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domingo, 31 de maio de 2009

Fim do Mundo

-Eu quero conhecer o mundo, mãe!


Suplicava em tom de revolta o moço de pele amarela, tez queimada, olhos secos e vivos, quase esbugalhados de tanta vontade de hidratar seu ócio. Ele não suportava mais o chão rachado aos seus pés sujos de roça. Queria sair dali o quanto antes, olhava para o horizonte e imaginava o que havia do outro lado daquele mundaréu de galhos secos e terras acobreadas.

Dias iam, vinham e por todas as manhãs ele percorria o mesmo caminho, equilibrando-se nas trilhas que fincavam suas pernas naquele amplo lugar que o engaiolava. Ordenhava a magricela cabra que lhe dava o pouco alimento que nutria seu já encurvado corpo. Depois capinava, semeava o roçado e esperava incessantemente brotar sequer um raminho de feijão para ao menos encher a barriga da pobre mãe de pescoço fino, olhadela funda e clavículas salientes. O pai morrera desgostoso, abatido e atoleimado. Aquelas bandas foram roubando-lhe o tiquinho de vontade de comer, andar e piscar os olhos. Impossível encontrar felicidade num lugar onde somente ventos e luz pairam pelos arredores.

O púbere, que deveria ser cheio de vida, transformava-se aos poucos na mesma máquina em que seus pais se metamorfosearam. Ele passava a ser só carapaça, um corpo vazio, mas pulsante, pois ainda latejava-lhe os restos de sonho de ultrapassar as longínquas fronteiras daquele fim de mundo. As circunstâncias doíam-lhe o peito, porém o jovem nunca caía aos prantos, não por ser forte, mas por faltarem-lhe lágrimas. Não sabia ler, não sabia calcular, não sabia viver. Sua mãe o acorrentara àquelas terras. Ela não queria sair de lá, ele não podia deixá-la sozinha. Pobre moço, desprovido de companhia, no auge da vida, teve de conhecer o leitoso prazer da perpetuação humana com a dona de sua ordenha.

Nenhuma gota d’água caía do céu branco para lavar a tristeza daquele translúcido oceano de areia encarnada ou para intumescer a alma do rapazote, refrescar-lhe o espírito e renovar-lhe as esperanças de arrebentar as suas algemas.

Certa vez, em meio a tanta solidão, sua cabeça vã desejou que a mãe morresse para que ele pudesse partir rumo ao mundo, sentiu-se mal, confuso, por isso tentou ajuizar com força outras coisas para preencher sua mente indigesta e livrá-lo daqueles sórdidos pensamentos, mas não adiantou, seu desejo de evasão era mais efervescente que o amor maternal.

Poucos meses depois, parte do seu anseio concretizou-se. A mãe teve sua alma usurpada às alturas, num êxodo repleto de felicidade de ambas as partes, pois só assim ela deixou de ser objeto da vida, enquanto ele viu-se com o pé no futuro. Enterrou, com um leve sorriso de canto de boca, o corpo da mãe, que já era quase um pedaço de carne ressecada. Cada centímetro de terra seca que cobria a rede envolvida no cadáver era como se fosse um degrau que ele subia na infinda vontade de escapar dali. Enquanto exercia o serviço fúnebre, ponderava à defunta sussurrando: “Eu quero conhecer o mundo, mãe!”.

Sozinho, fitou o horizonte, arrumou as malas, abortou da sua vida a casa de taipa e todas as outras lembranças mórbidas das suas raízes, que agora foram arrancadas do solo de pedra. E feliz, minuto a minuto, cobiçava o amanhã. Partiu junto à sua fiel e leiteira concubina. Dali a muitos dias caminharam, caminharam, ca-mi-nha-ram, mas parecia que o horizonte estava cada vez mais distante. O leite secou. Então, numa das tardes, quando o sol começou a se preparar para sua dormida, a cabrinha titubeou, derrapou as bambas patas na areia seca e não mais levantou. A sua leal parceira, que tanto o saciava, não resistiu à interminável marcha. Foi neste dia ele desabou, explodiu de dor. Enfim choveu, no entanto a água não caía do céu, mas transbordava dos seus olhos.

Inspirou fundo, enquanto o sol e o agressivo vento carcomiam a epiderme do avelhantado moço que, em poucas semanas, havia arruinado uns dez anos da sua existência. Estava cansado, abandonado, esmorecido, mudo, com sede. Mas, numa boca de noite, quase instantaneamente ele arregalou seu semblante chocho quando avistou o matagal de cimento que tanto procurava. Maravilhou-se. Luzes coloriam o lugar, diferentemente das lamparinas que mal alumiavam a escuridão no seu antigo lar. Feixes de fumaça, doença, corrupção, fome, violência, desigualdade e hipocrisia formavam um belo crepúsculo. Finalmente ele conseguiu, depois de muito peregrinar, realizar seu sonho. Chegou ao Fim do Mundo que tanto almejava conhecer. Alguns segundos depois, encandeado, expirou.
 
Danilo Castro
02.08.2007

Um comentário:

O Espelho de Eva disse...

Tantas vezes queremos conhecer o mundo, abraçar o novo, respirar o desconhecido e o que temos, o que somos já não nos importa, jáo não nos serve, pior nos incomoda,pesa... pesa?
Ou a sedução disfarça o peso da novidade? Ou conseguirá o desconhecido, com suas artimanhas, nos fazer carregar o dobro do que carregávamos, sem sentir no primeiro momento?
E depois a desilusão... os castelos de carta desmoronam-se um dia.
Delicioso e reflexivo texto.