quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Exercício, rascunho ou manifesto?




GPET apresenta, com Danilo Castro e Raíssa Starepravo, REVOAR - Direção de Andrei Bessa

mais informações:
http://www.espetaculorevoar.blogspot.com/

Uma ansiedade (escrevi ansidade - devido à ansiedade que me doma, engoli a letra “e”) boba toma posse do meu corpo nesses últimos tempos. A típica ansiedade do artista inseguro consigo mesmo. Ao dormir, ao levantar vêm-me os fluidos devaneios da estréia de “Revoar”., uma releitura de "Esta propriedade está condenada" de Teneesse Williams. Li agora uma entrevista do Heiner Müller* e percebi o quanto o "Revoar" está embebido no veneno dos mortos do futuro, fantasmas que nos assombram e tomam posse de nós sem que nos demos conta. Meu corpo fala ou sou fantoche desses espíritos inquietos que viram em mim uma alma vulnerável, fácil de se corromper? Talvez os cânones do teatro clássico nos apunhalassem se pudessem, mas temos fantasmas protetores. A culpa pode se explicar nessa fragmentação louca que Brecht instaurou, deixando vácuos no nosso espetáculo, vácuos onde enxertamos a mais pura poesia de nós mesmos e nos permitimos algo estranho que dialoga com a performance. Sim, eu já consigo digerir perfeitamente, mas parece que ainda não tenho forças para acreditar que o que foi evacuado seja algo instigante para o outro, assim como é pra mim. Bem, alguém já disse que é preciso aceitar a presença dos mortos para entender o futuro, quem sou eu pra discordar? O que digo agora talvez sirva apenas como uma terapia para conter as energias que me arrastam para além de mim mesmo (devo saber usar a minha força criativa na cena e não agora, num momento inoportuno para a insanidade). Louco devo ser diante dos holofotes ou nos meus métodos anti-pedagógicos de treinamento teatral. Cá estou pensando... O que quero com o “Revoar”? A denúncia já existe, os problemas já são de conhecimento universal. Não quero apenas dizer o que já foi dito, quero encontrar a maneira certa de dizer para que eu, com o poder que me propus a tentar conquistar ao escolher ser ator, possa fisgar o mais íntimo pedaço do âmago alheio. Fisgar não para comovê-lo, mas para atordoá-lo. Quero ser pólvora, mas a explosão deve acontecer no meu espectador. Creio que já estamos caminhando assim desde os primórdios tempos de ensaio, mas vez por outra esquecemos disso. E é um medo bobo, o medo do imaturo em cena, o medo de cair aos primeiros passos, mas um medo que caminha junto à coragem, um medo que me propulsiona. Minha inexperiência me leva a pensar como minha família, amigos, classe teatral vai reagir a esse algo diferente a que estamos nos propondo. Para quebrar convenções é necessário ter ao menos tido, em algum momento da vida, a oportunidade de vivê-las. E nós estamos brincando feito crianças destemidas, inventando possibilidades. Lehman, em “O teatro pós-dramático”, já disse que não há necessidade de conexão e justificativa em tudo, isso é algo meio freudiano, esquizofrênico, não sei, mas é, no mínimo, libertador. É um processo de autoconhecimento, é transformador, é perturbador porque também sou público de mim mesmo. Almejo meu espectador não como um apreciador de um objeto estético, almejo-o rebelado junto a mim, só não sei se o meu poder de Cristo em cena é suficiente para laçar uma multidão de fiéis. Retornando ao que já disse, é medo de ser incapaz, de não atingir o conflito que Müller propõe entre espaço cênico e platéia, se a força confluir para um lado apenas, estaremos ainda convencionados ao teatrinho de mercado. É algo muito subjetivo, mas talvez este registro seja mais importante do que imagino. É um exercício, um rascunho ou um manifesto de mais um dos homens que existe em mim, porque acredito, sim, acredito na "arte como perturbação do consenso, como instrumento de subversão." - Heiner Müller



Danilo Castro

08.11.2009

5 comentários:

Gilson disse...

Danilo

Que bom rever o amigo sumido. Ao ler o seu texto vejo como você possui a veia de um ator verdadeiro, aquele que se preocupa em entrar totalmente na história e passar no seu modo, a mensagem, de maneira que ela surta efeito na platéia. fantástico, te admiro mais ainda depois de ler seu post.

Aparece

Abs

O Espelho de Eva disse...

Aleluias, gritam os anjos!!!! Danilo Voltou, eles bradam com suas vozes celestiais que ecoam pelo mundo. Amém! amém! Oxalá que sua volta seja eterna.

Beijos, muito bom te ver, te ler, estava com muitas saudades.

moça disse...

Só quem atua saberia discutir um pouco mais sobre esse texto com vc, no mais sabes que sempre achei massa essa sua paixão desvairada dela arte da expressão que é tão valorizada pelo ator! Vá em frente meu amigo o amor pelo que se faz é o que leva o mundo a caminhar!

Walmick Campos disse...

belíssimo!!!
sucesso para o REVOAR!!!

Larissa Cândido disse...

Concordo com o Walmick!!!