quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Sol


O Damião acabara de voltar da alfabetização, esbanjando contentamento porque tinha aprendido a ler e escrever a primeira palavra: Sol. Quem ensinou foi a atenciosa professora Solange, a qual ele e os outros malinos do primário chamavam carinhosamente de tia, mas depois que Damião aprendeu tal palavra, passou a chamar a Tia Solange de Tia Sol! Sem saber, ele estava equiparando a imagem da educadora com a luminosidade solar, que encandeou a mente do menino imaculado.

Ele mal sabia que o mundo da leitura era maravilhosamente sedutor. Durante aquela boca de meio dia na volta da escola, a empolgação do menino era evidente em cada olhar, parecia que ele queria ver tudo ao mesmo tempo, por todos os ângulos, feito uma mosca desvairada de cozinha suja.

Então, os meses foram percorrendo as trilhas do cotidiano e a criança passou a ler tudo que via pela frente e mordia os lábios só em olhar para prateleira de livros da casa da avó, que agora possuía um modo diferente. Antes, aquilo tudo nunca havia lhe chamado à atenção, mas ele sentia que daquele dia em diante ele seria um novo menino, aliás, um rapazinho que até já sabia ler!

Escalou, com o maior cuidado do mundo, a estante, segurando firme, prateleira por prateleira. As mãozinhas delicadas do menino ficaram empoeiradas e quase que ele derrapava antes de atingir o objetivo final. Olhava para baixo e só imaginava a sua cabeça estatelando-se, indo defronte ao chão de taco. Mas, enfim, ele alcançou os últimos livros, pois eram os mais espessos e mais distantes que o atraíam. Afinal, a Vó Preta era quem sempre dizia que algo só é bom quando é difícil de alcançar.


Danilo Castro
01.12.2007

Um comentário:

Nayana disse...

acho que vi passarinhos e sonhos e borboletas e fadas e monstros e tristezas lá em cima, a vida emprestada de muitos que se esforçaram fazendo o mesmo pela literatura pela leitura e principalmente por escrever apenas...

muito sábia a Vó Preta, lembrei-me da minha..será que a idade vem acompanhada da sabedoria?
talvez existam mesmo duas formas de se aprender, uma quando a gente nunca viu o mundo que é quando a gente é desse tamainho e a outra vem com as quedas e vitórias que a gente conquista a medida que cresce e conhece ainda mais o mundo...

Damião, divista-se, o mundo seu!