domingo, 1 de fevereiro de 2009

Domingo



“Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.”

Clarice Lispector



Não. Eu não queria ser o narrador desta história, queria que ela se digerisse sozinha num processo de autofagia e que os que a lessem desfrutassem na língua apenas o ácido sabor do fim da reação. Não, não consigo. Se a faca está me pedindo para ser fincada, cabe a mim apenas obedecê-la, como um cavalo magro sofrendo à cargas humanas.

Sábado, dia de despejar a carga acumulada por dois seres corroídos por uma fome súbita que se iniciou no momento em que o primeiro ar foi inspirado por cada um deles. Um ar picante, de um laranja encarnado contaminado de mundo, rasgou a tez angelical que disfarçava dois demônios a procura de corpos a possuir. Seres que foram cuspidos ao mundo, cada um num mundo diferente onde a intercessão era a mesma fome autofágica que não conseguia se saciar em si.

Cada um construiu sua saga em tempos e lugares distintos, mas retas perpendiculares hora ou outra se perfuram, por isso sabiam que um era alimento do outro, mas não sabiam onde e quando haveria o banquete e o brinde à vida. No convite não especificaram horário, nem endereço da festa.

Eram dois seres, apenas, como duas árvores contorcidas, dois animais peludos, duas pedras pontiagudas: virgens e brutais. Cumpriam o que o destino ordenava, esperavam o gran-finale feito vira-latas diante de uma vitrine de frangos assados implorando devoradores.

Quantos sábados já haviam perfurado o âmago dos meus personagens? Por quanto tempo ainda resistiriam à desnutrição cada vez mais evidente? Estiagens iam e vinham, levavam as folhas das árvores e às deixavam nuas com seus galhos finos emaranhando o tempo.

Ao acaso, tão inexpressivamente para um enredo quanto uma mosca presa na cobertura de um bolo ou uma folha seca sendo engolida por um bueiro ou uma pomba expelindo seu pastoso líquido num ombro qualquer, os dois animais se encontraram justamente no sétimo dia da semana, quando o Criador estava prestes a findar sua obra de arte: a Existência, ambos enfim se alimentaram mutuamente de um alimento habitado entre carne e espírito. Um era a terra virgem do outro, eles se colonizaram, nutriram-se da própria fome, encharcaram-se dos próprios desejos e saciaram-se como crianças esfomeadas bebendo leite quente recém-fabricado no peito da vaca. E brincaram. Brincaram até não sobrar mais nenhum resto de festa para comer.

O domingo acordou-se radiante e iluminado, encandeado de si mesmo. O sol cegava o tempo e os dois seres sorriam nutridos, fortes, felizes por saberem que haviam conhecido a maturidade e que cada um doou-se como independência ao outro. Despediram-se com a sensação de que haviam salvado o mundo. Aprenderam a voar juntos e, inquebráveis, seguiram seus caminhos.


Danilo Castro
15.11.2008

10 comentários:

Poly Jomasi disse...

Queria que todos os dias fossem esses domingos... ^^

ps: Adorei esse trechinho de Clarice!!

bju coleguinha de curso! rsrrs

Canteiro Pessoal disse...

Oie querido, perdoe-me a invasão, mas...

Não resisti !!!

Nossa, que sublime voejar por seus escritos, escriba muito bem, confesso que o óbvio não me atrai e, seus escritos aguça-me a ir fundo, profundo e distante, caçar as entrelinhas, a leitura por sua retina.

Que olhante clínico tens jovem ALFA, hum... começo de algo, interessante !?!?!?

Onde entra o Ômega !? O fim está nos acordes do eterno.

Agraciada por seu espaço e desfalecida por tanta harmonia neste jogo letral, como uma criança brincando; escrita que foge literalmente do estereótipo, este que tanto nos despersonaliza.

Abraços e paz !

Walmick Campos disse...

huhuhuhu...
muito bom. qria q os domingos fossem assim tbm... mas jah acho tdo domingo um dia sem força, huahuahau

QUEIJOS E ABRAÇOS

Danilo Castro disse...

Não gosto dos domingos...
São mesmo dias sem força...
Nem percebi, mas o domingo do meu texto foi intenso, Walmick.

Thiago Ya'agob disse...

Danilo,
Boa noite, meu caro amigo.
Li, re-li, reli seu texto, e,... Confesso que não consegui assoalhar todas as entrelinhas que há nele. Na verdade, o que gosto é isso: A abrangência que as palavras possuem.
Daí, as interpretações. Esse poder em nós de ver os escritos por esferas diferentes, e isso é divinamente glorioso.

“Não. Eu não queria ser o narrador desta história, queria que ela se digerisse sozinha num processo de autofagia...”

Essa frase mexeu com meus pensamentos.
Ouvi hoje que muitas pessoas possuem preguiça de levar o garfo à boca.
E através do seu texto, pude compreender melhor o que Salomão tentou exemplificar em Provérbios:

A preguiça faz cair em profundo sono, e a alma indolente padecerá fome. (19:15).

Bom, mas vamos ao sábado.
Muitos esperam a sexta-feira, mas há os que esperam pelo sábado. E eu me incluo no segundo grupo.
O sábado tem um simbolismo muito grande. É o último dia da semana. O dia que representa o número 7 – perfeição. O dia que o Mentor do Universo concedeu-nos como Dia do Descanso.
E como eu preciso descansar, Danilo!
Há demônios em mim que precisam de um lenitivo: um descanso.
Isso é forte. Falar sobre isso me faz ver os convidados narrados por Clarice em “A repartição dos Pães”: Obrigados.
Por vezes, calei minha voz por me sentir obrigado a participar de um banquete sem sentir em mim o desejo apetitoso à refeição oferecida. E reescrevo novamente: Isso é forte. É pôr vida aos demônios e baixar as asas dos anjos. (ou vice versa).

“Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma.”

Acho melhor eu parar de escrever. (Eu me empolgo).
Amado,
Que os próximos ‘seis dias’ possam ser dias de profunda reflexão sobre os sábados que emolduram as diversas esferas das nossas vidas. Por mais que façamos, faz-se necessário o descanso.
E eu quero descansar.
Ótima semana para ti,

Ah...

“porque nem eu sei onde se delimita as dimensões habitáveis e as inabitáveis no que eu escrevo.”

Shalom, Compadre.

...

Fique feliz ao ver um comentário da minha amiga - Canteiro Pessoal -aqui no seu blog. Gente boa, ela. risos.

Thiago Ya'agob disse...

Boa tarde, Danilo!
Sinto que as letras estão nos unindo dia após dia, numa amizade solidificada em terra fértil. E isso muito me alegra. Espero que os frutos sejam cada dia, mais aprazíveis à nossa exigente degustação: em letras.

Pude ver o vídeo que você me indicara: ‘Tim Burton – Vincent’. É profundo. Vi-me no “Mmenino” de 7 anos. Poderia comentar sobre várias frases de excelentíssima reflexão, mas me apego em uma que realmente cativou-me:

“Estou possuído por esta casa e nunca mais poderei sair”.

Refletiu em mim essa frase. Estava com sede e bebi das águas impregnadas no vídeo,.
Encontrei no vídeo um gosto familiar, íntimo, peculiar ...

Deixo a reticência emoldurar meu escrito nesse momento, e agradeço por me apresentar tamanha reflexão.
Tenha uma ótima semana, Danilo.

Natalia Régia disse...

as palavras são suaves e as imagens são fortes..
lindo lindo lindo o seu texto!
é uma pena que chegue o domingo.
beijo

Marcella Castro disse...

Olá! Passando aqui pela 1° vez e confesso que já gostei bastante! Fiquei fascinada com a sua forma de escrever e pensar, de uma maneira que prende o leitor cada vez mais! Esse encontro de almas que saciam os seus desejos é sem dúvida um momento único!
Beijos!

moça disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
moça disse...

ja tinha lido esse texto antes mas sei la, num tive muita vontade de comentar!
gostei da idéia dos dois corpos se possuírem por simplesmente possuir. muito boa essa necessidade humana de querer-se um ao outro sem compromissos como quando não se tem mais palavras ou não se quer ser narrador, e mesmo assim encontra na reserva do seu íntimo palavras para traduzir o que se pensa, ou até que sua mente quer que aqueles pensamentos sejam libertos,você não quer escrever e mesmo assim escreve para completar seu âmago, acabando por perceber que na verdade era aquilo mesmo que queria.

beijos neguinho!
saudade de você!
:)