terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sebastião e Danilo


Sebastião era um sapo. Danilo era um grilo. Simples assim. Enquanto no resto do mundo os sapos comiam os grilos e os grilos fugiam dos sapos, os dois viviam muito bem, obrigado, e eram felizes. A verdade é que Sebastião e Danilo eram amigos com muitas coisas em comum. Os dois eram verdes. Os dois viviam saltando. Os dois adoravam plantas de folhas largas. Os dois viviam na beira da mesma lagoa. Os dois adoravam cantar à noite. Aliás, foi essa história de soltar a voz que fez os dois ficarem famosos. Em noite de lua clara, vinha a bicharada toda para ouvir a cantoria. A coruja lá no alto da árvore, os peixinhos dentro da lagoa. Os bois bem grandes e fortes, os mosquitinhos pequenininhos. A lesma bem devagar e os coelhinhos correndo, correndo. Só que o sucesso era tanto que logo começou a confusão. Teve uma noite em que as libélulas, apaixonadas pelo grilo, começaram a gritar: "Danilo! Danilo! Danilo!" Os jacarés, que eram fãs do sapo, ficaram com muita raiva daquilo e logo puxaram o coro: "Sebastião! Sebastião! Sebastião!" A coisa foi esquentando e logo os bichos estavam divididos. Meio a meio, um tanto de cada lado. De uma hora pra outra começou a briga. Era pena voando daqui, água espirrando dali, miados, mugidos, piados, latidos, rosnados, tudo numa bagunça tão grande que ninguém escutava mais a música. No meio daquilo tudo, Sebastião e Danilo saíram de mansinho e nunca mais voltaram àquela lagoa, para a tristeza da bicharada. Mas se você for com cuidado, sem fazer nenhum barulho, em um certo brejo não muito longe dali, vai ouvir bem baixinho, quase um sussurro, a música mais bonita daquela região. Sem público, nem confusão, os dois continuam juntos, amigos, uma dupla de verdade. Cantando sempre, só mesmo porque cantar é muito bom.
Este conto foi publicado na revista ESCOLA da editora Abril em novembro de 2008 e tem autoria de Maurilo Andreas

14 comentários:

Gilson disse...

Legal Danilo, nos mostra claramente as imposições da sociedade de quem deve estar com quem e etc. Quando se foge a essa regra inicia-se o ciclo de confusão fazendo-se que as pessoas se isolem. Isso é o que não deveria existir, tomara que sapos e grilos possam viver juntos sem que a sociedade se intrometa.

Abraços

Mitti disse...

Que texto gracinha!!!!

Bom lembrar-mos que somos diferentes mas que nos completamos.

bjoka

O Espelho de Eva disse...

Extremamente musical o texto, me lebrou uma música do Tom Jobim, não sei de "SApos" ou "Rãs"....
Beijosssss!

Thiago Ya'agob disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thiago Ya'agob disse...

“- Está errado! gritou o professor explodindo. Já disse ao senhor que está errado! gritou o professor com os olhos perdidos de sofrimento e cólera. Já lhe expliquei que ópera é hoje considerada música de segunda classe! você é o único que não obedece! já lhe expliquei!”

LISPECTOR, Clarice, 1925-1977.
A MAÇÃ NO ESCURO. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. P. 2005 – Fragmento.


Danilo,
frequentemente nos deparamos com aplausos contrários aos nossos esperançosos – verdes – sonhos. E isso se dá pelo fato de que nem todos os ‘animais’ compreendem o sentido da ‘ópera’.

Escrevo: Continue cantando, amigo. Seu coração sabe qual é a música e qual é o público que ‘merece’ ouvir-te em essência.

Um grande abraço.
Shalom.

pobre disse...

ai que texto mais bonitinho, uma criança iria adorar escutar e também bem significativo para os adultos, como se o sucesso não fosse tudo para um artísta pois para lhe preencher só é preciso continuar fazendo o que gosta e lhe faz bem!
beijo beibe!

pobre disse...

ei, ai em cima é a priscilla!
hehehehhe

Glauver Souza disse...

eu adoro os textos da revista escola... sempre me fazem pensar um pouquinho...
hey dan, postei um conto no meu blog depois de séculos... lê lá!!

MED MUCHSTTER disse...

Fazia tempo que eu não vinha, mas eu voltei :) Como sempre: BLOG LINDO ! Amei o Post. Um beijo e SORRIA

Canteiro Pessoal disse...

Danilo. Um texto com uma excelente moral. Faz-me lembrar de uma resposta que dei para uma pessoa. "Sou prisma e tu esfera. Um prisma precisa de uma esfera, tal como uma esfera o prisma". Portanto, Danilo e Sebastião, instrumentos fundamentais para a grande orquestra. Atitudes de comparações nos conduzem nas rivalidades e casos de guerra. Do andar sozinho. Do retrato triste, paredes decoradas por cegueira. Todavia, é bom saber, que os atores encontraram em meio ao tumulto, um trajeto, para que perpetuassem seus cantos e laço de amizade. Do renascer diário.
'Cantar é muito bom', nos leva num patamar tão grande. Ato do voar e exprimir o sentir. Penso, logo existo e psicografo. As fases refrativas do vidro criam uma onda de dispersão e se olho lá dentro vejo todas as cores possíveis e impossíveis. Por lógica que leva a razão e por uma vida de busca, ecoa: o que realmente é a lógica ? Numa análise confiável em vida íntima no obter resultados, resolutiva com eficácia é que o leque do diferente se faz atuante. A pena no conhecer cores naturais ao sobrenatural. Tempo generoso à beira da praia para redefinir as minhas noções ao som do infantil na infância e de romance. Qual o tamanho do universo? Infinito! Minha procura entre as letras me conduz pelas ondas de idas e voltas à descoberta mais importante da minha carreira. O amor. Amor é mistério do cantar. Na ponta do lápis esmiuço a língua do se ler com os olhos. Palavras com um tom de heroína romântica por fazer parte da carta íntima. A escrita nas suas melhores letras, sílabas e palavras. Pura entonação nos acordes que me fazem constatar que é toda a minha razão. Razão do meu existir. No par de olhos sensíveis que me constroi num universo caseiro e segura na sua morada interior. Habitat de intensa pulsação. Da costura de letra por letra, e, pondo esmero na rotina em discreta prontidão. Tal na quebra de paradigmas e dogmas separatistas. Nos retiros mais íntimos, refaz-me numa palavra e outra. Suas sugestões em brandura, muito bem coerentes e coesivas são o abrir de seus braços no me pincelar num pensamento profundo. Choro o choro que me lava vermelho e faz trilho por seguir com mais inteireza e curvar, pois em frações gritantes e desconexas sou-me de pedaços despedaçada em nome. Fria. Sentada numa cadeira de balanço por dita manhã clara, minha procura me leva através do físico, do metafísico e do delírio, nas misteriosas equações do amor. A chave do meu calabouço.

Canteiro Pessoal disse...

Derreto-me. Nas suadas linhas da minha imperfeição por uma alma que gemi acordar das lacunas escuras ainda existentes e não em sonho nem por mente gulosa do alfabético, mas por tal extravagância de ver com os próprios olhos nos olhos do manto branco esvoaçante na tecla do sempre. Em folhas múltiplas que o narrador pinta as expressões e as traduz com belos bons dias na boca de uma tela abstrata. Tudo tão dançante e claro, que, fechar minhas pálpebras é apreciar numa atitude intensa perante o seu céu azul e límpido. Vento forte que desentoca meu ser entocado no deserto, pássaro sem asas proveniente de outrora por presente-futuro em pele no abstrato do impossível inimaginável sentir de vida. Atmosfera inteira que penetra minhas entranhas e esparrama-se pelas veias do meu pulsar o acima das nuvens. Por partituras misteriosas no que em uma nota se faz recordar o por uma vez em selo da chegada e sem partida. Quantas noites adentro pincelo gotículas contando as estrelas para chegar sempre sendo a primeira vez. É meu arder não tolo. Protagonista que não escreve para si, pois seu papel em cena não é do monstro de orgulho, mas do que aproxima obras literárias de puro movimento ao leitor. Leitora em atitude de não deixar juntar pó na prateleira sem jamais ter lido os parágrafos sedentos, mas em decisão ao atuar minha alma nua no nú de cristalina. Meu cheiro declama o muso de lua cheia que amanhece em constante ato. Ao persuadir num atrair em expressivas prosas a ler e reler como quem percorre um território sempre virgem. Versos que fecundam cantar sem voz, por cantar a voz do canto em sussurro. Enfim, não finitude, essa é a razão do encontro que tenho quando 'canto'.

.
Acho que falei né!? Percebi que não está constando em seu espaço quando publico post novo.

Abraços e paz

Brenda Maciel disse...

Que texto gracinha 2!
HAHA, muito bonito mesmo.
Pra mim ficou com cara de fábula, fui acostumada com os bichos falando no pé do meu ouvido desde pequenininha. Sempre é muito bom poder ouvi-los, já que eles tem muito o que ensinar.
Esse é o tipo de texto que eu leio sorrindo, porque eu tenho a certeza, de que no final as coisas sempre se resolvem! :D

Danilo, quanto tempo não vai no meu blog. Quero pedir desculpas por não ter mais vindo aqui. Porém, vejo que não perdi muita coisa, dois posts apenas. ^^
Fiquei feliz em saber que teu amigo TH comentou algo sobre "A Ruivinha" para você.
BEIJOS!

Rha Belloti disse...

Nossa, quanto tmepo não visito seu blog!

Adorei o canto, ele me fez pensar em várias coisas completamente diferentes:

1º Como pessoas que têm tudo para não se entenderem podem no fundo ter tudo em comum, tudo para serem melhores amigos.

2º Como as pessoas têm o poder de arrumar confusão nas coisas mais simples e belas da vida.

3º Como coisas simples (como esse conto) podem nos fazer pensar!

redatozim disse...

Fiquei muito, mas muito feliz mesmo em ver que meu texto fez sucesso por aqui. Que bom que gostaram.

Grande abraço,


Maurilo.