domingo, 6 de setembro de 2009

Para além da ilusão

“Conhece-te a ti mesmo.”
Sócrates

Então era só isso? Era apenas isso que há tempos me permeia e nunca soube dizer bem o que é? Sim, descobri. É como abrir um baú de antepassados num porão frio e seco e ainda assim encontrar resquícios de calor e umidade. É fado me ser porque vim ao mundo sendo humano, do espécime mais pesado que existe. Esse é o infortúnio que me atazana a vida. Sou um homem gordo com cabeça de bicho. Mas as normas da minha classe me impedem drasticamente de ser essa coisa que ama do seu modo puro e indócil. Estou domado, esse é o carma que há pouco concluí que há tempos me corrói. Domado por não poder viver em repetidas doses de uma embriaguez natural. Há sempre cascatas de águas gélidas acordando-me dos meus devaneios irracionais, e a cada gota dessas águas mórbidas, um pedaço do bicho é assassinado para dar lugar ao homem que nunca fui, mas que está sendo meticulosamente criado por mim à medida que sou ordenado a viver. E viver é um esforço que me arrasta para fora de mim mesmo. Bom seria se eu pudesse fazer do barro a obra de arte como expressão de mim, mas minhas mãos involuntárias apenas obedecem e fazem do barro mais uma bela cópia do que já existe. Seria uma dádiva se eu não me ocupasse com pensamentos inúteis e fizesse deles a realidade leve que nunca viverei. Por causa do Nunca escrevo, doeria mais se não houvesse como me expressar, porque em vida sou somente mimese, mas, diante da minha imaginação, vou fazer o possível para não deixar sucumbir o animal gordo que luta para nascer do útero indestrutível que criei. Dentro de mim há uma coisa órfã que grita sem nome, essa coisa é o que realmente sou.


Danilo Castro
25.08.2009

9 comentários:

Clube da Luluzinha disse...

Nota 10 para o blog... em estética e conteúdo.. Coisa de gente chik rsrsrsrsr..

Júlia disse...

faço do comentário acima o meu!
mto bom o seu blog!
perfeitos seu modo de escrever.

http://juliagravina.blogspot.com

moça disse...
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moça disse...

*o teclado esta faltando uns acentos, nao repare..
eu adoro essa foto, uma vez vi no fotolog de um amigo e pensei no tanto de coisa que esse pintor quis escrever e nao rolou, ou escreveu e guardou!
nao entendi o que tu quis dizer com: sou um homem gordo com cabeca de bicho.
achei essa palavras muito complexas, li tres vezes e nao entendi, acho que se eu lesse ele mais umas 5.352 vezes eu conseguiria entender essa viajem ...
esta um pouco clarice lispector...
foi mal ae a falta de entendimento, so estou sendo sincera!

:\

Canteiro Pessoal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Canteiro Pessoal disse...

Danilo. Que vontade agradável o seu exprimir de 'BOM DIA'. Bom dia pra mim há nuances fantásticos, pois é a forma de profetizar dias iluminados, e como é bom trilhar na luz mesmo passando por trevas. Porque há trevas muitas vezes no nosso caminho! E o sublime é ultrapassar o que se vê às escuras e palpar o melhor que está por vir. Bem. Vamos ao escrito, "Para além da ilusão" O título já me fala em forma de prenúncio textual algo que grita sem nome ao nome, seria: "Cintilante é a água em uma bacia; escura é a água no oceano. A pequena verdade tem palavras que são claras; a grande verdade tem grande silêncio". Então, sábio Socrátes cita "Conhece-te a ti mesmo". Que pra mim é uma pergunta. Quando me conheço? Quando assumo atuar no silêncio do que curvo para me conhecer. Secreto silenciar do silencie hábil, vazando na minha pele e desvendando aos escombros existentes tesouros. O caminho da anestesia, para que seja feita na minh' alma a cirurgia necessária. Ao ritmo de renovo das palavras e que na frente do espelho faz livro meu complexo atuar em novas edições de olhares. Meu outono de páginas multicoloridas em telas brancas. O silêncio na multiplicidade de sentidos.
"Então era só isso? Sim, descobri" Sem fórmulas! É a expressão do nosso próprio desejo inconsciente ao indizível aquecedor. Por que tudo temos que colocar um nome? Um rótulo? Como louca que sou [até a própria Clarice Lispector foi intitulada incompreendida, com fama de 'meio doida. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão] é que lhe digo aprecio 'abrir um baú de antepassados num porão frio e seco e ainda assim encontrar resquícios de calor e umidade', pois há tanta preciosidade num baú, o registro do invisível visível em delírio e organiza no reogarnizar as coisitas de dentro da minha caixa. Também, me denoto 'uma mulher gorda com cabeça de bicho'. Tudo por tantas regras, sofismas, teorias que me levaram a ser um ser irracional, predadora; como já vos falei em tempos outrorais, a tal 'cultura ensinada'. As normas da classe 'humana' que nós mesmos formamos [eu a primeira da lista, muitas vezes, covarde por atuar oposição e acabo me vendendo, me envergonho por isso] nos impedem drasticamente de ser essa coisa que ama do seu modo puro e mas não indócil e sim, dócil. Grito a grande verdade do silêncio, não mais domada! Por que esse é o meu carma? Quero as doses, ser em essência de uma embriaguez natural. Gesticular ao som da chuva, buscar e viver nas curvas do nú o enlaço. Lirismo na mistura de Gardênias intensas e da intensidade do escutar que moldam meus parágrafos. As horas da sensibilidade e da marca na pele que me arrumam para sair e, desembaraçando qualquer dúvida entre os versos.

Dou-te reticências. Tenho mais para falar, mas vou ficar por hora com o restante pra mim.

Priscila Cáliga

Thiago Ya'agob disse...

Bom dia, Danilo.

Obrigado pelas felicitações sinceros em meu aniversário.

Querido, o texto que está no meu blog é uma oração interpretada por um dos componentes do grupo Prisma Brasil, porém não há no youtube para eu te passar o link. Agora, a música que eu me referi no meu blog é a que está sendo tocada automaticamento no Debaixo das Asas - chamase El padre que siempre soné do cantor Abel Zavala.

http://www.youtube.com/watch?v=B-XbV7iRXPU

....


Danilo, seu texto - Para além da ilusão - fala direto comigo.
Acho que você anda sondando minhas orações. rs.
Estou trabalhando num texto há alguns dias, mas não tenho 'inspiração' para modifícá-lo. Não sei se está bom - sinto que não. E ele trata justamente sobre o que você escreveu - Ser sem ser.

Continue escrevendo, querido.
Eu gosto d+ da conta do teu espaço.

Um abraço.

Natália Coelho disse...

Fiquei um tempinho sem visitar aqui,mas já voltei e percebi que nada mudou. Continua com a mesma qualidade impecável de sempre.

Acho sua maneira de escrever, inteligentissíma. Descreve coisas simples de uma forma tão bacana.

Você conseguiu falar de um tema recorrente - o fato de sermos modelados pela sociedade - sem esbarrar no senso comum e nas frases prontas. Adorei.

Abraços

th. disse...

Ando matutando umas ideias parecidas por conta de aulas de sociologia e o que há de se chamar fase dos 20 e poucos anos. (Essas aulas tem-me sido uma bênção, rapaz; aquela tua professora...).

Tenho tentado também acreditar que a verdade, a sinceridade de ação na forma mais pura, está 'perto do coração selvagem', como dizia aquela moça. Mas não. Não acredito. Se acredito, não sinto.