domingo, 22 de fevereiro de 2009

Cinzas


E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Clarice Lispector


Falta pouco para o meio dia. Meio dia do primeiro dia de carnaval e eu estou deitado, abraçando de conchinha meus pensamentos. Como se não bastasse, há puco, começou a chover. Eu poderia ter viajado, acumulado expectativas para esse poucos dias de folia. Dias de felicidade com data marcada para começar e acabar. Eu poderia não ser tão mergulhado em mim mesmo. Eu poderia ser menos futuro do pretérito e mais presente, mas por mais que haja tempo de mudar, não consigo. E, por isso, cá estou a chorar serpentinas e confetes de solidão. Deitado, eu e minha letra, a amiga que há algum tempo não me encontrava. É uma amizade tão singular que posso estar ao lado dela por horas e não me sentir entediado por isso. Acho que ela é o melhor espécime de amizade que se pode colher dentro de mim. Talvez eu a admire porque ela é tudo que não sou e pior: tudo que sempre desejei ser. Ela é intensa, verdadeira, impulsiva, agressiva. Já eu sou apenas um pedaço de carne branca, ou melhor, incolor, que vai vivendo ao invés de viver. E dói, dói na alma porque quanto mais tento me livrar de mim, mais me encontro aprisionado. Só o que me dá um pouquinho de gozo aqui e acolá é deixar escorrer da ponta dos meus dedos esses pingos torrenciais de chuva, mas chuva ácida, como a que cai do céu da minha cidade. À vezes se é necessário viver, ao invés de ir vivendo. Às vezes. Não, sempre! Agora é meio dia, doze das noventa e seis horas de tortura já se foram. Daqui a pouco vou poder voltar a respirar superficialmente junto aos outros seres quase iguais a mim. Quase. A grande diferença é que resolvi pensar e fazer do pensamento uma arte suja, marginal. Estou desfalecendo por causa disso ou essa é a fórmula da salvação? Preciso comer. Nutrir o estômago mesmo, me sentir empanturrado para não mais conseguir pensar e passar a perna na tortura que impus a mim mesmo. A chuva parou, vou comer, às vezes é preciso morrer um pouco. Feliz carnaval.


Danilo Castro
21.02.2009

11 comentários:

Wânyffer Monteiro disse...

Me identifiquei. ótimo texto.

Walmick Campos disse...

eu tbm, huhuhu


feliz carnaval

Magno Rocha disse...

Muito interessante este seu espaço...

Certamente vou me manter conectado nas atualizações e vou repassar este endereço aos meus contatos...

É um convite à reflexão... é mais que entretenimento!

Obrigado!

*****
Meu blog literário:
http://selvabrasil.blogspot.com
Neste hospedo contos, crônicas, poemas, foto/imagens e um zine (projeto paralelo). Confira!

moça disse...

ai ai ai...
você escreveu tudo o que eu quis escrever!
ainda bem que num passei por aqui no carnaval(deixe pra la, não queira saber o pq eu quis não ter lido isso antes de hoje!
enfim... adorei ter lido frases tão identificáveis ao meu ser!
:*

Canteiro Pessoal disse...

Boa noite Alfa !
Entrei na página do amigo Thiago para fazer um comentário e me deparei com letras atraentes.
Meus olhos dançaram em seu escrito no comentário.
A fraqueza deste foi sublime.
Jovem Alfa, aleluiaaa... que esbarrei com alguém que não utiliza firula para se expor.
Este trecho chamou atenção; "...se por ventura alguém me ler, não me importarei. Parece que eu careço de RECONHECIMENTO e tenho todo o egocentrismo do Tudo, mas não passo de mosca morta, porque a viva ao menos irrita".
Escrevi tempos atrás algo e vou dividir contigo.
"É muito bom sermos reconhecidos, cada qual que nos reconhece são merecedores de salva de palmas, mas nem sempre sermos reconhecidos é tão o tudo, e acaba nos conduzindo sutilmente ao vivermos no reconhecimento e, há muito mais que isso, o abstrato. Acredito fielmente, que aqueles que não nos reconhecem e nos criticam, acabamos por deixar algo que a olho nu não exergamos, afinal de contas, estiveram estes analisando as entrelinhas do nosso perfil literário e, provocamos no inconsciente algo fantástico, abrimos a porta do inconformismo e refletir; aprendemos muito com estes sobre a tal diferença e o exercer do amor.
O confronto consigo mesmo nunca é fácil, é sempre um desafio, mas que precisa ser encarado, pois, libertar-nos das amarras que nos prendem e nos impedem de crescer. E que todos nós somos escritores com nossas próprias vozes, nossas próprias histórias e, que se alguém nos ler ou se ninguém nos ler, nós mesmos nos leremos, ler-nos prova, consolida que estamos aqui, quem somos e que fizemos a diferença sendo nós mesmos".

Abraços.

Natalia Régia disse...

Eurico não é intenso, ele vai vivendo, ao invés de Viver.

Ele vai vivendo,analisando,pensando e esse tempo que ele pensou,ja poderia ter feito muitas coisas e tenho certeza que uma dia o Eurico se liberta da prisão de pensamentos cíclicos e vai tentar ser feliz.
Beijo

Thiago Ya'agob disse...

Danilo, caríssimo amigo em letras,
Perdoe-me a demora em regressar-me aos teus escritos, mas cá estou eu: tentando externar a grandeza que seu texto traçou em mim.


“Só o que me dá um pouquinho de gozo aqui e acolá é deixar escorrer da ponta dos meus dedos esses pingos torrenciais de chuva, mas chuva ácida, como a que cai do céu da minha cidade.”

Falar de chuva direciona-me instantaneamente ao renovo. Chuva traz renovo. E é bom ler chuva em seu texto. (Repetir chuva foi proposital – risos)

"e por isso, cá estou a chorar serpentinas e confetes de solidão".

Esse trecho envolveu-me de tal forma, que tive de parar a leitura e relê-lo. Você consegue me descrever em sua escrita. E isso me perturba. No bom sentido que essa palavra possa carregar.

...

“Daqui a pouco vou poder voltar a respirar superficialmente junto aos outros seres quase iguais a mim. Quase. A grande diferença é que resolvi pensar e fazer do pensamento uma arte suja, marginal. Estou desfalecendo por causa disso ou essa é a fórmula da salvação?”

Rapaz perdoe-me novamente, mas se eu tentar interpretar seus escritos, vou escrever da minha própria vida – há um espelho no seu texto.
Respirar superficialmente... Isso realmente é intenso e real. Acho que por mais que estivesse inspirado não conseguiria escrever essa junção de palavras tão coerentes para “metaforicar” o que sinto no meu âmago.

Gostei... e por sempre gostar, sempre volto para continuar gostando do que leio: Sempre.

Tenha uma ótima semana, Danilo.
Moldado em amor escrevo;

Thiago Cavalcante.

Debaixo das Asas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thiago Ya'agob disse...

Hum... há silêncio por aqui, não?

Retorna! Retorna! Retorna!(Risos)

...

"Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma."

...

"... alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina..."

...

Clarice, nossa Lispector : Restos do Carnaval.

...

-Thiago Matos disse...

"Ela é intensa, verdadeira, impulsiva, agressiva."
Como a escrita sincera é. Como você é.
No carnaval, fui em busca 'destas horas marcadas de felicidades'. Me fizeram refletir e lavar a alma. Minha cabeça voltou mais coisAtiva.
Abração Danilo.
Sua escrita, cada vez melhor.

Bєηjαмiη disse...

Danilo,
Parece ser um Ser diperso, que prende e solta e desconhece...

_esqueço mais nunca o cara add o povo da comunicação e depois não os reconhece...

bincando!

Texto, bom , orgânico, tudo certo!
Ou errado!
Perdido sem querer se achar!