domingo, 19 de julho de 2009

Confissões de um aleijadinho

Imagem de Areia Hostil

Eu não sei como começar mais uma vez, como em tantas outras vezes em que tentei e não mais consegui escrever. Houve vezes também em que tentei parar e só depois de muita luta consegui. Não sei bem sobre o que discorrer e nesses últimos tempos tive o azar de a inspiração ter-me ocorrido em momentos inoportunos, quando nem lápis, nem papel estavam à volta. Daí perdi o tesouro em poucos minutos e sinto que não mais vou recuperá-los.


Um dia, num calor infernal, passei por uma ponte com um lago em baixo e com um vento forte que quase me derrubava... Senti-me tão bem, a infância me acalentou de novo. Naquele instante, quase que minha coragem infante quebrava convenções e, num ímpeto incomum à minha passividade, me fazia pular nu naquela água fresca contrastando com o calor revigorante... E como o que mais importa agora é desembocar a escrever sem rédeas, mudo a conexão para outro dia, outro pequeno momento iluminado em que minha cabeça desvairou a produzir reflexões sobre o amor. Tão monótono falar de amor, tão batido, pilado, remoído. Entretanto pensei no amor não como uma dádiva, mas como um cruel inimigo. Um inimigo porque eu tenho medo de amar, acho que é o mesmo medo de morrer que citei na primeira frase desse escrito, mas acabei apagando-a por insegurança, por medo de ser repetitivo, mas o que é a vida senão uma repetição? Tenho medo de amar porque sempre me achei do mundo e para o mundo e me amo mais do que qualquer outra coisa. Não acho que pertenço unicamente a alguém, sou de todos. E o amor, o clássico amor shakespeariano exige entrega, renúncia. Sinto-me vadio por me citar assim, como um objeto de manuseio descartável. Pareço até uma prostituta que ama descomedidamente seu ofício, mas quem me dera se eu conseguisse ser intenso como tal. Intimida desnudar a alma assim, pois o que escrevo nunca, em nenhuma hipótese, são somente ramos imaginativos, mas fica sendo como já disse noutro filho meu: é impossível delimitar o que é e o que não é de mim no papel. Talvez o maior dos temores é o medo de que descubram os homicidas que caminham comigo, escondidos por mocinhos de tramas televisivas. Minha identidade secreta ninguém conhece, nem eu mesmo. De vez em quando desconfio de mim, como se eu estivesse armando algumas siladas categóricas para me destruir. Mas eu sei também que minha morbidez põe ordem na bagunça que faço toda vez que me ponho a criar, e que boa parte disso tudo é o meu instinto poético barato e melodramático aguçando minha escrita.


Medo. Essa repulsa ao amor me torna tão incompleto, que não consigo viver tudo que deveria viver, vivo as coisas com desconfiança, vivo as coisas pela metade. E ser incompleto é terrível já que meu medo é maior do que a vontade de recuperação, o que é pior, sou um enfermo sem remédio, incurável. Vivo experiências diversas, mas quase nada adianta, todas são pela metade.


As coisas já estão fugindo, mas eu não quero parar a turbina que começou a rodar há pouco. As pontas dos meus dedos estão relutando, mas acho que esgotei. Pena. Estava quase lá, todavia tive a sensação de coito interrompido novamente. Meu amor sempre é assim, um coito interrompido, amputado.




Danilo Castro
16.07.2009

17 comentários:

Airton disse...

poww bem legal...
a parte q eh marcante eh qnd fala de viver desconfiado pela metade..axu q mtas pessoas ja passaram por isso na vida neh

http://publicandobr.blogspot.com/2009/07/karl-maden-1917-2009.html

Tati disse...

Você escreve imensamente bem. Domina a escrita e disfarça insegurança usando de artifícios sentimentais. Perfeito! Gostei!

Tiago Dadazio disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Airton disse...

opaa cara legal q tu eh ator...eh essa profissao exige q tu veja uns e outros filmes neh hehhe mas tipo eh um bom passatempo tbm haushausu

to seguindo aki teu blog

se quize segue la
abraço

Luiz Alberto disse...

Muito bom...parabéns pelo texto...

Luiz Alberto disse...

Só uma dica. Colocar um fundo preto p ler pode cansar um pouco a vista...

Saudades de Fortaleza, morei 2 anos lá...estudei no CMF...

Abçss

Luiz Alberto disse...

CMF-Colégio Militar de Fortaleza...


O cinza ficou melhor...

Vlw!!!

Natália Coelho disse...

Primeiramente, parabéns pelo texto bem escrito. Está cada vez mais díficil encontrar blogs que se preocupam com a escrita.

Falando sobre o texto, com certeza você não está sozinho nessa. Não sei se isso é um "fenômeno" atual, mas me parece que as pessoas estão com medo de confiar completamente em outra, de se doarem,enfim. O romantismo anda perdendo pro racionalismo. O Eu está vindo antes do próximo, e eu não discordo desse pensamento.
É como você disse:
"me amo mais do que qualquer outra coisa."

Se jogue nas situações, às vezes pode ser bom...
No final é só se refazer...

Abraços
Gostei daqui.

moça disse...

ô seu aleijadinho, fica assim não isso é um problema realmente que está cada vez mais generalizado, acho que as pessoas estão mesmo com com medo de sofrer por outra, achando que isso vai tirar seu amor próprio!
Posso te dizer que sou uma pessoa extremamente romântica, acho que já deu pra notar, e adoro sentir algo por alguém, mas isso nunca me tirou o amor que sinto por mim, mesmo que as vezes pareça para algumas pessoas que não me dou valou, que não me amo... As vezes acho que me amo tanto que esse amor chega a sobrar, daí resolvo compartillhar. No entanto, prefiro deixar o que sinto por mim pra mim nas minhas horas secretas (hehehheeh)
Gosto de gostar até o dia que acabar, como já dizia o grande vinícius..." que seja eterno enquanto durar"
olha esse texto: http://pipissa.blogspot.com/2008/02/amor.html
beijo beibe, vê se aprende a amar o próximo! se não conseguir da um grito de socorro que talvez eu possa te ajudar!
;P
:**

Anônimo disse...

suas palavras feriram-me! :(

Niltinho disse...

Muito boa a qualidade de teu texto, boa para um blog, mídia onde geralmente não há muita preocupação com qualidade. Parabéns.

Camila Amato disse...

Não se deve ter medo.
O medo impede as pessoas de fazerem tantas coisas.

Eu, por medo, coloquei a perder um grande sonho — mas levei disso uma nova lição.

Devemos arriscar mais, valendo a pena ou não, só descubriremos no final.
Ou você vence, ou ganha forças pra vencer outra.

Adorei o blog.

Rosangela A. Santos disse...

Amei o seu texto ... assim como vc tem muitas pessoas que tem esse medo .. medo da entrega do que pode acontecer .. sei lá .. acho que quando é pra ser não existe medo.. insegurança ou seja lá oq for .. ele vem e te arrebata sem perguntar nada .. ai já foi .. está apaixonado .. amando .. rsrs

Abç

O Espelho de Eva disse...

Amar talvez seja o sentimento mais inexplicável que temos notícia. Para a esperança a cor verde, para a amizade, rosas amarela, para paixão o vermelho. para a paz, uma bandeira branca. e apra o amor, qual a cor, qual a forma? Posso amar de azul num instante de infinito. Posso amar de preto silenciosa e misteriosa. Posso amar numa cama, numa nuvem, na areia, na chuva, na fazenda ( ou na casinha de sapé). O certo é que quando o amor chega, você sabe de sua existência, o problema é o medo. De tanto o querermos quando o temos temos medo e estragamos tudo.
Beijos.

Marcelo A. disse...

Cara, impressionado com o seu blog... Não sei se, pelas minhas andanças, já tinha passado por aqui. Com certeza não, pois se tivesse, não teria esquecido. Meus parabéns, de verdade... Posso te linkar lá em casa?

Abração!

Marcelo.
www.marcelo-antunes.blogspot.com

Airton disse...

mto loco juventude transviada....to cum vidas amargas aki do james pra ve....hj vi ultimos passos de um homem com o sean penn e um com humprey bogart dead end bom tbm

Thiago Ya'agob disse...

A imagem do livro 'Iracema' me olha enquanto tento comentar seu post. Tento...

Clarice tem uma frase muito intensa e quero registrá-la aqui; afinal, Clarice 'foi em tempo presente amiga íntima nossa e publicou nossas conversas em seus livros que não passam' - [risos]

Esse olhar indígena não pisca - me olha desnudando-me. Vamos à Clarice:

‘Não estou à altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira.’

De vez em quando desconfio de mim ...

Eu também – de mim.