quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Gato Morto

Eu escrevo não tanto por prazer, mas porque sou detentor de uma audácia que mora em mim e desconheço.




“Não se perde por não entender.”
Clarice Lispector


Deitado com as mãos sobrepostas no meu peito e as pernas estiradas num relaxar-estático, fito, arregalado com o corpo todo, o teto branco, que se põe negro devido à imponência do pós-crepuscular. Se o Teto fosse límpido feito os dentes recém-brotados dum neném, que é privilegiado por ainda não saber que é neném, meu sono serviria apenas para dormir. Sem piscar, durmo de olhos abertos até enxergar fluidas imagens oscilantes de coisas que me dizem algo, mas aparentemente não são nada. Aparentemente? Nessas horas eu paro diante das engrenagens e viro só corpo pulsante, que sente prazer em respirar fundo e alimentar o sangue de vento, que arrasta meu raciocínio lógico para atá-lo ao pensar imaturo do neném de dentes brancos.


Aprisionado entre os tecidos que me compõem, liberto-me pelos meus olhos, olhando o que não vejo, feliz simplesmente por não saber o motivo da felicidade devassa, tão estonteante como o prazer do roubar, do ironizar ou humilhar alguém, do mentir, do errar. O Teto não me julga, ele apenas me olha e vez por outra sorri o negro riso maroto do neném de dentes brancos.


Rígido, acomodo-me dentro de mim até transformar-me num búfalo molhado, ofegante, quente, repleto de insetos chupando seu líquido cheio de vento. Só então o cadáver volta a se mexer, piscar os olhos, apesar de continuar irracional e cheio de prazer como felino desbravando novelo de lã. Por que não vim ao mundo como um gato? Que eu fiz de errado noutra vida para merecer tamanho castigo de ter nascido homem? Os gatos não pensam na vida, apenas vivem o prazer de ser sem saber que são. Apenas cochilam em qualquer hora, em qualquer lugar e quando acordam, desfilam sensível animosidade sem medo de mágoa, orgulho ou repressão.


É o Teto negro que me faz montar o quebra-cabeça de qualquer modo. O tempo não me pressiona quando o Teto se põe à minha frente. O único badalar que escuto vibra dentro do meu peito seco de carne, mas cheio de um amor doce de mãe que vela um neném de dentes recém-brotados. O relógio se materializa sobre mim, os ponteiros são meus membros, meus olhos começam a pesar enquanto reluto para viver, por pelo menos mais alguns instantes, esse instante em que não preciso viver.


Um galo grita um grito grande, anuncia a manhã, rasga o silêncio que morre junto ao nascer do primeiro feixe de luz, que penetra pela persiana e divide meu corpo em carne e espírito. É hora de acordar sem ter ao menos cochilado. É hora de voltar a ser obediente. É hora de perceber olheiras diante do espelho. É hora de ver o teto na sua verdade seca e branca. É hora de descobrir que não dormir quando vou dormir vale a pena, pois vivo. Só.




Danilo Castro
01.10.2008

8 comentários:

Aby Rodrigues disse...

Admiro os gatos
felizes em sua ignorância
basta o sono e comida
o homem é angustiante
completo de dúvidas
onde terminam sua perguntas
iniciam algumas outras
o teto,esse ver de cima
um desespero,e sente em seus telhados o peso de nossa cabeça pensante.

moça disse...

esse eu leio depois..
hehehhe
:*

moça disse...

neném de dentes..
iuahuiahiuaha
só tive vontade de ler por causa do comentário do rapaz ai de cima que falou de gatos...
adoros esses bixinhos folgados e sem compromissos para nada!
muito bom viver por simplesmente viver!
:*

Wânyffer Monteiro disse...

Vc tem o dom, querido. Devia ser escritos, não 1 simples jornalista. Muito embora eu esteja torcendo bastante para ter mais um colega de profissão [e 1 colega q escreve bem, o que é tão difícil].

;**

Lari. disse...

Ow! Blog bacanaaa! Primeira vez que venho! Gostei do post também, parabéns! Agora, o que eu achei mais interessante foi sua descrição no perfil. Um cara normal, mas é difícil se definir normal com tanta facilidade.

j e h disse...

sou apaixonada por gatos!

Todo ralo da num Esgoto disse...

...prefiro os cachrros...são mais engaçados e inocentes...assim como tds deveriam ser pra se mais feliz...

Walmick Campos disse...

qmn tem noites assim...
muito bom o texto. tu eh pota, homem, huhuhuhu...

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