terça-feira, 18 de março de 2008

O terço e a tesoura do Capiroto


Menino, eu vou te contar. Naquele dia eu disse pra mim mesma “Hoje eu mato ou morro!” Respirei fundo e saí de casa decidida, com uma tesoura numa mão e o terço na outra! Pedi minha bênção a Deus e a São Bento e fui à luta, caminhando feito uma desvairada naquelas ruas de pedra do Centro. Mas teu avô era muito safado, eu já tinha eprenhado um bocado de vez e tinha acabado de parir a quinta, a menina recém-nascida e ele com as cunhãs dele? Ah, mas eu não deixei em branco não, ouviu? Ta me ouvindo, menino? Sim, pois fui até a porta do hotel que eles estavam no centro da cidade.

Ah, mas eu gritei feito uma condenada. Mamãe que me perdoe, porque sempre fui moça recatada, mas nesse dia não dei pano pra manga com conversa de rapariga anarquizando meu casamento. Dei um escândalo no hotel e mandei ele descer do quarto, e o povo olhando, mandando eu me calar e o dono do hotel me acalmando, mas eu tava decidida. Eu ia mandar aquela mulher pro inferno, nem que eu fosse junto!
Aquele covarde. Ele era muito bom sabe, muito apessoado, mas era mulherengo que nem presta. Menino, toda mulher naquela época era sabe como? Assim: tinha que ser submissa, aceitar calada e ponto final. Hoje é que isso anda mudando pelo que eu vejo, tem até mulher sendo prefeita, presidenta. Mas antigamente não, tinha que agüentar travando tudo na garganta. O pensamento e a fala eram separados por um muro bem alto, igual ao de Berlim, mas este aí pelo menos derrubaram. As nossas barreiras eram mais duras que ferro, e não tinha quem ultrapassasse. Mulher metida à revolucionária era chamada de vadia, de moça profana, de dama da noite. E quem é que queria ser chamada assim? Ninguém!


Ah, mas é bom demais envelhecer, tem gente que diz que é ruim, sabe, mas pra mim não é não. Quanto mais envelheço, mais eu aprendo, e contigo vai ser do mesmo jeito. São as rugas que evoluem a alma, filho. Onde é que eu tava mesmo? Ah! Pois é. Pois num é que eu já me martirizando de gritar feito uma doida fui posta pra fora do estabelecimento. Foi aí que... que... caiu a ficha, é assim que se diz hoje, né? Percebi que eu tava sendo boba, que eu tava parecendo mais uma da vida. E teu vô, muito corajoso, não apareceu nem com a sombra. Aí eu voltei pra casa.


Aí quando ele chegou eu já tava dormindo. Aí no outro dia a gente fingiu que nada tinha acontecido, porque eu tive foi medo dele, mas ele não fez nada. Hoje eu penso que foi o Tinhoso que me apossuiu naquela noite. Sim, menino, num sabe quem é Tinhoso não? É o Futrico, Capiroto, Bode-Preto... Sabe não? É o cão, menino, de chifre, olhos de fogo e pés de bode!

Danilo Castro
02.11.2007

3 comentários:

Larissa Cândido disse...

Conversa com a vovó, né!
Hahahaha!
Esse fato é excelente!
Da pra ver ela te contando!
Adorei a foto!
;******

passarim disse...

"O pensamento e a fala eram separados por um muro bem alto, igual ao de Berlim" engraçado ainda existe né?! a gente num evoluiu tanto assim.rs!
ainda bem que ela cm um terço na mão..rs! o capiroto saiu correndo depois que viu..se não..ui! iam sobrar alguns cabelos pelo chão...hehehehe
adorei a história..rs!
um xerooo!

Loreta Dialla disse...

Dava um bom curta metragem!