domingo, 7 de dezembro de 2008

O Menino que morreu de rir

Era meio dia. A marcha de um povo quase fúnebre seguia vagando na areia meio lilás, meio laranja. Um território quente sob um manto pálido de gente que peregrinava descrente do amanhã. Secos, eles buscavam o esconderijo da felicidade.

Enterrada no meio das pessoas, caminhava também o resquício de umidade que uma terra precisa para ser arada. Era minúscula a criação, tão frágil quanto asas de libélula. Protegida pela mancha de gente quase viva, a criatura caminhava. Ela era o mais esguio direito de existir de um ser humano. Um menino miúdo e incogitado que se confundia com o cenário morto, apesar de seus olhos atentos registrarem tudo que passeava na sua frente.

Chamava-se Nilo a obra de arte. O pedaço de gente era rico em detalhes nos seus pormenores mais detalháveis possíveis. Nele habitava uma espécie de amor selvagem que superava em inúmeras vezes o amor somado de todos que ali estavam. Nilo não enxergava os rostos, sua testa não ultrapassava nem mesmo as canelas cansadas que caminhavam ali.

Mas o cenário da obra era em alto contraste. No meio daquela vastidão de melancolia, um ponto radiava sem medo. O menino andava desidratado, mas nem lágrimas despencavam acima dele. Faltava água naqueles corpos corroídos pelo próprio estômago. Mas Nilo estava lá, sempre esboçando o riso pueril que lhe foi reservado como dom.

A areia, o calor e o vento eram seus brinquedos. Nilo vivia tudo por inteiro. Não havia o mundo ainda outorgado nenhuma lei à sua despretensiosa vida. Dado instante, Nilo não se aguentou de felicidade quando uma rajada de vento o espancou com grãos de areia nos olhos. Aquilo era mágico. Seus brinquedos responderam? Talvez as coisas entendiam o que se passava pelo ímpeto do menino que também era meio coisa e nem sabia.

Mas Nilo era coisa viva e coisa viva que não se indaga, não se explica. Vive, apenas. Brotou-lhe então, duma só vez, a gargalhada gulosa que nunca antes havia rasgado sua garganta. Riu. Riu. Riu como se fosse o último dia em que se pudesse rir na Terra. Quanto mais o povo andava, mais o menino esfomeava-se da vontade de rir.

Adiante já era possível sentir o cheiro doce das águas virgens. E o pedaço de carne seca fora da lei não cessava. Ria de cima abaixo e qualquer tentativa de fazê-lo parar era inútil. Alguns insones aqui e acolá começaram a acordar despertados pelo riso agudo durante a caminhada. Aquela algazarra infante soava maligna aos ouvidos andantes. Mal sabia o menino que a revolução de seu riso seria a justa causa da sua condenação.

Feito formigas em barata morta, um círculo foi se formando em redor da criatura, que passou a exalar amor aos seus semelhantes na proporção em que suas risadas ecoavam pelo deserto. E pra quem tem medo de entender, o amor irrita e, após algum tempo, algumas vezes mata. Naquele meio, Nilo se sentiu dono do amor. E o amor do menino foi incomodando os peregrinos. Um ódio coercivo se estabeleceu.

Um jogo de olhares rapidamente concluiu o decreto. Estava decidido. Em dois tempos a risada calou. O menino se tornou alimento por ter amado. Cada um comeu um pedaço daquele pedaço humano e se umedeceu do amor mais puro que já existiu. Eles jogaram os finos e contorcidos ossos no rio que corria ali perto. Após tanta andança, os transeuntes pararam de andar.

Efetivaram colônia ali mesmo, na beira das águas onde encontraram a felicidade. Tempos depois o rio recebeu seu nome e importantes civilizações se desenvolveram àquelas margens fecundadas pelo amor do miúdo. Dizem que ainda hoje, quem se banha naquelas águas férteis, ouve a risada sagrada que roubou do menino o direito de viver.

Danilo
13/12/2008

2 comentários:

Natalia Régia disse...

Eu pensava que Nilo vinha uma parte de Danilo :D
Só quem estuda as específicas de historias..aí viaja realmente na historia.
Ainda to com pena do menino.
:**

moça disse...

(sem palavras)