quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O Jogo Transeunte ou o Dono do Mundo

Atenção: 
Neste texto descobri 
que o mundo não é 
mais impossível 
pra mim.

Se o prazer transbordasse de uma vez, não seria prazeroso. Bom é quando não sabemos em que hora tiquinhos de prazer vão despertar mais fome. É melhor o prazer gota a gota se estendendo pelo tempo. Por isso hoje me presentearei calmamente com o prazer de brincar de contar uma história inventada de realidade. 

Começa assim:

Eurico talvez fosse um homem entre magro e gordo, belo e feio, atraente e repelente. Ele tentava escrever, mas não dava conta de dizer no papel sequer algo da sua pacata vida, quanto mais realidades inventadas. Ele não conseguia despertar nos outros algum ínfimo interesse sobre suas histórias. 
As pessoas carecem de contar suas histórias, mas são poucas as que têm o dom de ouvi-las e de se encantar por elas. A maior angústia de Eurico era apenas uma: ele tentava ser poeta, mas se sentia incapaz por ainda não conhecer o bom da vida. Era um descompassado poeta virgem, que não conhecia as sensações do mundo, mas queria abocanhá-las, tentando vender nos seus escritos as verdades que nunca havia vivido. 

Coberto de lástimas, o homem casto de mundo um dia resolveu escrever uma história que não falava da vida, nem da morte, nem do amor, nem do ódio, nem de Deus, nem de sexo. Eurico resolveu escrever sobre o Nada. Ninguém no mundo conhecia melhor a sensação de nunca concretizar atos para poder narrá-los. 

Mas o Nada seria um personagem? Precisaria Eurico de algum fato para iniciar sua epopeia niilista? Ele não sabia. O pobre homem frustrou-se mais uma vez, porque nem mesmo do que achava que mais conhecia ele sabia contar, nem mesmo sobre o Nada Eurico falava. Ele só sabia que um impulso forte fazia com que o desejo de ser poeta aumentasse a cada dia. 

Então Eurico despejou num saquinho de papel todas as forças acumuladas no decorrer dos anos, respirou fundo e, finalmente, conseguiu começar. Apesar da coragem, logo mais ele iria chorar pela pobreza da coisa dita. Eurico criou o Nada no seu enredo e passou e a se sentir Tudo. Tudo era pai do Nada. O Nada é intolerante. O Tudo é egocêntrico. Ambos se descompletaram de si e perceberam que nunca experimentaram nada da troca um do outro que o amor pede para tornar-se tudo. Pior é que ele nem fome sentia, vagava nele feito sombra de nuvem apenas uma curiosidade que poderia ser dispersada por uma mosca qualquer que pousasse no seu nariz. 

Eurico esquecia-se do que estava pensando e recomeçava a vida numa nova história habitada entre dois pontos onde não se sabe o que é início ou fim. Ele jazia num lugar, nem lá nem cá, que ainda não tem nome, mas que apelidaram de Quase. E foi nesse espaço que Eurico tentou novamente se debruçar sobre si mesmo. Respirou fundo para deixar a poesia sair. 

Dessa vez, um monte de coisas não estavam cabendo na cabeça achatada do homem que nasceu com cara de fome. Eurico inspirou fundo e decidiu recomeçar. Pensou que poderia escrever sobre pessoa que o criou, mas revoltou-se ao descobrir o quanto era volátil por não ser feito de carne como o seu criador, Era bem provável que ninguém além do criador soubesse da existência de Eurico. O coitado se revoltou contra sua verdade por perceber que não era de verdade e estava sendo apenas marionete de um tutor maldito que podia fazer dele o que bem entendesse.

Num instante tão ínfimo, Eurico evaporou-se. Diluiu-se no mormaço, pois contra a revolta de quem não segue meu regime, dou um abraço mortífero de jibóia. Afinal, se eu sou o mestre do mundo de papel, quem desrespeita o que eu imponho é rasgado e queimado na lareira para que ninguém o leia.
Neste exato momento percebo que já é hora do fim, mas se eu findar agora mais um planeta das galáxias que eu esboço todos os dias, castrarei um tiquinho de vontade de brincar que ainda resta em mim. 

Agora estou compadecendo do meu Eurico. Ou será que estou tentando abrandar o meu totalitarismo para consertar, aos olhos de quem me lê, uma possível distorcida imagem que possam vir a ter de mim? Mas quem garante que o narrador sou eu? E se for o próprio Eurico o autor desta história? Será que eu sou ele? Não! Talvez possa ser bem pior do que eu imagino. 

A avalanche acaba de se desprender do pico e vai ganhando mais força a cada segundo em que mais terra se aglomera para soterrar-me. Resta-me pouquíssimo tempo, o monte de areia está crescendo como os olhos de um invejoso, por isso direi logo minha descoberta: não existo além daqui, sou mero personagem, infelizmente alguém assinará este escrito adiante. Este é o meu autor. Nem eu sou dono de mim mesmo. 

Danilo
26/11/2008

8 comentários:

Gran Magic Carmesin: Nat Valarini disse...

Boa tarde!

Que texto instigante!

O mundo está mesmo lotado de pessoas "mais ou menos", que não são nem lá nem cá.

Gostei muito desta parte: "...Era um descompassado poeta virgem, que não conhecia as sensações do mundo, mas queria abocanhá-las tentando vender nos seus escritos as verdades que nunca havia vivido...".

Isso foi brilhante!

Você sabe trabalhar bem o jogo de palavras. Gosto da forma como você escreve.

Hum... você é Eurico?
às vezes a maioria das pessoas tornam-se Euricos nesta vida.

Só sei que eu não quero!
:)

Bjoks!

Natalia Régia disse...

Acho que depende de cada um ser Eurico ou não..
viver o quase ou o tudo.

Ta lindo o texto Dan.
Vc só me dar Orgulho!rsrsrs
bjus

Alice Sales disse...

Lido e aprovado.
Criativo e interessante!

Aby Rodrigues disse...

Um belo enigma,causador de dúvidas, fiquei a pensar no meu "nada", e também sobre a minha incompetência de falar sobre.

Thiago Ya'agob disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thiago Ya'agob disse...

(Resposta aos comentários realizados no 'Debaixo das Asas')

(...) ops (,)

Danilo, quanta subjetividade, rapaz!
Gostei das suas expressões ‘neológicas’.
Tudo que escrevemos, ao fundo, ao à frente, baseia-se em verdades, como você mesmo explanou:
“porque nem eu sei onde se delimita as dimensões habitáveis e as inabitáveis no que eu escrevo.”
A escrita de Clarice é algo atemporal. Perdura, e sei que perdurar-se-á por “muitos tempos”. Tratar a abrangência da vida com textos aparentemente banais, é para poucos. E ela conseguiu. “Onde aprender a odiar para não morrer de amor”?!
Intenso, isso.
Opa! Gostei do teu filho, e melhor ainda – fui convidado para o batismo!- risos.
Não tarde a me mostrar mais filhos. Quero apadrinhá-los todos que me forem apresentados.

Thiago Ya'agob disse...

Danilo,
Eu ‘QUASE’ me vi no seu texto. Eurico é algo familiar, e ao mesmo tempo, irreconhecível em mim. Mas há vestígios dele em cada um de nós, existem tiquinhos ‘Euriquianos’ em nós.
“Gostei da forma com que conduziste à pena: Você poderia ter escrito ‘nem vida e nem morte” e escreveu “nem de... nem de” – e isso deu uma particularidade maior ao escrito. Gostei.
“Epopéia niilista – o Vazio e o nada se encontram”
No texto, uma frase que gostei, tirando-a do seu contexto (talvez) foi quando li: “... Eurico desejava conhecer.”
Acho que isso, em síntese, revela-me uma interpretação (minha) do seu texto. Porque, eu, assim como você “não sei onde se delimita as dimensões habitáveis e as inabitáveis do que eu escrevo”.

,
Aguardarei um novo texto teu.

moça disse...

"Se o prazer transbordasse duma vez por uma cascata, não seria prazeroso o ter porque o bom está em não saber em que hora tiquinhos de prazer vão despertar mais fome."
o simples prazer de escrever de escrever e a fome de viver num papel!
:*
amei o texto que um dia foi esborçado na minha cabeça por você!
;D