quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A Passos de Dyva

Ela usa um tamanco de borracha e a barriga se impõe sobre a roupa. A pele amarela é coberta pela maquiagem rosa em cima do rosto meio engordurado. O batom vermelho transborda dos lábios miúdos. Há quem não a perceba Gerlânia pelas ruelas do Centro.

Ou melhor, Dyva.

No carrossel, Dyva não anda, só observa. Toda noite eles tentam varrê-la para o lixo, a chuva tenta despejá-la nos bueiros e os ratos tentam roer seus dedos. Mas eu, sozinho, a amo. Por isso hoje quero ser Dyva e me entregar destemido e orgulhoso a qualquer um que pague pelo meu serviço. Quero um gozo irracional e crucificado, sentindo o prazer do prego furando minhas mãos. Quero ressuscitar horas depois num cabaré e dançar qualquer eletromelody de braços abertos, ainda manchados de sangue, mas anestesiados pela minha alegria.

Dyva não tem esperança de uma vida melhor, por isso Dyva é rainha. A esperança é arma para o medíocre. Dyva simplesmente vive do jeito que a ocasião mandar. Vive com o corpo todo, longe de qualquer regra que possa transformar sua alma em pedra. Dyva não é lapidada. Ninguém tem o poder de esculpir a desengonçada rainha do cabelo crespo de ouro.

Muita gente tem pena da Dyva, mas na verdade ela se compadece de quem tem pena dela. Ela é a mulher mais feliz do mundo. Dyva quer apenas comer e ser comida enquanto ri dos sortudos que se encharcam da sua água.

Um dia, Dyva quis morrer. Não havia um motivo aparente, queria apenas saber que gosto tem a morte. Apesar da pouca idade, um mundaréu de possibilidades já havia atravessado seu âmago. Simplesmente ela queria conhecer a sensação entre o fim da vida e o início da morte. Mas eu não deixei. Por mais que ela seja intensa e livre, eu a criei há pouco e por enquanto ela ainda é um pedaço de mim. Está sob meu domínio, espero. A mulher mais viva do planeta não pode se acabar.

O que houve? Dyva agora está transtornada.
Ela descobriu que eu sou a cerca do seu fantástico mundo. Como as contrações de um parto, Dyva quer escapar destas linhas. Não! Ela não vai conseguir. Impossível uma mentira ser verdade. Ou ela é a verdade e a mentira sou eu? Até onde o sussurro entre aquilo que digo é audível? Há mentiras que salvam. Talvez Dyva seja assim, por isso ela tenta vir ao mundo além destas letras. Vir para salvá-lo. Sim, ela é o messias.

-Sim. Ela é o messias! Foge, Dyva! Foge pelo ar que eu expiro, voa para o horizonte, reina entre meus pares e me perdoa. Foge e se quiser morre por nós! Você está aqui para servir de exemplo aos que não descobriram que é pecado não viver a vida. Filha, vou tentar seguir seus passos. Você é exatamente o que sempre sonhei ser.

Danilo
28/10/2008

2 comentários:

Joicy Muniz disse...

wow! Preciso nem dizer que adorei o comentário no meu blog né? =)
Ainda mais vindo de vc.
Depois de um tempo sem logar, pela falta de tempo mesmo, agora que fui ver.
E o seu? Meu, sem palavras. Adorei o uso de imagens que vc faz, tipo mesclando ao texto, que "by the way" é formidável.

Super Super.

=***

moça disse...

a dyva sou eu?
hauihauiahiuahiuah
pô, me vi nessa mulher!
;)
:*