sábado, 20 de dezembro de 2008

Gioconda

Ainda não sei como fazer isso. Não sei como contar o que aconteceu. Na verdade, há algo embriagado percorrendo minha cabeça. Se eu soubesse como começar, começaria inocentemente ditando os fatos iniciais. Mas dói. Não posso dizer agora porque não sei bem que coisa é isso. Para contar, preciso da força de uma leoa defendendo os pedaços que nasceram de si. Alguém pode me condenar pelo que vou dizer. Apenas desejarei: verme. Direi sem exclamação alguma, um tom soberano e um olhar oblíquo bastam. Talvez um sorriso malicioso de criança mentindo também caiba agora. Sou imaturo demais para abaixar a cabeça, pedir desculpas e me arrepender.

Entenda que sou apenas a ponte, não sou eu o dono do que concretizo. Sou um fantoche que espera impacientemente os momentos de encarnação. Eu não consigo me ser sozinho. Sou algo que liga dois universos. Um mora em mim, mas ainda não descobri onde se inicia. O outro é ramificado. São veias que saem do meu corpo para os alheios, mas o que me dói é saber que o veneno corre no sentido oposto e quem se embriaga sou eu. Estou sempre embebido numa dor disfarçada por um rosto ameno. Bem, cansei de me distender, vou iniciar a construção do elo.

Estava eu nos meados dos sete anos, teoricamente longe da transição abrupta que me transformou nisso. E agora cá estou, aparentemente vivo, a narrar o que me aconteceu. E dói. Não canso de repetir porque desejo que arda no corpo de quem me lê as pontadas que estão se fincando no meu peito. Queria meu leitor agora como um vodu, mas isso é pretensão demais.

Voltemos ao íntimo do meu passado mais remoto: falarei de Gioconda, minha primeira mulher. Eu, nos meus maliciosos primeiros anos, tinha uma esposa. Cometi a tolice de perder, antes do tempo, o misterioso bem que as crianças carregam consigo. Pior do que um adulto infantil é ser uma criança adulta. Gioconda tinha um nome esquisito para quem está começando a desvendar o mundo e qualquer mosca voando é motivo de curiosidade. Um nome desses soava lindo aos meus ouvidos.

Eu não sabia o que queria dizer, mas gostava de ouvir repetirem articuladamente: Gi-o-con-da. Havia quem a chamasse de Gigi. Eu me incomodava. Isso resumia a minha mulher à sua realidade: uma garota também nos seus primeiros anos de descobertas. “Gioconda” parecia nobre, tornava-a mais próxima dos meus anseios de homem disfarçado num menino.

Enquanto ela brincava de bonecas, eu a observava sem saber que meu olhar era diferente, sem noção do que acontecia comigo, mas tinha a certeza plena de que ninguém me entenderia. Eu raciocinava demais numa idade em que não se é obrigado a raciocinar. Eu era uma... uma peça de xadrez num tabuleiro de damas. Não entendia. Não me entendia e, o que é pior, tentava me entender.

Convivi durante todo um ano letivo ao lado da primeira mulher da minha vida. Gioconda sentava ao meu lado todas as tardes. Minha vida se resumia a ir à escola para ver o meu amor. Se fosse um amor... qual palavra devo pôr agora? Um amor... virginal, com orgulho e um sorriso largo eu estaria a contar isso, mas era pura carne o meu corpo vermelho e pegajoso. Acreditem, mas nunca troquei uma só palavra com minha mulher, nunca. Ela era a esposa que casou comigo sem o “Sim”. E justamente por isso eu a via diferente. Todas as meninas da minha escola eram meninas, apenas. Falavam comigo numa conexão criança-criança. Mas Gioconda era além disso. Ela tinha um olhar misterioso, parecia que nela também se disfarçava uma mulher, assim como eu me escondia por trás de um corpo de menino. Havia algo no nosso olhar que me enlaçava ou eu era apenas um louco que afundei de tanto pensar naquele corpo miúdo, ainda longe de se desabrochar. O meu, o meu corpo engordava de sangue quando via Gioconda. Rígido, eu a olhava como um galo de pescoço vermelho prestes a cruzar. E, foi numa dessas tardes letivas que... que infelizmente aconteceu o dia mais feliz da minha vida. Se soubesse que daquele dia eu resultaria no que me tornei, nunca, nunca haveria feito o que fiz.

O pátio vazio e poucas crianças voltavam, acompanhadas pelos pais ou babás, às suas casas. E eu aguardava o momento do bote. Imensamente pesado e feliz, como uma vaca em ordenha. Minha mãe ainda não havia chegado para me buscar e castrar o meu maestroso dia de reger a orquestra. Como gato prestes a pular no rato, aguardava a perfeição do momento, borbulhando por dentro.

Foi quando o sol estava se escondendo, levando consigo as cores do dia, num descuido de Gioconda ao ir ao banheiro do pátio, que corri possuído por uma seiva brusca num corpo magricela. Longe ainda de possuir qualquer pelo que anunciasse puberdade, corri. Pobrezinha, vestia-se desengonçada, baixando a saia que há pouco levantara. Eu me embebi naquele odor de fêmea e cacei com minhas mãos curiosas e vorazes o que havia debaixo daquela roupa. Em mim, algo súbito já estava a postos, como a ânsia de um ator na sua estreia prestes a pisar no solo sagrado: o palco. E minha mulher se tornou serva pela primeira e única vez. Brincamos juntos por um ínfimo momento que me pareceu eterno. Gioconda me olhava ambígua, ora eu a via serena, ora eu a via séria demais.

Até hoje choro pelas lágrimas que não me escorreram pelo rosto. Pior do que lembrar o motivo da dor, é ser a própria dor. O culpado por estragar a vida de uma criança. Estraguei aquela menina porque nasci podre e, no decorrer dos anos, cresceu em mim a vontade de fecundar minha podridão. Até hoje careço de disseminar minha dor, talvez por isso escrevo.

Danilo
20/12/2008

11 comentários:

Marcio Santos disse...

gostei do teu blog!
so tem postagnes interessantes...!!

se puder passa no meu

http://paginadacomedia.blogspot.com

Alexandre Silva disse...

Bom texto hein... passou rapidão.
Só ñ gostei da foto do cérebro ali embaixo, rsrsrs... entrei no seu blog comendo... :P
Mto bacana
Abraço
http://falandoprasparedes.blogspot.com

Ananda Virginia Sgrancio disse...

Adorei. Adorei.
Parabens
:D


Sucesso !


http://anandavs.blogspot.com/

Wânyffer Monteiro disse...

Desculpe as chulas palavras que escreverei agora, mas foram as primeiras que vieram a minha mente ao terminar o texto: PUTA QUE PARIU, COMO ELE ESCREVE!!
hehehehehehehe

Se Gioconda parecia bonito naquela época, imagine se ouvisse: Wânyffer.
ahoisuahoisu

Já pensou em ser deveras um escritor, meu querido projeto de Machado?

Thiago Ya'agob disse...

Danilo (não li Gioconda, farei isso após os feriados - com muito prazer).

Passo por aqui para desejar-te um Feliz Natal em essência plena.

Um forte abraço, rapaz!

Shalom.

moça disse...

olha só eu concordo com a Wânifer Monteiro, quando disse: como ele escreve!
Você passou a ter mais uma admiradora os últimos meses, você é bom e acredito que irão ter caminhos multiplos pra você pelo mundo!

quanto a Gioconda, acho que assim como o manino, ela também foi uma criança adulta diz para o menino que ele não precisa se martirizar por ter tirado a inoscêscia de uma criança, assim como ele ela também, infelismente, era uma criança adulta!

eu fui uma criança meio adulta, começei a namorar cedo mas não deixei as bonecas por esse amor, tanto que sempre nas minhas brincadeiras ele era o pai, fictício claro, da minha filhinha!
:D

:***
feliz natal pra você meu bem!
:*

eDu Almeida disse...

Muito bom seu blog. Conheci através do da Aby. Vou voltar.
Abraços
eDu

morango disse...

é ner... me permita expor aqui minha admiração..."quando eu crescer quero ser igual a você" kkkkkk adorei te ler sabia, caramba parece a alma em letras perfeito!!!

bju Dani muito sussesso pra nós!!

Raphael Araripe disse...

Danilo, parabéns! Muito bom esse conto. Passou as emoções do eu-lírico com muita intensidade. Sem falar das figuras de linguagem que tu usou, como "Imensamente pesado e feliz, como uma vaca em ordenha", me fez tentar imaginar uma vaca feliz por ter alguém apertando suas tetas- confesso que caí no riso de imaginar a cena. Gostei muito!!
Abraço meu Chapa!!

technology disse...

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Marília disse...

Gostei! Opinião de amiga e de críica também (rsrsrsrsrsrs). tava te devendo essa visita. Parabéns!