domingo, 11 de janeiro de 2009

O estripador de Bestas-Feras


Manuelito tem sete anos, gosta de mascar chicletes enquanto lê algumas coisas não apropriadas para sua idade. Na verdade a diversão maior é fazer bolas ao invés de mascar chicletes e, diante do barulho da mandíbula em contato com o chiclete, ele se engaja de corpo inteiro noutra órbita além do que ele mesmo é capaz de explicar.

Embaixo do lençol florido, todas as noites, Manuelito acende a lanterna e prostra-se a ler os contos malditos de um livro mofado que encontrou na biblioteca da escola. Ao mesmo tempo em que lê, o irritante barulho comprimindo a goma de mascar fica mais intenso ao ponto de ele mesmo quase se ensurdecer com seus ruídos. Mas era inútil qualquer tentativa de parar, porque a cada linha engolida pelo menino, mais firme suas mãos seguram o livro, mais tenso seu pescoço fica e mais saliva se acumula na sua boca interrogativa. 

Num horário sombrio de uma noite qualquer, aconteceu o pior: todas as luzes da casa foram apagadas e os pais de Manuelito puseram-se a dormir. Cessou-se o barulho da TV e o silêncio pairou na simples casa de uma família até então comum, se não fossem os poderes que habitavam o corpo do menino.

Algo inexplicável o dominava, a sensação de medo despertava nele um prazer tão forte e quase lascivo que ele só viria a sentir algo parecido quando completasse dezesseis anos. Debaixo daquela fortaleza de pano, iluminado pela fogueira imponente no centro da sua bastilha, Manuelito viu sombras de soldados malignos que vieram dominar os seus entes, e somente através da espada resplandecente ele poderia livrar os seus dos cavaleiros que possuíam o poder de roubar as almas da sua família. Então, o guerreiro puxou no íntimo do seu âmago todas as forças que lhe eram possíveis e clamou aos deuses dos desertos africanos que lhe dessem força suficiente para combater as seivas do mal. Agarrou com completo alento o lápis recém-afiado e passou a fincá-lo nos monstros que gracejavam em seu redor. 

Foi aí que um imprevisto aconteceu: a ponta da espada quebrou-se num golpe e o encanto, que tornava o simples guerreiro no imortal estripador de bestas-feras, desfez-se. Não havia mais saída, ele estava sem armadura e com a ponta do lápis, digo, ponta da espada quebrada. Agora aconteceria o pior, a maldição eterna das almas usurpadas cairia sobre sua cabeça e nem mesmo o fogo seria capaz de espantar o batalhão negro que se formava em redor de sua morada, antes intocável, agora desprotegida como casebre diante de furacão.

Cessou-se a lenha, enquanto o fogo ia sumindo aos poucos até a pilha da lanterna acabar. Nem mesmo correr adiantaria, talvez conseguisse escapar, mas Manuelito não seria covarde ao ponto de deixar sua família sucumbir sozinha. Findar-se-ia heróico o Grande Manuelito, como numa bela tragédia Grega. Perderia a vida da maneira mais cruel possível, mas o desfecho seria triunfante, pois até a última gota de vida, Ele, o estripador, lutara contra os miasmas do mundo e a favor do sangue da sua família. 

Triunfante, em nome dos seus, Manuelito seria lembrado sempre. Historiadores, literatos, filósofos escreveriam epopéias narrando toda a sua luta. Instituições abrir-se-iam carregando seu nome. Ruas, vilas e avenidas no futuro iriam ser eternizadas com momentos de sua história e... Quando menos se esperava, ao tempo em a morte já era quase uma realidade, a luz do quarto acendeu. A mãe de Manuelito tomou o livro das mãos sensíveis do guerreiro, mandou o menino cuspir o chiclete e ordenou-lhe que fosse dormir. Fim da batalha, Manuelito inspirou fundo e exalou um ódio fulminante da sua mãe, apertou as próprias mãos até a que a dor lhe acometesse e pensou: “perde-se uma luta, mas a grande peleja ainda não acabou”.

Danilo
11/01/2009

6 comentários:

Rubens Rodrigues disse...

No meio do texto eu já não conheçia mais o Manuelito, uahsuhasuausuhshuahs.

Lí vários textos nessa fórmula, eu gosto, alguns confundem, outros são engraçados...o seu é dramático e ligeiramente engraçado.

Ó, moro em Fortaleza tbm.
Legal encontrar um blogueiro daqui, vc é o segundo que eu encontro, sendo que o primeiro foi quem me encontrou, hsuahsuhasuhas.

Curti bastante o blog, se estiver afim, passa lá no meu, se não, não tem problema.

Teh mais!

eDu Almeida disse...

Obg por passar lá no meu canto! Gostei do que escreveu. Será que não somos "homem que é Homem" pq gostamos que Clarice? (sempre ela rs!)
Ah esse manuelito ai, deve ser bem um guerreiro preso em um corpo de menino que lê nos livros ou seus próprios escritos de batalhas de outras épocas alguma lembrança do seu "Eu", agora amarrado na contemporâneidade.
Abs e seja sempre bem vindo no meu blog.

Wânyffer Monteiro disse...

E o Burton inspirando como sempre. Vc pegou o espírito. Muito bom ^^

moça disse...

hehehhehe
legal!
Manuelito o grande vencedor, no final de tudo...
acho o grande vencedor é aquele que sempre ergue a cabeça depois de uma batalha perdida!
No entanto, quem ganha é mais vencedor ainda, mas as derrotas nunca vão ser esquecidas.
beijão para o mais novo caminhante de jornalismo!
;)

Aby Rodrigues disse...

Poxa Dani, muito encantador.Engraçado que enquanto eu lia, fiquei ansiosa, nervosa pela saga do Manuelito.Uma pena sua mãe ter estragado tudo, isso merece uma continuação.O tal guerreiro pode fazer muito com a ponta do lápis,ops,da espada.

superior disse...

It seems different countries, different cultures, we really can decide things in the same understanding of the difference!
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