quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Conto de Fadas

Silvio Tadeu da Cruz
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De imediato me emocionei lendo esta matéria do jornal "O Povo". O mendigo referido desde sempre me chamou atenção. Não sei o motivo, mas há algum tempo tenho um fascínio por figuras que perambulam nas ruas de Fortaleza.
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(Em frente ao CEFET-CE, na Av. 13 de Maio, existe uma parada de ônibus onde um velho, barbado como Antôno Conselheiro, fica sentado quase que o dia inteiro. Calado e com o olhar no infinito ele rouba minha atenção sempre que vou tomar minha condução de volta para casa. Todos os ônibus passam na sua frente enquanto ele espera a vida passar ou aguarda por algo que talvez nunca vai chegar.)
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A história do homem da foto acima é tão poética quanto um conto de fadas, por isso o título desta última postagem. Abaixo, segue na íntegra a matéria do contista cearense Pedro Salgueiro:
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Anjos das Ruas


Faz uns dez anos que perambula pelas ruas de nossa sonsa loirinha descabelada pelo sol um negro alto, cabelos fartos, sujo, roupas em farrapos, às vezes vestida sobre outra já em tiras. Distingue-se pelo porte altivo, cabeça levantada e pelo quase silêncio que o acompanha: poucos escutam as palavras que pronuncia baixinho, não raro esbraveja com alguém imaginário ou faz estranhos cálculos matemáticos. Não pede esmola, mas lhe dão dinheiro, roupa e comida; quase sempre redistribui ou deposita as cédulas amassadas e rabiscadas com números em baixo de cones, desses usados em sinalizações de trânsito, e de papelões de outros moradores de rua, nada guarda para o dia seguinte. Come pouquíssimo e toma café e fuma em abundância (que lhe dão sem ele ao menos pedir).


De dia freqüenta os logradouros no centro: Praça Murilo Borges, rua Assunção, praça Coração de Jesus e uma calçada de estacionamento na Duque de Caxias, onde passa a maior parte da tarde acocorado em silêncio; de noitinha vai em direção à Praia de Iracema até a avenida Aquidabã, lá fica também acocorado em uma calçada em frente a um posto de gasolina. Não se sabe onde dorme, como faz suas necessidades fisiológicas, muito menos o que pensa e balbucia em quase preces noturnas. Cumpre há uma década o mesmo ritual de sempre, dizem que ele faz as mesmas coisas, nas mesmíssimas horas (até para atravessar as ruas é sempre em locais determinados), o exato itinerário, quer faça chuva ou sol: o mesmo porte altivo, o olhar contemplativo de superioridade e paz.


Não se apressa nunca, nem altera o semblante; nem se importa se ao seu lado passa uma bela jovem (que quase sempre aperta a bolsa e desce a calçada) ou um outro morador de rua. Já apareceu em diversos ensaios fotográficos sobre o centro da cidade e foi até personagem de crônica de Airton Monte: faz parte, definitivamente, da paisagem dessa Fortaleza de Todos os Perdidos-Anjos.


Pois bem, acho que cumpriria este seu eterno ritual de perambular pelas calçadas, de se esgueirar pelos becos, de se acocorar pelas calçadas, até o final dos tempos, não fosse a alma enorme e boa do meu colega de repartição (e ex-baixista da banda de regue Rebel Lions) Jânio Alcântara, que puxou conversa, com uma paciência de Santo, com nosso personagem: descobriu o nome de sua cidade natal - Paranapanema, São Paulo) e o nome da mãe, Jandira Aparecida da Cruz (completo e com seu nome de solteira e de casada). O novo amigo foi a Internet pesquisar e conseguiu falar por telefone com a mãe, uma senhora forte e saudável morando no interior de São Paulo; em poucos dias se encontrava em nossa cidade a mãezona (que há dez anos não sabia o paradeiro do filho) e a irmã mais nova, Sidelça, uma bela jovem parecidíssima com o nosso herói-de-rua.Jânio não ficou por aí, conseguiu internamento e tratamento dignos para o agora ex-morador das ruas sujas de nossa meretríssima loirinha descamisada pelo sol. Moral de nosso conto de fada: se uma pessoa de boa vontade (com a ajuda de outros anjos bons) consegue salvar uma vida, o que não fariam os poderes estaduais, municipais e federais se tivessem um mínimo de boa vontade, competência e solidariedade. P.S.: Para não deixar o leitor curioso com o destino de Silvio Tadeu da Cruz, ele está internado, limpo e bem vestido.


A família o espera para levá-lo de volta, pois sua avó de 99 anos de idade há dez anos não se cansa de perguntar toda noite por ele. Duas de suas irmãs moram na Europa, os outros vivem bem em Paranapanema (SP). A mãe diz que seu descontrole começou quando ele presenciou a morte, em acidente de automóvel, do irmão de que mais gostava, depois agravado pela dificuldade em pagar a faculdade de engenharia que cursava já no 2º ano, após ser despedido do banco em que trabalhava. Diz-me (agora sua belíssima irmã) que ele era o mais inteligente da família, também o mais vaidoso...


Veja o link desa matéria:

6 comentários:

Juliana disse...

poooxa, já havia reparado nele, cara!
figura realmente interessante de observar... e eu que achava que só eu o percebia; quanta pretensão! hahaha

izaura lila disse...

Há quem diga q ele era a alma da Duque de Caxias..e eu concordo plenamente, não consigo imaginar aquela calçada sem ele, o mais engraçado era q todo dia eu o comprimentava, dava boa tarde, acho q ele me respondeu umas duas vezes..mais mesmo assim eu ganhei o dia!!

Loreta Dialla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Loreta Dialla disse...

Só nos mostra como ainda somos pequenos diante da grandiosidade surpreendente dos fatos.

Mas... Feliz com o final deliz da história!

-Thiago Matos disse...

O Silvio Tadeu, por mim chamado apenas de Bob, sempre mexeu com o meu imaginario.
Mas, de onde ele veio?! De onde surgiu esse moço?
Teria vindo clandestinamente de outro país?! Ou uma desilusão amorosa o faz perambular por nossa cidade?!
Cresci fantasiando. Procurava uma historia que lhe fosse digna, apesar de sua condição totalmente contraria.
Medo, nojo, desprezo. Sentimentos e comentarios pejorativos emaranhados de preconceitos , que muitas vezes presenciei na parada do onibus na Av. Duque de Caxias contra esse solitario moço, sentado no outro lado da avenida na calçado de um estacionamneto.
Aquelas pessoas não sabiam de sua incrivel inteligencia com os numeros. Era que ele resolvia os tão enfadonhos modulos de recuperação de uma escola tão respeitada proxima a praça do carmo.
Graças aos anjos, ele reconquistou sua dignidade, sua tão carinhosa familia e sua identidade.
Ele por fim se foi. Deixou as ruas de nossa cidade para virar lenda, virar lembranças, para virar Silvio Tadeu da Cruz.

Kamila disse...

eu ja tinha percebido a sua existencia,já o vi até meio agressivo na duque,sempre quis saber qual o motivo da sua permanencia ali,sempre tendo que sofrer os olhares repugnantes das pessoas que passavam por ele ouaté mesmo o desprezo.
E sempre quis saber sobre o seu paradeiro,pq nunca mais tinha visto ele pelas ruas,pensei que algo de ruim teria acontecido.
Ainda bem que ele foi salvo.
Muito feliz em saber!