sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Lágrimas de avoante

“Quando seria como os colegas das turmas de poesia e retórica? Eles tinham vozes grandes e botas grandes e estudavam trigonometria. Isso estava muito longe dele”
James Joyce

Numa árvore quase morta, perdida numa floresta densa além-mar, vivia uma lagarta estranha chamada Stephen. Ela nasceu desengonçada e lerda como todas as outras. No momento certo, Stephen envolveu-se de si e aguardou com uma ansiedade imensurável o dia em que dali sairia para conhecer as cores do mundo. Porque deveria haver flores dos mais diferentes perfumes para se debruçar. 

Ela podia ter esperado mais, mas logo que o sol aqueceu seu casulo e o calor não mais a segurava, Stephen, mesmo contra a vontade da natureza, resolveu desvencilhar suas asas - nasceu prematura. Para sua surpresa, descobriu que, ainda assim, suas asas eram grandes e largas, agora poderia ela planar pelo mundo, caçar vidas no universo e depois... O que existe depois do universo? Nada? Mas onde fica a fronteira entre o fim do universo e o início do nada? Stephen parou de pensar quando viu que uma das suas asas era torta. Pior, percebeu que elas eram cinza da mesma cor dos galhos secos em que habitava. 

Stephen marejou os olhos, mas não chorou! Pobrezinha, quando uma antena enrolava para a direita, a outra espichava. Ai, como sua cabeça doía! Na verdade uma asa era boa, a outra meio quebrada. Mesmo assim, sem medo, Stephen voava. Mas o vento, quando a emaranhava, deixava seu voo esquisito, fazia-a sentir dores horrendas e a borboleta esguia caía em melancolia e feito galinha afoita logo pousava. Mais uma vez a borboleta quase chorava. 

Dali, Stephen não conseguia sair. Não demorou muito para Stephen perceber que era rejeitada pelas outras borboletas, porque as outras achavam que conheciam o mundo e Stephen não conhecia nada. Mas Stephen, ainda lagarta, aprendeu com a humildade do sol que nem sempre a luz serve para enxergar, por vezes ela pode ofuscar. E ver poesia na escuridão também pode ser uma forma de conhecer o mundo. Pode? Multicolores, as borboletas emanavam o brilho do sol, enquanto Stephen, tentando não muito se importar, aquecia suas asas escuras e pensava no amanhã. Matutava na cachola doída como faria para que chegasse o seu dia de voar. 

Um dia, quando Stephen olhava para o horizonte e de água seus olhos enchia, ela conheceu de súbito um beija-flor que a beijou até fazer cócegas. Stephen quase chorou, mas o beija-flor a fez engolir o choro e voou. Quando Stephen tentou segui-lo, pobrezinha, mais uma vez caiu rodopiando de tanta dor. 

A partir dali, todos os dias um beija-flor diferente aparecia na árvore seca e roubava um beijo de Stephen. Era curioso, mas os beija-flores a adoravam. Stephen não entendia, mas respirava fundo e pensava. Queria ter nascido beija-flor! Porque ser borboleta doía demais. Ser assimétrica e cinza nunca foi fácil diante dessas voadoras confeitadas! Dias depois, os beija-flores, feito formigas em cima de barata morta, habitaram a árvore como se fossem água descendo em garganta ressecada. A árvore ficou encharcada de cor, encharcada de beijos, encharcada de uma efusão que Stephen, sem querer, provocou. 

Nesse dia, as lágrimas de Stephen escorreram pelo rosto até tocarem o chão. Eram lágrimas de felicidade. Havia na ex-lagarta uma energia profunda, eram tons e mais tons escondidos no mais íntimo de seu âmago acinzentado. Foi essa energia inenarrável que transformou a rejeitada borboleta aleijada em rainha dos beija-flores das matas. Stephen não sabia, mas nasceu desabrochada, bastou apenas que fosse descoberta. Nem precisou ir tão longe, ali mesmo Stephen conheceu o mundo. A árvore retorcida e seca embebeu-se das lágrimas de Stephen e logo ganhou o brio de outrora. Dali, feliz, ao lado dos beija-flores, Stephen nunca mais foi embora.

Danilo Castro 
12/12/2009

11 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Danilo. No momento não venho para comentar o post, que de antemão me anuncia no íntimo preludiar enamoramento e saboreá-lo em partes. Meu repouso é para responder-te. A Eva é do Ômega que deita à sua cama, em concha-seu livro e diário. Escrevinha com o leve toque da sua respiração. E as imagens que descreve em minha pele são formadas pela sua seleta memória fotográfica. O que desafia a engenharia das filmadoras industrializadas. Está nos meus olhos, ave rara, está todo escrito, escrita que vai ocupando espaço. Bem, seria difícil exprimi-lo em letrativo, terias que ler meus olhos para conhecê-lo. Num compasso que a vida do que é meus dedos me dá e confesso, e nem quero as vezes tomar banho para não tirar o cheiro do que por mim é ciúme e que me anuncio em fome por estar nesses olhos.

Paz, abraços,
Priscila Cáliga

moça disse...

muitas lágrimas que caem e palavras que me faltam para lhe dizer o quão lindo achei esse texto que por mera coincidência chama-se Lágrimas de avoante...
deve se chamar assim para arrancar lágrimas de pessoas que estão a flor da pele, como eu.
amei!

estava com saudade!
beijos em você (:

Flor disse...

Seu flog e muito legal e muito cultural amei seu blog, Clarice Lispector uma das minhas adimiradora da literatura.
by flor de mirra

Canteiro Pessoal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Canteiro Pessoal disse...

Danilo. Dentro do escrito procura e descoberta. A forma abstrata em concreto. Mil motivos e razões para ser lábios desejáveis no desejável por bater as asas. Aprenda voar voando, pois o desabrochar é promessa. É um relato, diário intenso de revelação, leve toque da respiração que ocorrer em cada página de Stephen. O filme dos olhos rebobina as imagens da escrita de batalha e de humilhação que ocupa em totalidade, mas que mostra que a glória da segunda casa é maior que a primeira. É primavera ! E os mistérios dos olhos da borboleta rejeitada derrama sede do vestido perfeito, mesmo sendo partitura imperfeita, isso é ato de fé! O seu livro, [postura] anuncia no tempo [agora] preencher escolhas que mudaram sua sorte. Caminho e escriba, nova que refaz cada parágrafo. Pois é, os lapsos de pensamento em choro e lamento, já não sendo lacunas em silêncio. E os olhos são surpreendidos, onde era regido o opróbrio e a dor da perda, e levava-o para longe dos pedaços restaurados. Pois, o cheiro de folha queimada, queimava por dentro pela condição prematura. Era ponte de tristeza, sem saber no que visualizar, ouvindo o medo sustentando as águas e com os planos pintados no íntimo. Recomeçar é tão dificil. O que resta ? Os dedos se permitirem no levada daqui [da condição]. O cálice nas mãos por fome em olhos. A retina no sol, ao poente na linha do horizonte. Na nuvem do sábio poeta a versar o escute amor no coração que pulsa. Por resgate do desde o dia em que a vida lhe foi outorgada. O que dentro era tamanha escuridão ser em luz. E pergunta: - Onde anda o sentir ? Pois os soluços nada mais são que o gemir da alma em toque. Toque !? A música do que venta e traz chuva que acalma o que atormenta. A vida descortinada diante do que revira por inteiro e sangra. Assim, abri as portas, levando à liberdade. E desfaz a mordida da maçã no jardim passado.

Ah, 'hombre', sua escrita me consome. Bem, estou morta agora, obrigada, pois seu letrativo tinturou em lacunas no meu profundo do profundo. Letral que grita: -Priscila saia para fora!

Paz, abraços bem apertadinhos,
Priscila Cáliga

O Espelho de Eva disse...

Amore, voce sabe onde estou, e como estou, e o que estou passando, por tanto não mentirei, pois não é do meu feitio, não consegui lê o que escreveu agora, mas agradeço o que postou lá no meu espelhinho, sua dona está um caco, e os ecos que ressoam me impedem de raciocinar o suficiente para saber o que escrevem sobre almas, nuvens e sol. Em momento mais oportuno, após as cinza espero estar restabelecida, ainda que num luto incompreensível para àquele que não viveram o que estou vivendo, e poder assim absorver o que quer dizer, mas desde já adiano que a lagarta que saiu da pupa será eternamente borboleta, pois fenecerá assim, após ter sorvido de tantas flores, e bailado em tantos ventos, e se ela parecer ainda lagarta, é que guardou as asas e antenas como uma fantasia maravilhosa que a revela, a eleva, lhe trás vida, a vida que gosta mas nem sempre pode vivê-la, pois a querem lagarta, soturna, rasteira, menor... o problema é que eles esquecem que algumas lagartas são de fogo!

Beijos, te gosto.

Canteiro Pessoal disse...

Sheila,

foi inevitável o não ler o que comentou, que nada é comentário, mas um abrir de janela e grito de sua alma no espaço do Alfa. Deixei lá e registro aqui o meu comentário a pessoa de letrativo e imagens intensas que és. Li recente um citar de Whitman, vou partilhar: "Ó, eu! Ó, vida! Entre as questões que reaparecem, os trens de desesperançosos, cidades cheias de tolos, o que há de bom entre eles, ó eu? Ó, vida!" Portanto, "a vida existe e a identidade. Essa brincadeira de poder continua e podes contribuir com um verso". Flor, convido-te e me incluo neste plano a deixar os versos derramar em sua [minha] língua como mel.

Paz ave rara,
Priscila Cáliga

Thiago Ya'agob disse...

Boa tarde, Danilo. Há tempos que não repouso minhas asas aqui no Alfa.
Volvo hoje e entrego Borboleta de Clarice Lispector. Espero que esses fragmentos clariceanos venham tocar-lhe assim como me tocou.
Querido,
Seu texto, Lágrimas de avoante (Que título!), encontra-se repleto de significações. E isso é maravilhoso. Achei tocante e muito íntimo o fato da “prematuração” do Stephen... “Mesmo contra a vontade de Deus, resolveu desvencilhar suas asas – nasceu prematuro. (Muito me falou essa frase – muito mesmo. Obrigado por tê-la escrito).

...

"Borboleta"

A mecânica da borboleta. Antes é o ovo. Depois este se quebra e sai um lagarto. Esse lagarto é hermeticamente fechado. Ele se isola em cima de uma folha. Dentro dele há um casulo. Mas o lagarto é opaco. Até que vai se tornando transparente. Sua aura resplandece,ele fica cheio de cores. Então da lagarta que se abre saem primeiro as perninhas frágeis. Depois sai a borboleta inteira. Então a borboleta abre lentamente suas asas sobre a folha — e sai a borboletear feito uma doidinha levíssima e alegríssima. Sua vida é breve mas intensa. Sua mecânica é matemática alta.

(...)

Quando eu tiver forças de ficar sozinho e mudo — então soltarei para sempre a borboleta do casulo. E mesmo que só viva um dia, essa borboleta, já me serve: que esvoe suas cores brilhantes sobre o brilho verde das plantas num jardim de manhã de verão. Quando a manhã ainda é cedo, se parece igual a uma borboleta leve. O que há de mais leve que uma borboleta. Borboleta é uma pétala que voa.

(...)

Minha liberdade? minha própria liberdade não é livre: corre sobre trilhos invisíveis. Nem a loucura é livre. Mas também é verdade que a liberdade sem uma diretiva seria uma borboleta voando no ar.

(Um sopro de Vida – Clarice Lispector)

Tenha um ótimo final de semana, meu amigo.
Shalom em intensidade de letras.

...

Ps.: Agradeço o carinho demonstrado em meu blog.

Dois Rios disse...

Oi, Danilo!

Confesso que estou absolutamente encantada com a sua escrita.

Me ocorreu pensar, não minto, na sua tão pouca idade para o tanto que você é, porém logo recuperei-me da indelicadeza do meu pensar, já que assim estaria, tais quais as belas e perfeitas borboletas, lançando mão de um baita preconceito. Daí me perguntei: "Por que meninos tão jovens qto o Danilo não seriam capazes de tanta sensibilidade e talento para escrever"? É raro, admitamos, mas é plenamente prazeroso quando alguém assim como você, esbarra pela nossa vida.

Que bom que você foi até o Dois Rios e deu-me a chance de conhecer um pouco de você e do o seu belo blog. Muito obrigada!

Um grande e afetuoso beijo,
Inês

Joelma disse...

Aplausos! aplausos! a vc Danilo.
Aplausos tbm as postagens feitas em seu blog.
Memorável blog!
O profundo é o que toca a alma e la de dentro vem aquecendo e resfriando passando pela corrente sanguinea até chegar a pele e beija-la provocando arrepios...
Oh! arrepios sente a pele daquele que nao rejeita a poesia e se deixa confundir pelo real e imaginario e que nem por isso se acha louco. Pois loucura é pouco pra quem tem fertilidade mental e o sentimento aflorado até mesmo no olhar e pode assim desejar endoidecer o quanto quiser.
Joelma Jacob
Bjo c/ queijo!

Wânyffer Monteiro disse...

E mais uma vez um texto magnífico. Nãoe speraria menos de um escritor nato como você.
Você me fez sentir as dores de Stephen e ir quase às lágrimas com ele.
Stephen é mais um diferente tentando encaixar-se tão avidamente que não vê que há beleza na distinção. Não enxerga que ele é lindo e pode ser feliz sem nada mudar.
Não sei... várias interpretações permeiam minha mente no momento, mas a mais latente é que há muitos Stephens entre nós e, quem sabe, seja menos incomum e diferente do que aparenta.

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