segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Médico

"Já tentei parar com o teatro, mas ele não parou comigo, é algo vivo, que consome suas entranhas e lhe domina. É uma droga, é um demônio a quem se vende à alma, é uma mola propulsora, são os aparelhos de uma UTI que mantêm vivo um indivíduo..."


Sheila Paiva da Paz


Acho que nunca fiz desse blog um diário. Hoje quebrarei minhas próprias convenções, porque eu sou inconstante mesmo e tenho que me aceitar assim. Ai de mim se eu não me ser, sozinho ou não, preciso me ser. Há algumas horas estava eu em minha aula de Pré-Montagem, apresentando-me num exercício de concepção da nossa peça de encerramento de curso, prevista para o próximo semestre. O público era somente minha própria turma, meus atores-colegas de sala. E, não tão incrivelmente, senti-me nervoso, de tremer as pernas, com a adrenalina à mil. Fernanda Montenegro certa vez disse que no dia em que ela subisse num palco e não se sentisse nervosa, com um frio na barriga, ela deixaria de fazer teatro. Essa sensação é maravilhosa, vivo a magia que antecede o pulo no abismo, e, quando pulo, vou caindo, caindo, caindo sem nunca encontrar o chão... O palco ainda é um dos meus maiores mistérios. Lembrei que, no início do curso, certa vez chorei em sala de aula, diante de todos, diante de Danilo Pinho, na época, professor da cadeira de Técnica Vocal. Chorei porque depois de ter lido um texto do Grotowski, vi que ele falava de dois tipos de atores, o Santo e o Cortesão. O Santo é aquele que se deve ser, que consegue se neutralizar após cada personagem, após cada peça, e construir um corpo, uma voz, uma personalidade diferente, mortificando-a, ao término do trabalho, para que nunca faltem possibilidades novas. Já o Cortesão é aquele que tem um curto acervo de opções e, quando julgar necessário, faz as devidas combinações possíveis no seu corpo, dentro de suas limitações e, ainda assim, mesmo que falsamente, consegue convencer. Mas isso é arte? Isso é interpretação? Chorei porque me vi Cortesão desde que comecei a me interessar pela arte de representar, aliás, hoje vejo que representar não é um termo bom, arte de viver uma vida em poesia é melhor, porque o que acontece num palco não é a imitação da realidade, mas a realidade poetizada. Nadei contra a correnteza, águas mais fortes quase me sufocaram, mas ainda estou aqui, vivo e sempre buscando o meu melhor, buscando não os meus limites, mas o que existe além deles. Um amigo já me disse que para ser um grande ator, é necessária uma vida inteira de dedicação. Stanislaviski fala que um ator, o Santo, requer conhecimento na área do canto, da dança, até das artes marciais, e, claro, na área da interpretação. Além de tudo isso, Teatro pede experiência de vida, nós trabalhamos com sentimentos, sensações, emoções. Mas como ser um grande ator se não há tempo para fazer tudo isso? Se não há apoio para ser tudo isso? Na China, os pais têm orgulho quando um filho resolve ser artista e, ainda cedo, as crianças ingressam em escolas de artes quando mostram aptidão. Teatro por lá é milimetricamente pensado, um ofício repetido perfeitamente igual quantas vezes forem necessárias. Por aqui, quase tudo ainda é meio impulsivo, desregrado. Por aqui, ninguém educa um filho para que ele seja ator. Isso não significa que não sou apoiado pela minha família, mas se eu, desde pequeno, quisesse ser um médico, apoio nunca, em nenhuma hipótese, faltaria-me. Parece que o mundo conspira em favor da Maldição Teatral, ainda mais aqui, no Ceará, onde muito não acontece por uma série de motivos que não pretendo repeti-los. Só é possível reconhecimento, se houver esforço, dedicação. Reconhecimento não é fama ou glamour, é ser bom o suficiente para viver do trabalho, para ser valorizado por isso. E se eu quiser abandonar tudo? Meter-me daqui para o Sul? Dormir em baixo de pontes como Jackson Antunes e tantos outros já fizeram um dia? Entretanto, beberam do que há de melhor em cursos, oficinas e mercado. Não é apenas o Sul a solução, mas boa parte de tudo encontra-se por lá. É fato. É preciso tentar. Mesmo que eu quebre a cara. Como alerta, Marcelo Costa, ilustre figura da História do Teatro Cearense, sempre diz que "é preciso coragem para viver dessa Maldição." Bem, se teatro fosse como meu irmão vez por outra brinca “É muito fácil, é só decorar as falas e dizê-las em cima dum palco.” eu, em absoluta certeza, teria me tornado médico. Aliás, por que não? Se um médico, no seu ofício, pode salvar vidas, eu tenho nas mãos o poder de, através da minha arte, salvar almas.


Danilo Castro
08.06.2009


4 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, amei o que psicografastes ! Saio desta leitura pensativa.

Lindos dias querido

Priscila Cáliga

O Espelho de Eva disse...

Danilo, seu desabafo, seu clamor, seu desespero, seu pedido de ajuda, poderia muito bem partir de mim, de Itabuna... Mostrou-me uma realidade, na verdade, contou uma realidade que nós artistas grapiúnas sofremos, vivemos... E o pior: não há união entre os grupos. É uma picunhinha boba, um querendo ser melhor que outro, mas todos são Santos e Cortesãos, e bons no que fazem, mas brigam... Jà tentei parar com o teatro, mas ele não parou comigo, é algo vivo, que consome suas entranhas e lhe domina. É uma droga, é um demônio a quem se vende à alma, é uma mola propulsora, são os aparelhos de uma UTI que mantém vivo um indivíduo... Vi muita gente indo embora para Salvador, porque aqui não há uma faculdade, não fui, não tive coragem de ir... uma pena! Talvez, um dia quem sabe... Mantenha-se firme, não se entristeça em ser cortesão, corra atrás da "santidade", onde quer que esteja. Dê o melhor de si, seja deus, e dê vida a todos os personagens que lhe forem apresentados. MERDA!!!!

moça disse...

acredito que todas as pessoas se auto duelam, ser inconstante é natural do ser! e ser um ator deve mesmo ser muito difícil pq sei que é uma arte fascinante(eu que só fiz teatro e não estudei achei foda, imagine quem estuda) e muito descrimidada, ainda, infelizmente!
mas nunca desista dos seus sonhos querido!
:*

(har, o anônimo sumiu!
=( )

Thiago Ya'agob disse...

Danilo,
Vejo esperanças nas entrelinhas do seu ‘diário’.
“... porque o que acontece num palco não é a imitação da realidade, mas a realidade poetizada.”
Isso me alegrou n’alma. E isso não é um elogio, isso é a realidade – realidade poetizada
E nem sempre a realidade consegue ser de fato real por si só, não é mesmo? Faz-se necessário a poesia.
Amigo, ouse sonhar!
Martin Luther King sonhou ... e hoje vemos a concretização do sonho dele. Tantos sonharam ... vamos sonhar também, por que não? (E isso não é simples palavras encontradas num livros de auto-ajuda).
Digo, debaixo de ponte você não dormirá, ‘Debaixo das Asas’ encontrarás refúgio, meu caro. É pra isso que servem os amigos.
Tenha uma ótima semana.

Shalom.

(Ah, obrigado pela definição de 'Santo' e 'Cortesão'. Saio daqui com conehcimentos novos.)