segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O Matrimônio de Ana



Num dia qualquer, em uma hora matinal qualquer, uma fulana acorda por já se ter esvaído a última gota de sono dentro de si. Não era necessário despertador, ela acordara despertada pelo relógio que tilintava no seu corpo esmorecido há tempos. Quatorze passos da cama até o espelho do banheiro. Dois passos até o vaso sanitário. Sete passos até a cozinha, onde os miúdos irmãos e os pais iniciavam o ritual de voltar a viver. O que ela mais queria era ser desmiolada como as crianças que nunca a tomaram como exemplo. Ela não queria ter afundado na lama que é tentar desvendar a vida. Agora era tarde demais, ela já estava com as pernas presas.


Ana era dona de uma família linda. Ana tinha uma vida inteira pela frente, mil amores em mil e uma noites ainda iriam, feito abelhas, chupar seu néctar. Café à mesa. Família à mesa. Sorrisos e bom-dias preenchiam o silêncio da manhã, enquanto ela percebia o gosto amargo do mau hálito casando com o gosto forte do café. Dado instante ela alcançou com os olhos o pão da manhã quentinho, enamorou-se de vez.

Aquele não era um pão qualquer na sua natureza morta doadora de sustância e vida. Era o seu amante. Quente. Rígido. Macio. Parecia que um feixe de luz enlaçava o olhar dos dois, a sós, num chá romântico de algum restaurante parisiense. O cheiro dele entranhava-se pela sua narina caçadora daquele odor mágico e dominador. Não havia mais como voltar, ele era seu suserano, ela era sua escrava. O Pão, inexplicavelmente belo como criatura. O Pão deveria ter sido criado por Deus, não pelo homem. Jesus partilhou o pão com mais doze homens, mas o Pão dela era só dela, só ela poderia derramar saliva e bufar ao desfrutar o Pão. Ele era simples, ele era Pão, ele era súbito na sua maneira monossilábica de ser. Ele só era, para o mundo, o inexpressivo pão, porque alguém convencionou assim, e o mundo aceitou assim. Mas agora ele não era só pão, ele era amor prestes a ser desvirginado.


Gana era o que faltava na fulana juvenil do corpo para fora, carcomida do corpo para dentro. Não havia motivos para uma Ana tão bela ser tão sozinha. Mas isso não importava mais, agora ela tinha por quem nutrir todo um desejo que se acumulara durante anos. Esfomeava-se mais a cada segundo em que se estabelecia aquela relação mútua de domínio. Sentia-se como uma criança etíope agarrada ao ventre cheio de dor por estar vazio. O Pão não era alimento do corpo, Ana queria o Pão para dar a sustância que sua alma nunca teve.

Enfim, o impulso foi mais forte do que aquela vontade de aproveitar o que antecede o ato carnal, apenas inspirou todo o ar que podia, estendeu a mão bruscamente para entregar-se de vez ao seu amor. Ela começou a nascer, a desatolar da lama. Finalmente iria matar a fome, casar-se. O padre adiantou: “Existe alguém que impeça este casamento?”.

Numa fração de segundos, o irmão, no auge da inocência, chegou primeiro e metera o beijo no Pão, roubara o amor da irmã. Agora era tarde demais, ela afundou por completo na viscosa lama que amarrava seus membros e quanto mais ela tentava se mexer, mais afundava. Ana retirou-se da mesa, deu quatorze passos, deitou e não mais levantou. Sem saber, o ladrãozinho ingênuo, agora em lua de mel, havia assassinado a irmã.

Danilo Castro
04.10.2008

4 comentários:

Wânyffer Monteiro disse...

Menino...
Incríveis seus textos. Esse envolve numa história fictícia que chega a ser real. Belo jornalista você será...

"Ela não queria ter afundado na lama que é tentar desvendar a vida."
Ana cresceu...

bjao, Dan

Aby Rodrigues disse...

belíssimo dani!!!
muitos trechos maravilhosos, palavras sutis e fortes
inspiração bastante generosa.
:********

moça disse...

Ana só não queria amar mas é sem querer mesmo que as melhores coisas acontecem, o amor por exemplo...
casou-se com o gosto forte do café, que combina com pão, que lembra quente, rígido, macio(...),chá. Nunca esquerceu o gosto fino do chá complementado de olhares, ferormônios...amor.
Teoriza o que é sentir isso carnalmente, esta bem próximo de conhecer a emoção de sentir sua alma saciada.
Sua fome é ressarcido pelo amor dominador, simples em sua única fôrma!
Pra que o ódio, se ela se comia de vontade por dentro. Não aproveitou a oportunidade para esperar por um casório?! (ô, estamos no séc. 21 que que é isso!)

"quem guarda com fome o gato vem e come!"
hahahhahaha
:)

pô... texto bom!
ta valendo minha interpretação?!
heehehhehehhe
:P
:**

Larissa Cândido disse...

Dan, não tenho nem o que dizer. Lindas colocações! Lindas palavras! Linda descrição! Linda mistura! Linda comparação! Lindo texto!