR"
De 1 a 4 de fevereiro de 2017

Vernissage "Um brinde ao fim" - 1º de fevereiro, quarta, 18h, Galeria CCBNB
Performance "Pajeú" - 2 de fevereiro, quinta, 12h, ruas do Centro de Fortaleza
Leitura performativa "Crise e Insurreição" - 3 de fevereiro, sexta, 14h, Galeria CCBNB

Fotos: http://bit.ly/DerivacoesdoPIOR

Serviço

Derivações do PIOR
1 a 4 de fevereiro, de 10h às 19h.
Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB)
Informações: (85) 999183535
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O Pequeno Ogum se apresenta em comunidades quilombolas do Ceará

Foto Luiz Alves
O espetáculo teatral infantil “O Pequeno Ogum” se apresenta gratuitamente em comunidades quilombolas do Ceará entre os dias 27 de janeiro e 2 de fevereiro de 2017. O projeto, denominado de “Visita aos Territórios Quilombolas”, foi contemplado pelo X Edital de Incentivo às Artes do Ceará 2015, da Secretaria da Cultura do Estado (Secult), e faz parte de pesquisas feitas pelo ator e diretor Edivaldo Batista sobre a cultura negra. A apresentação conta também com a cantora Juliana Roza.

Após o espetáculo, o ator Edivaldo Batista conduzirá um debate com os quilombolas sobre os temas abordados na apresentação, como a cultura africana e a afirmação da mitologia. Ao todo, cinco comunidades vão receber a peça teatral em municípios do Interior do Estado, como Itapipoca e Tururu, e da Região Metropolitana de Fortaleza, como Pacajus e Horizonte. Todas os territórios foram reconhecidos como quilombolas, em 2012, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

As comunidades visitadas serão:

27 de janeiro - Comunidade de Nazaré (47 famílias) às 17h, em frente ao Salão Comunitário Nossa Senhora de Nazaré - Itapipoca

28 de janeiro - Comunidade de Água Preta (254 famílias) às 16h, no espaço a ser confirmado - Tururu

29 de janeiro - Comunidade de Conceição dos Caetanos (370 famílias) às 18h, no espaço a ser confirmado - Tururu

3 de fevereiro - Comunidade de Base (142 famílias) - às 17h, no Pátio da Escola Neli Gama Nogueira - Pacajus

4 de fevereiro - Comunidade de Alto Alegre (400 famílias) - Às 16h, no Centro Cultural Negro Cazuza - Horizonte

O espetáculo conta a história do menino Ogum que, desde cedo, descobre em si a vontade de se tornar um guerreiro. Para isso, é preciso aventurar-se pela mata escura ou pelas águas geladas, criando coragem por meio do medo. Para compor a narrativa do pequeno Ogum, Edivaldo utilizou referências dos reisados do interior do Ceará, com cores e vestimentas da cultura popular, além de lendas e mitos do Orixá Ogum, presente nos cultos do Candomblé.

O objetivo é dialogar com temáticas sobre cultura negra, reforçando a visibilidade e a luta dessas comunidades. Além disso, os debates, que acontecem sempre após as apresentações, servem como um processo pedagógico que Edivaldo procura desenvolver sobre a desmistificação da cultura africana, ao mesmo tempo em que defende uma educação que recupere as memórias históricas e fortaleça as identidades dos habitantes das comunidades.

Com foco na literatura africana, “O Pequeno Ogum” faz parte de uma série de pesquisas feitas pelo idealizador deste processo, que investiga procedimentos para compor cenas que abordem a ancestralidade e a negritude na linguagem narrativa e o reisado cearense na estética das apresentações. Neste contexto, Edivaldo possui outros trabalhos, como “Iroko” ( 2012), “Histórias de Heróis Negros” ( 2016), “Yemonja e a Princesa Negra” (2016) e demais projetos que envolvem, inclusive, oficinas e cursos.

Após as apresentações em comunidades quilombolas, “O Pequeno Ogum” faz temporada em Fortaleza, no Sesc Iracema, nos domingos de fevereiro (dias 5, 12 e 19), às 16h. A entrada é gratuita.

Serviço:

“Visita aos Territórios Quilombolas”
Espetáculo “O Pequeno Ogum”
Data: 27 de janeiro a 3 de fevereiro de 2017
Local: Comunidades Quilombolas do Ceará em Itapipoca, Tururu, Horizonte e Pacajus (verificar tabela acima com locais e horários)
Gratuito

Temporada em Fortaleza
Data: 5, 12 e 19 de fevereiro de 2017
Horário: às 16h
Local: Sesc Iracema (Rua Bóris, 90 – Praia de Iracema)
Gratuito
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domingo, 25 de dezembro de 2016

Espetáculo Olaria, a crítica teatral fascista e a prisão de Aristóteles


Olaria. Foto: Divulgação.

Fortaleza, 25 de dezembro de 2016.

22ª turma de Licenciatura em Teatro do IFCE,

Faz algum tempo que quero escrever a vocês. Hoje, em pleno Natal, vou desatinar a refletir nessa carta sobre o trabalho Olaria, que assisti no Teatro Carlos Câmara, durante o 12º Festival de Teatro de Fortaleza. Diante de uma dramaturgia ou quem sabe “não-dramaturgia” essencialmente física, com foco no estado de presença e experiência que Dan Borges, Edna Freire, Erlyson Ferreira, Gilberlan Meneses, Joice Forte, Jéssica Sá e Kekel Abreu propõem, cheguei a questões que quero discorrer adiante.

Ainda que vocês tenham se baseado em duas obras do santista Plínio Marcos (1935-1999), eu, que assisti desavisado, não parti desse pressuposto. E fui levado a um pequeno nó: qual a questão que eles querem provocar? Em mim, despertei para ideias que remetiam ao grotesco dos corpos sem polimento, desavergonhados e escatológicos que somos como animais, mas que negamos pela normatividade que o corpo social impõe ao nosso comportamento. E caí numa reflexão sobre os aprisionamentos do ser, da arte e do teatro. Daí, para minha surpresa é sobre os aprisionamentos humanos que vocês falam. Não à toa os pontos de partida são as peças Barrela (1958) e A mancha roxa (1988), do Plínio, como pude ler na matéria de Renato Abê no jornal O Povo.


Tom Zé, em uma entrevista para Jô Soares, fala da “prisão” que o canto gregoriano (séc IX) nos submeteu ao definir uma partitura delineada a partir das notas dó-ré-mi-fa-sol-lá-si. Isso teria imposto uma rédea aos compositores até hoje. Tudo que estiver fora dessa métrica, estaria errado. Ressignifico esse enclausuramento à Poética de Aristóteles, (usualmente atribuída a 400a.C), onde a noção de drama (início-meio-clímax-resolução), traz a palavra como elemento fundamental do teatro. Tragédia e comédia são definidas por estruturas que primam pela história, pelo enredo, pelos personagens em um tempo e um espaço. E isso ainda nos aprisiona.

O Natyasastra é um tratado escrito em sânscrito possivelmente por volta de 400 d.C. Menos popular no Ocidente, mas tão relevante para as artes cênicas quanto a Poética de Aristóteles, o tratado traz fortes noções sobre a palavra, mas principalmente sobre a experiência cênica em sua amplitude. E na nossa lógica contemporânea e pós-dramática, apreciar a cena em sua totalidade, como experiência, seria mais condizente com nosso tempo. Ou será que afirmar isso é autoritário? Apesar de ter perdido o anzol várias vezes ao assisti-los, algo velado me segurava ali. Talvez o estado de presença que vocês emanavam. Ou os nós que fui amarrando na minha produção pessoal de sentidos.

Olaria. Foto: Divulgação.
É distante dessa prisão das normatividades estilísticas da dramaturgia textual como princípios irrevogáveis e das regras do teatro que o crítico deve habitar. Estou lendo “Como conversar com um fascista”, da Márcia Tiburi. E refletindo sobre os meus microfascismos e meu lugar de opressor em vários âmbitos. Ainda que eu me considere de esquerda, sensível às pautas sociais, negro e gay, não estou livre de abusar e oprimir. Nem eu, nem vocês. Às cegas, infelizmente, isso também nos constitui. Todos nós somos opressores em algum grau.

Ou seja, a lógica autoritária da crítica teatral ainda me contamina. Mesmo que seja dela que eu tente fugir o tempo inteiro. Assim como a lógica das regras que pautam o que seria certo ou errado no teatro nos contamina como artistas. É do patamar dos críticos e críticas voyeurs, que analisam de cima, como um explicador maior da arte teatral, que preciso descer. Até porque esse lugar não existe. Alguém um dia o impôs. E como o fascista não pensa e não dialoga, apenas reproduz comportamentos, é muito fácil estar nesse lugar sem perceber. Precisamos refletir, nos desaprisionar em todos os sentidos.

Feliz Natal, queridos. Sejamos livres juntos!

Danilo.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

INSTRUMENTOS DE VER: O tempo e a vida anônima dos objetos

Espetáculo infantil Meu Chapéu é o Céu. Foto: Chocolate Fotografia

Brasília, 12 de dezembro de 2016

Coisas,

Essa carta é pra vocês, seres inanimados do coletivo brasiliense Instrumento de Ver. Fiquei lhes olhando durante o Arranha Céu, festival que comemorou os 15 anos do grupo. Eles usam de vocês sem saber que na verdade vocês também se usam deles. Nessa última semana, na Funarte, duas coisas me chamaram muito a atenção: vocês, Coisas, e o Tempo. Nós, mulheres e homens das cênicas, vamos partir, secar a água do corpo e virar pó. Vocês e o Tempo devem perdurar, quiçá vão desfrutar da existência bem mais que nós.

A gente, na nossa vã imaturidade, costuma esvaziar o real sentido de suas existências porque somos supostamente superiores. Nós: indivíduos “animados”. Na verdade, vocês são tão importantes quanto qualquer um que voa arranhando o céu – tanto que a maneira como vocês aparecem nos espetáculos Cabaré Noite Aérea, Por um Triz e Meu Chapéu é o Céu é tão forte que impressiona. Prêmio especial para a faixa amarela da atleta olímpica, para a maleável e dura Cora (corrente de 132 elos de metal galvanizado) e para o chapéu vermelho disputadíssimo entre as três molecas circenses.

Espetáculo Cabaré Noite Aérea. Foto: João Saenger
A gente costuma falar de um plano superior, como se as ideias estivessem acima de tudo, arranhando o céu, e nós aqui embaixo. Isso a partir da proposição metafísica que Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C.) lançou sobre o mundo. Compreender o mundo em cima daquilo que não é palpável. Mas as ideias estão fora de nós ou as ideias estão em nós? A gente inventou a mente, mas na verdade ela não existe. Somos um conjunto de conexões químicas e físicas que fazem nosso corpo pensar, conexões que inclusive criam a ideia de mente para facilitar a compreensão do mundo.

As ideias são corpo. E corpo é coisa real, é matéria. Se elas são matéria, são Natureza. Se são Natureza, é tudo, como bem fala Spinoza (1632-1677). E é essa totalidade que comunga os elementos da Natureza, que faz com que nós só existamos porque vocês, Coisas, existem junto. E o Instrumento de Ver parece que enxergou o potencial latente de vocês – tão incríveis quanto nós, humanos. Fiquei até curioso pra assistir o Geringonça, em que vocês também fazem parte com maestria, pelo que soube.

Coisas, agora peço licença agora para falar diretamente com o Instrumento de Ver.

Cabaré Noite Aérea. Foto: João Saenger

Queridos,

Sobre o Cabaré, fiquei refletindo acerca da “costura” entre os números. Alguns me apareciam com uma transição fluida. Outros eram encerrados de maneira mais dura, com um espaço entre o trecho atuante e o seguinte. Não distingui se isso era uma estratégia elaborada para tal ou se faltou um olhar com mais apreço a essas emendas. Alguns números exalavam mais energia, como o da Cora (Daniel Lacourt), outros menos.

Talvez seja necessário reorganizá-los para uma potência que nos eleve junto. Se após um número incrível vier um número mais “simples” e outro mais “simples” e outro ainda mais “simples” que os dois anteriores, o espectador pode despencar um cadinho por vez na relação de interesse com a obra. E a gente quer crescer junto com vocês. Sobre o número Milonguita, da Julieta Zarza, fiquei pensando: por que não projetar ao vivo? Pareceu que a escolha da projeção gravada era uma solução mais fácil. Foi possível enxergar um ganho enorme no espetáculo seguinte, com projeção ao vivo dos pés vividos de Beatrice Martis.

Espetáculo Por Um Triz. Foto: Divulgação

Sobre o Por Um Triz, o relato do acidente vivenciado por Beatrice faz a gente ficar envolvido duma forma tão bonita que em mim e nos pares que pude conversar, brotou um sentimento de compaixão e superação junto à atriz. A dor dela doeu em nós. Saber que ali temos uma história de vida sendo performada em vida pela que viveu a história e não apenas uma dramatização de uma personagem em cima de uma ficção, faz os olhos marejarem e a garganta engolir seco.

Sobre o Chapéu, que beleza a maneira como as três molecas lavadeiras (Maira Moraes, Julia Henning e Beatrice) interagem. Parece que enxerguei ali a concretude do Tempo. Afora a relação que minha memória fez com a palhaça suíça Gardi Hutter no espetáculo Joana D’Arppo – olha que ela é considerada uma das maiores palhaças do mundo.

Quando falo do Tempo é como quando escrevi um "artigo" sobre os 10 anos do Teatro Máquina (CE). Parece que vocês aprenderam a domar o Tempo pela consistência da pesquisa interdisciplinar que vocês encabeçam, pela irmandade que emana de vocês. Ter o Tempo assim, como hoje o grupo o tem, não significa um domínio com rédeas. Significa que agora é possível compartilhá-lo mutuamente conosco, sendo ele, o Tempo, tão importante quanto o grupo. É uma conquista, como se sem ele não fosse mais possível respirar. Agora que o Tempo do grupo chegou, é preciso que não o deixem ir embora. 

Vida longa ao teatro circense de vocês! 

Carinhosamente, 

Danilo.

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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Expressões Humanas entra em cartraz para comemorar 25 anos de teatro de Herê Aquino

Foto: Carol Veras
Na trajetória da diretora de teatro Herê Aquino, vida e obra se confundem nesses 25 anos de estrada. Orlando é seu mais recente trabalho, assinado pelo grupo Expressões Humanas. A dramaturgia, adaptada da obra homônima de Virgínia Woolf, propõe a discussão de gênero e identidade. Para celebrar todo o tempo de resistência artística da diretora, o grupo entra em temporada no Teatro Dragão do Mar às terças de dezembro (6, 13 e 20), sempre às 19h.

Orlando, que estreou em 2013, narra a trama de um ser imortal que, ao longo de quatro séculos, vive a experiência de ser homem e mulher sem perder a consciência de sua identidade. Amante das artes, o/a protagonista transgride o tempo, o espaço e as convenções dos sexos, na perene busca pelo sentido da vida, da arte e do amor. A obra inglesa, escrita em 1928, ganha uma roupagem cênica brasileira sob comando do Expressões.


O espetáculo, numa proposta imagética fantástica e poética, é permeado por canções ao vivo, com direção musical de Juliana Veras, que está em cena ao lado de Marina Brito e Murilo Ramos. Em 2014, Orlando já participou do Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, do Festival de Teatro de Fortaleza e da Feira do Livro em Cabo Verde, na África.

Vida e Obra

As pautas sociais e a luta contra as opressões sempre fizeram parte da poética que Herê leva para a cena em suas direções desde que fundou o Expressões Humanas. Militante dos movimentos de cultura, mulheres, mobilidade urbana e LGBT, a diretora se tornou referência para uma gama de artistas na capital. Aos 58 anos, Herê soma direção em 18 espetáculos, além de inúmeros prêmios locais, regionais e nacionais.

SERVIÇO

ORLANDO
Dias 6, 13 e 20 de dezembro às 19h.
Teatro do Dragão do Mar
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Informações: (85) 3021 4946/ (85) 99929 9112
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domingo, 27 de novembro de 2016

Carta-crítica ao espetáculo Fio a Fio

Édi Oliveira e Giselle Rodrigues e, Fio a Fio. Foto:  Diego Bresani.

Brasília, 26 Nov 2016.

Édi Oliveira e Giselle Rodrigues,

Eu me chamo Janaína e, a convite de meu amigo e crítico Danilo Castro, me arrisco a escrever minha primeira crítica em Dança. Escolhi o formato de carta-crítica por acreditar nessa genuína proposta em que o afeto passa a ser o ponto 1 de partida para uma crítica em arte. Como uma carta, nada mais apropriado do que enfatizar meu particular prévio respeito pelo trabalho e história da dança em Brasília que vocês representam.

Ontem, ao assistir o espetáculo FIO A FIO no Prêmio Sesc do Teatro Candango, via suscitar em mim sensações e imagens atreladas de memórias (talvez estas memórias mais inventadas do que de fato vividas, mas nem por isso menos reais) de um envelhecimento presente. Os dois corpos mostrados entre o ato de vestir-se e despir-se, junto aos encontros que permitiam nascer danças sutis alcançou-me com extrema sensibilidade.

Perguntei-me, por algumas vezes, sobre as escolhas das repetições no espaço, entre as ações de sentar o outro à cadeira e deitar-se ao chão, que esboçavam uma transformação do movimento que, a meu ver, não chegou a acontecer tal qual a expectativa que por ora me havia gerado. Nessa carta, então, aproveito para voltar a pergunta a vocês: havia, de fato, a escolha em permanecer em uma dinâmica linear da repetição? Reforço que minha pergunta se faz numa tentativa de compartilhar das impressões de uma jovem coreógrafa cujo trabalho de dois coreógrafos que compõem minha lista de referências me fez repensar questões
sobre tempo e espaço.

Ainda, me destino particularmente à Giselle em relação a sua presença neste específico trabalho que, em contraponto à presença de Édi, me dava a impressão de um leve apagamento do estado de presença feminino. Digo isto por reconhecer a potência de seus trabalhos e, claro, levando em consideração que os signos e símbolos da dança sempre produzem textos “a partir de”. 


Nesta ocasião, os contextos culturais e sociais não me permitem ignorar que a presença de um corpo feminino e um corpo masculino em cena me levarão diretamente a diversas questões de gênero. Assim, ao me deparar com a mulher sempre sendo carregada, ou lançada aos pés, ou com a fala cortada, mais esquecida ou, talvez, “acuada”, me leva a questionar os estados de presença propostos durante o espetáculo.

Para finalizar, deixo mais uma vez minha admiração pelos profissionais e espero ter sido clara nesse desafio que é a escrita crítica no seu sentido de “fazer pensar”, FIO A FIO ao invés do senso comum atribuído à palavra crítica, associando-a a “achar problemas ou julgar”. Ainda, aproveito para agradecer ao Danilo pela oportunidade de me despertar novas maneiras de atuar artisticamente, no pensar e fazer que é a Dança.

Com respeito e carinho,

Janaína Moraes.

CARTA-CRÍTICA 

As cartas-críticas são uma proposta de crítica defendida pelo artista e jornalista Danilo Castro, em pesquisa atualmente em desenvolvimento no Mestrado em Artes Cênicas do Programa de Pós-Graduação da Universidade de Brasília/UnB.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

OTELO: nova roupagem para que questão?

Otelo (2016), Cia. Brasilienses de Teatro.


Brasília, 25 de novembro de 2016.

James Fensterseifer,

Prazer, eu me chamo Danilo e costumo escrever sobre as cenas que assisto. Eu queria dizer diretamente a todos os que compõem o Otelo, by Cia. Brasilienses de Teatro, que assisti ontem durante o Prêmio Sesc Candango de Teatro. Porém preferi ter você como destinatário primário dessa carta-crítica não pela tendência escrota que nós (críticos, artistas, acadêmicos, jornalistas) temos de hierarquizar o papel da direção como superior ao papel dos atores, técnicos, etc. Mas porque acredito que o que assisti tem uma referência muito forte do seu olhar de encenador. Me corrija se eu estiver enganado, por favor. Se o processo for colaborativo e horizontal na concepção estética.

Fiquei pensando nas suas escolhas e resoluções para dar conta da tragédia shakespeariana. Fiquei pensando no papel dessa dramaturgia para o teatro contemporâneo, mas principalmente no papel do que você propõe com a direção e com os signos que evoca através da iluminação, figurinos (Marcus Barozzi), cenário, sonoplastia (Adriano Sommer). Quais provocações vocês querem lançar pra nós com esse trabalho? Qual é a questão da obra de vocês? Eu pergunto realmente na dúvida, acho que não consegui captar. Ou será que ficou difuso tudo isso? Ou será que o mote era simplesmente tentar dar uma nova roupagem - inspirada no movimento construtivista (como diz a sinopse) - a uma obra clássica? O objetivo é redizer aquilo que já está dito, aquilo que já conhecemos dessa renomada obra da literatura inglesa?

Essa carta não é para desafiar, muito menos depreciar a poética de vocês. É para refletir. Reconheço com todo respeito esses mais de dez anos dedicados ao teatro dessa Brasília que me acolhe desde 2013, quando pisei aqui pela primeira vez, mas há um lugar político do fazer teatral dos nossos tempos que talvez peça mais força à obra, peça um argumento mais denso que case ou destoe do texto medieval de amor-ciúme-ódio que vocês nos apresentaram. A gente sabe o que o autor quer nos dizer. Mas o que a Cia. Brasilienses quer com essa obra, mesmo que seja a terceira de Shakespeare que vocês lançam ao mundo?

Daí me vem à cabeça vários pontos que gostaria de pincelar: o gran finale com o blackout a la Deus Ex Machina* resolvendo como de costume as mortes de Desdemona (Rodrigo Issa), Emília (Gustavo Gris) e Otelo (Tainá Baldez) – aqui reconheço uma importante discussão de gênero na inversão dos papéis entre homens e mulheres da companhia; friso também a ausência de transição quando Emília descobre que Desdemona está morta; o solilóquio aparentemente  desproposital, brando, pacífico e leve de um Otelo assassino que está tomado pela fúria do seu próprio amor. Para pensar: o que significa chamar pejorativamente de negro um Otelo de 1603, mas no ano de 2016?

Acerca do cenário fúnebre, da iluminação penumbrosa, dos figurinos dark (com telas e borboletas que anulavam o rosto dos atores, distanciando-nos deles) o que me chegou foi uma concatenação de elementos que provocavam pouca mudança na composição imagética, deixando tudo, ao meu ver, com um ritmo linear. Das pessoas que conversei, sentimos o mesmo: a vontade de ser surpreendido, de arregalar o olho para adentrar naquela trama e crescer com ela. Talvez vocês tenham na mão uma dramaturgia tão consolidada, que não seja mesmo necessário muitos elementos, transições, mudanças de luz. Porém, essa história teria que de fato estar orgânica aos atores, dum modo que seria apenas necessário que eles existissem para que a obra acontecesse.

Espero que eu tenha conseguido explicar tudo que pensei sem me enrolar tanto. E que possamos aprender juntos sobre teatro.

Com respeito,

Danilo.


*De origem grega, Deus Ex-machina refere-se ao surgimento de um evento introduzido numa trama ficcional com o objetivo de resolver uma situação ou desemaranhar um enredo.

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