quinta-feira, 7 de maio de 2009

A disputa

"... o homem estava enfermo, sofria de uma espécie qualquer de enfermidade, da alma, do espírito ou do caráter, e me defendi de tudo isso com meu instinto de pessoa sã."
Hermann Hesse

Bem, há pouco, por mais uma noite, a bebida foi minha melhor amiga. Pondo-me assim pareço até um alcoólatra irremediável, mas, pelo que conheço de mim, ontem encarnei essa personagem pândega beirando o ridículo. Um homem que estuda, que preza pela imagem e vive enclausurado pelas normas da boa educação, encontra refúgio na bebida. Não consigo me ser de outra forma, uma pena. Somente sob efeito etílico posso voltar a ser o que já fui noutros remotos tempos: um ser humano, sem complicações maiores, feliz por uma bola de futebol nova ou uma bicicleta com buzina. Posso ser o que nunca poderei de outra forma. É uma viagem no tempo, a diferença é que os fatos não são os mesmos, mas simplesmente as sensações antigas voltam a me habitar e as engrenagens do pensamento param. Viro um animal pulsante e não pensante. Apesar da minha admiração pelos felinos, eu, quando em estado não sóbrio, sou um filhote de cão vira-lata brincando com restos de lixo, desengonçado, indolor e venturoso.

O cão com a língua de fora, babando sobre um pedaço de osso. O cão correndo atrás de carros em alta velocidade. O cão sendo enxotado pela vizinhança e sem nenhum remorso ou rancor por isso. Hoje, ao me ver sob a luz da realidade, ao cair da minha terra sem gravidade, sinto um nojo de mim, um nojo pela minha covardia que de tanto pensar, não consegue viver. Um nojo por ser incompleto, podre, porque nada do que vivo é inteiro, sou sempre o Homem fingindo que não é Cão. Isso é o pior, fingir ser quem você não é, ou talvez mais doloroso seja enganar a si mesmo ao acreditar que nunca vou tropeçar e cair com as quatro patas no chão.

Meus olhos lacrimejam e um bico infante se instala formatando mais uma das minhas máscaras gregas. Pergunto-me (in)docilmente se sou Homem ou se sou Cão. Aqui, quem escreve agora? É tão angustiante não se saber quem é, porque quando escrevo vem tudo num impulso só, como um cuspe pegajoso, como um assassino desesperado prestes a cometer seu maior ato.

Ao mesmo tempo, o momento em que me ponho diante de um papel é quando mais ativo as turbinas dos pensamentos, das sensações... Como ser essa ambigüidade ambulante? É possível? Talvez estas mal escritas linhas estejam mal escritas porque a cada palavra dita quero gritar umas dez. Estão todas carregadas com o peso de suas sombras, é fatalidade.

A coleira me sufoca enquanto suplico para que minha insônia se vá e para que eu consiga tentar me ser daqui pra frente, ser-me sem precisar de álcool correndo em mim. Eu não sei como terminar, estou com medo do fim e ao mesmo tempo disposto a lutar, mas não tenho a mínima noção de qual dos meus Eu’s vencerá a guerra.

Cão que ladra não morde.


Danilo Castro
01.02.2009

2 comentários:

moça disse...

¬¬

Natalia Régia disse...

Vc é um ator.
Um ator-mentado.