terça-feira, 2 de setembro de 2008

Paredes I




“Você tenta construir um mundo
E luta para consegui-lo
Chora, ri, corre, cansa e luta
O seu mundo no mundo se perde.
Você procura, encontra, agarra e solta
Começa tudo outra vez...”

Maria das Graças Castro
22.11.1976



Diante duma cabine de biblioteca, sinto-me acalentado, protegido, como criança no berço ou felino doméstico em caixa de sapato. Somente meus olhos, vezes por outras, escapam dos limites das simplórias paredes do meu novo lar. Olhos serenos, ora cerrados, ora atônitos, ora marejados, ora pousados sob as linhas deste papel. O sono domina a força dos meus dedos e talvez distorça os vagos e oscilantes devaneios que encarnam em mim.

As paredes estão se fechando, minuto a minuto elas velam minha escrita, elas são minha incubadora, prendem-me aqui dentro, dão-me liberdade do mundo além delas. Aqui dentro o mundo é só meu e apenas roídos e vultos pairam pelos arredores. Quem há de desconfiar dos pensamentos de um mero ser esguio numa biblioteca? Aqui sou apenas mais um livro mofado, carregado de palavras, amarelado, esquecido. O meu relógio de pulso está parado. Acabo de perceber. Será que ele quebrou ou será que o mundo lá fora parou? Que sei é que aos poucos a animosidade toma conta de mim. Sinto-me quente, apesar de estar com frio. Sinto-me feliz, apesar de estar brando. Sinto-me livre dentro da minha prisão. Aqui eu sou o que eu quiser, sou onipotente, onisciente, onipresente. Aqui sou pai de Deus. Eu posso gritar, ninguém vai ouvir, posso até gargalhar desses outros solitários leitores engaiolados noutras cabines. Aqui sou Mahatma, sou Presley, sou Guevara, sou Hiltler! Aqui a caixa de pandora é aberta e nada é capaz de barrar os fluidos devaneios da mente reprimida lá fora. Aqui posso errar, não titubeio, faço. Aqui eu amo, amo como um vira-lata que ama qualquer pedestre que o fita compadecido. E é esse amor puro, esse amor despretensioso que me deixa feliz, que me dá asas e que derrete a cera do último toco de vela branca do altar de alguma velha de cabelos prateados.

Aqui sou altista, artista, esquizofrênico, louco. Aqui tenho prazer de viver além da gravidade. Eu viajo ao inferno nas alturas e meu céu pode ser na diagonal, pode estar sob mim, pode ser quadrado e de madeira enegrecida, assim como minha cabine, o meu trono, a minha manjedoura.

Danilo Castro
02.09.2008

Paredes II

A felicidade evaporou-se, diluiu-se no nevoeiro, fugiu pelos meus poros, derrubou-me no chão, acordou-me. A dor deu-me dois tapas e gritou: “Levanta!”. Baixei a cabeça e respeitei-a.
Eu choro quando dói e choro quando estou feliz. A celebração e o infortúnio são equivalentes, talvez seja por isso que quando estou tomado por alguma felicidade máxima, alguém abre meus olhos e mostra-me o horizonte. Subitamente, vou re-percebendo os calos e hematomas que circundam minha pele, minha alma.
Canso. Quero apenas deixar transbordar umas poucas lágrimas, esperar alguém passar a mão sobre meus grossos cabelos e dizer-me: “Calma, eu estou aqui.”.
As paredes imprensam-me contra mim mesmo.


Danilo Castro
02.09.2008









6 comentários:

Aby Rodrigues disse...

Profunda cada palavra
Que poder a leitura te dá
Fiquei a imaginar cada cena que que você descreveu...mágico.

Larissa Cândido disse...

Adoreeei! Simplesmente adorei! Nem ia ler agora pq to sem tempo, mas não consegui parar! Muito bom Dan! Meu amigo é um orgulho! Te amo!

Wânyffer Monteiro disse...

Através dos livros viajamos no mundo fantasioso de Alice, adquirimos nossa passagem para a casa de Coraline, nos perdemos no reino de OZ. Podemos ser Homens-de-lata, Pequenos Príncipes, Elfos ou Bruxos. Ensaiamos ser cegos, sentimos o horror de um assassinato à sangue frio e ficamos à espera de um milagre.
E são aqueles livros mais mofados e amarelados os mais valorosos. Poque não importa a cor do livro, mas a viagem que ele proporciona.

E quanto a você. Você tem um mundo lhe dizendo "Calma, estou aqui".

[acho que tirarei meu próximo post desse meu comentário shoaiuhsoi]

bjo

Natalia Régia disse...

POxa Dan que textos lindos.
E são contradotórios.
A parede te liberta para ser quem você é e ao mesmo tempo te limita.
bjuss

moça disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
moça disse...

viiiiii...
não tinha percebido que tudo é um complemento!
:)
Sentir sempre nos deixa enigmas que tentamos falar. Tudo que falamos parace que nada foi diluído na solução dos enigmas, mesmo pegando todo o conteúdo escrito. Não temos bibliotecas de livros que ensine a viver "tem que viver pra poder amar, pra poder sofrer, pra poder chorar, pra poder viver" Vinícius de Moraes
Adorei a parede que nos liberta, que nos aprisiona pra poder crescer, e crescemos pra ensinar pros nossos descendentes.
Depois leio você com calma!

abraço beibe!