quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Os mundos de João

É dia de festa, mas o homenzinho ainda não percebeu. Porque não é fácil viver algo que apenas um, e mais ninguém, sabe que vive. Estaria ele louco ou ser do mundo é mais difícil do que o homenzinho já pôde imaginar? Há um mistério escondendo as borboletas, há um mistério emparedando o homenzinho. Um enigma que o sugou e ele não mais tem forças para sair, desprender-se desse reino mágico que ele não conheceu o suficiente para poder habitar. Que seria do homem sem a dúvida? Uma maravilha! Mas ele está perdido como formiga fora da trilha, sendo perseguido como num sonho, correndo de alguém sem conseguir sair do lugar. 

É dia de festa, mas o homenzinho ainda não percebeu, por isso enclausurou-se em si mesmo e está prestes a estourar junto aos rojões que irão soltar em comemoração à sua alforria. Ali, no chão frio da festa, o homenzinho chorou pelas borboletas que foram mortas antes de mesmo nascerem. Era consolo imaginar que dali elas iriam para além da gravidade, seria muito melhor. Emocionado pela ânsia de liberdade que em pouco tempo lhe seria concedida, deparou-se com a Verdade, que nada lhe disse, apenas o esnobou com seu olhar soberano. 

Sob os olhos esmagadores dessa mulher alta, ele percebeu que não lhe faltava muito tempo. Antes de a festa acabar, ela iria pôr-se à sua frente com as borboletas despedaçadas em suas mãos, desvendando o que por muito tempo torturou o âmago do homenzinho. Agora falta muito pouco. Luzes vão colorir de repente o céu e o homenzinho voará indomado para o além, deixando cair todos os mundos escondidos embaixo das suas asas. Com o vento espancando-lhe o rosto, o homenzinho, aliviado, curado dos seus miasmas, abrirá os braços e sorrirá tudo o que, por uma eternidade inteira, nunca pôde sorrir.

Danilo
10/09/2012

25 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Danilo Castro, meu caro:

É interessante observar que existe vida no mundo nético:

sua blogsfera é um misto de literatura, o uso do texto pra falar do cotidiano ou pra falar da própria poesia que habita em todos nós - define tudo. Você propõe uma linguagem direta, mas muito aprofundada no âmbito literário. É decidido, usa a imaginação e cria toda uma situação. Gosto disso.

Você fala muito de superação, aprendizagem, da realidade, da forma de transformar a vida com poesia, isso é agradável...

Não li nada parecido, ultimamente.

E é bom ver que há esta vida toda, brilhando, pulsando, num blog. Fora que Clarice Lispector sempre presente por aqui torna tudo: sublime, voraz.

Ela me define e muito.

Te sigo, de perto, agora.

Um abraço

www.apimentario.blogspot.com

www.incensurados.blogspot.com
(aqui eu vomito minhas ideias poeticas, por assim dizer)

Cristiano Contreiras disse...

Vou te linkar.

Nova Quahog disse...

muito bom, mestre!

Nova Quahog disse...

isso dá asas aos anjos!

th. disse...

Estou começando a não gostar disso de conhecer a pessoa quem escreve. Acho que isso afeta a leitura, afeta o texto.

Mas dá pra formar boas imagens com ele. O homenzinho triste, as borboletas que ele não vê, a festa, o que só ele vê ou percebe, a verdade com as borboletas esmigalhadas, o lugar melhor para onde elas foram (suspeitas dele), e, por fim, sua ida num voo livre (no sentido mais impossível da palavra 'livre'). Acho que enumerei tudo. Sim, sim, dá pra construir ótimas imagens com esse elementos. Gostei.

Giuliana disse...

a vida em poesia é simples e tão complexa ao mesmo tempo, não? Seriamos capazes de entender o mundo se pudessemos entender a fundo a poesia!
Adorei o texto, o blog.. tudo!
vou te seguir.. parabens!

beijo :*

Thiago Ya'agob disse...

Bom dia, Danilo.

Amigo, obrigado por ‘ouvir-me em letras’.

[Eu não me entendo, ainda – Saiu um texto, Indiscernimento].

...

Eu me vejo em “Os mundos de João”.
E por maiores que sejam as minhas necessidades hoje, o que eu preciso é Ser.
E Ser é ir além da metamorfose – é desejá-la. É querer de fato sair do casulo – de tudo que prende sem intenção de ensinar .

Comentar algo aqui é poder ser entendido mesmo sem o entender em vivências, e por isso sempre venho. Afinidades não é apenas o que une em semelhanças de gostos, não. Afinidades vão e estão além de parecenças: amizade.

Quero citar Clarice... [isso é mais forte que eu, rs ]

“Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.” [In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres]

...

“...por uma eternidade inteira, nunca pôde sorrir.”
...

Ótimo final de semana pra ti, Danilo.
Shalom.

kikinhah disse...

Bom não sei o que dizer, li alguns de seus textos e fiquem sem fala aqui...
Eu queria poder escrever dessa forma mas não consigo, todas as vezes que tento eu entalo e meus dedos endurecem...
Amei seu cantinho e estou te seguindo.
Parabéns pelo blog e muito sucesso.
BjOs

Layana. disse...

Belo texto, as palavras bem escolhidas e encaixadas entre si, será que temos todos um homenzinho assim, dentro de nós?
Gostei bastante, parabéns.

Giuliana disse...

Estou aproveitando ao máximo essa minha fase de juventude, é tão bom ser livre pra pensar o que quiser sobre a vida... a gente fica até mais bobo nessas situações. HAHAHA

Brenda Maciel disse...

O homenzinho vai amadurecer, e aprender que pode abrir os braços e alçar vôo a hora que quiser. Como um pássaro uma vez livre da gaiola.
Tenho preferencia pelos teus textos dissertativos onde discorre pela tua mente. ( Por favor, Não vá pensar que eu não tenha gostado deste. Não quero dizer isso.)
Otima narrativa.

Obrigada por ter passado no meu blog. Te espero :)

O Espelho de Eva disse...

Libertar-se de si é sem dúvida a mais dolorosa das formas de viver plenamente a liberdade, mas como e regozijante voar com asas de borboleta e sorrir nos ventos que lhe esbofeteiam a cara, sem perder o ânimo e a vontade de ir em frente.


Gostei,gostei muito, o outro texto não tinha comentado, me desculpe, tb está genial.

Ah amei está em lugar de destaque em seu blog, hummmmm tô me sentindo a Rainha da Cocada Preta,

Cheiro!

Canteiro Pessoal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Canteiro Pessoal disse...

Danilo. Homem de 2 décadas que atua em porte de renomados [pelo menos aos meus olhos]. Seu escrito é como arte de ensinar, interligada na arte de aprender aguçador. Isso me fascina! Fascinar que implica-me em reconhecer num ato de curvar, e que a linguagem da escrita é educacional. Em experiência por estar ao sócio-interacionalismo-afetivo, envolta como aprendiz que se encanta e partilha conhecimentos em sentidos múltiplos. Bem. Os mundos de João. Vamos Aos mundos de Maria, precisamente, Ao mundo de Priscila. É dia de festa, mas a menina-mulher doente ainda não percebeu. O vento que bate é tão forte. Seria a luz da cidade gritante em dor sadomasoquista e trazendo à morte. E neste dia da festa quer apagar as velinhas. As das velinhas promove as dores de parto, o nascimento da luz que rompe os grilhões das trevas. Mas, que trevas? Trevas do que está no íntimo. Sangue azul. Afinal, o vermelho precisa jorrar em total inteireza, e pra isso, precisa ganhar seu espaço e como? Ora, um ato nosso! Decisão! Decidir é difícil né? Mexe com nosso ego. Eu doente e parasital. Borboletas não revelem seu mistério. O casulo é seu esconderijo, os lobos vestidos de cordeiros querem seu segredo para aniquilá-la. Portanto, mulher continues no mistério indizível. Ao indizível do casulo atue o tempo proposto para seres as cores pintadas em suas asas. Mulher, no chão frio e gélido absorva o calor que está por detrás. Não percebes, que o frio, o gélido é sua escola de ensinamento para creres no poder do que ainda não existe? Do velho surge o novo. Do géligo e frio surge o calor. O sol está por trás das nuvens. Quem te diz que a borboleta está morta antes de nascer está por enganar-te, pois o sopro de vida paira no ar do ontem, hoje e sempre da existência.
Ave Rara, como um sussurro seu escrito pincela um alfa em meu quadrado. Percebo em teus, muito da palavra 'alforria'. E revela o quanto sua retina grita por tal, mas de uma maneira absorto olhando à noite num silêncio ao nu. Costumo dizer que teatro, é uma ferramenta, boca escolhida para romper os grilhões não superficiais, mas o aprofundado do íntimo. Em teatro as teorias vão por água abaixo, e a vida vivida em atitude de leitura de alma proclama metamorfose, mas resguardando sempre o mistério do casulo.
Belo homem, 'com as lágrimas do tempo e a cal do seu dia, faça o teatro vivo em sua poesia. e na perspectiva de uma vida futuro do hoje, erguendo em carne viva a sua arquitetura'.

Beijos mil!

Priscila Cáliga

Fabricio bezerra da guia disse...

As metáforas ajudaram a eu entender esse texto,mas eu ache muito triste

Fernanda Santiago Valente disse...

Danilo, estou admirada com a sua literatura. Só uma pessoa que vive teatro, jornalismo e poesia é capaz de observar os sentimentos; as riquezas dos detalhes... você é um artista!

parabéns!

Cruela Veneno da Silva disse...

nem sempre "ser livre" é como a gente quer.

Gilson disse...

Danilo

Fantástico teu texto, narra perfeitamente a decadência em que muitos de nós está envolvidos. Totalmente profundo o fato da dona sociedade em sua altivez destruir todos os sonhos do homenzinho.
Cara, parabéns. Vou te seguir e te espero lá no meu cantinho para que você possa trocar idéias.

Gilson disse...

Danilo

Obrigado pelas palavras, e se possível passe lá com mais calma para comentar os textos, ou quem sabe acompanhar meus ensaios de crônicas.

MED MUCHSTTER disse...

Lindo o post, não somente esse. Parabéns pelo Blog. A maneira como escreveste é de deixar qualquer um de "boca aberta" :)

Marcel disse...

Complexo, forte. De uma certa forma, esse texto me fez pensar um pouco em mim mesmo. Gostei muito!

Também não sei jogar futebol e nunca quebrei a perna.

MED MUCHSTTER disse...

Obrigada pelo comentário no meu blog também. Eu to seguindo seu blog, e sim, vou acompanhar suas postagens :) um beijo.

Brenda Maciel disse...

Olá, Danilo.
Vejo que ainda não atualizou aqui.
É, as vezes me coloco tambem em terceira pessoa nos meus textos , assim, sem querer, meio querendo, ou não.
Beijoss!!!! Não esqueça do meu blog :D

MED MUCHSTTER disse...

HEY, obrigada também pelo comentário. Já estou seguindo seu blog, de novo, PARABÉNS pelos posts. um beijo :)

ViajanteUniversal disse...

O homenzinho me causa amargura..