domingo, 7 de março de 2010

O beijo no asfalto


Foto do espetáculo Revoar - Por Luciana Gomes
"Ainda deu tempo de lhe lançar um último olhar. Foram dois gritos: o primeiro chamou-lhe como um pedido desesperado de socorro. O segundo foi um uivo ensurdeceDor de ossos quebrando. Por fim, dois corações estavam mortos. Um dilacerado no chão, o outro, batendo compulsivamente, num lapso angustiado de esperança clamou: Que faço? - O silêncio disse por si - Ele quis ser Deus, mas lágrimas grossas pesaram-lhe sobre a face anunciando sua impotência. O dia continuou igual, mas na cabeça dele a cena continuou a se repetir até o anoitecer."


Danilo Castro

04.03.2010

9 comentários:

Canteiro Pessoal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Canteiro Pessoal disse...

Ah, Danilo,

o beijo no asfalto, dois trilho, que escolha o ser é submetido e muitas vezes a própria escolha nos escolhe e nos marca pra sempre, do que é livre e o que é escravidão. A escravidão de um toque indevido, o usurpar da primícia é ferida tão enraizada e que poucos compreendem. Tu compreendes vaso?Muito é falado sobre o tema, mas pouco absorvido em pele e carinho pela vítima. E o abusador, onde fica? Pois é... o abusador já foi abusado. O amor está escasso, e seres são carnes e não o papel do semelhante, no respeito do espaço, o quadrado e o corpo do outro. Agora somos menos que nada. Por que sempre apenas um último olhar? É tortura, que se vá embora. Pois foram a resposta da súplica, o grito de socorro que ecoou mudo, mas ouvido por dentro, deixando na memória encontros fortuitos, surpreendentes, as horas em que a fuga foi a libertação. Os corpos, as almas e os espíritos sempre foram da mesma cor, uma cor diferente de toda a gente, que os une. O faz? A impotência anuncia a voz de grito que procuras e o que a face não pode dar, mas dava sempre mais do que previas. Amor metafísico? Queriam prolongar os diálogos, os beijos, os abraços, pois juntos se sentiam seguros, protegidos e nada do que viesse os abalariam, nada fazia luto o que existia entre. E agora, os ossos quebrados? Era altura de desistir? Das palavras nas nossas mãos, inseparáveis com saudades e ciúmes e por amor. A tempestade do passado, a cena terrível que continua a se repetir até o anoitecer e estende na manhã que partará, se estabelece, ruindo e devastando o que parecia estável.
'Como o mar que arrebenta e destrói diques, castelos, cais, enseadas. O vendaval leva para longe a poesia, as criações mentais, as que alimentam o ser e o fazem maior, mais belo e talvez inabalável. Entretanto, tudo é movimento no universo, nada se mantém estável, ainda que a gente faça de tudo para que não esmoreça. Mas, esmorece'.

Perfeito vaso, como me faz 'memorizar páginas antes de as ditar e de as corrigir, depois'.

Abraços,

Priscila Cáliga

Gilson disse...

Cada dia você está mais profundo, mais vivo.

Abs

Dois Rios disse...

Fim. Repetição do fim. Repetir até ficar diferente. A dor é assim, muda de tom e perde o peso de tanto repetir-se.

Beijo, querido Danilo!
Inês

moça disse...

Cada um de nós temos uma parte de Deus, Deus pra mim é mulher, a mãe natureza...
O que fazes,personagem, sofre com a separação mas fota em teu interior o que queres pra ti. Queres ser feliz? Pois foca teu pensamento nela!

beijos...
amei o texto, como disseram em cima, profundo e vivo...

O Espelho de Eva disse...

Beijou o asfalto longa e eternamente. Não precisava fazê-lo, mas a circunstância tornou inevitável.
Que sentidos despertou àquele beijo?
Que sabor provou seus lábios naquele instante?
Sanque, ossos, um corpo em pedaços a se desfazer em gozo à boca do asfalto.

Gatinho, beijos. Ainda não consegui escrever sobre o Carnaval acho que sou soturna demais com as palavras.

Thiago Ya'agob disse...

Queimou.
Ardeu aqui, em mim, Danilo.

Forte o texto.

Zélia disse...

"O silêncio disse por si"

Há quem não consiga ouvir a voz do silêncio. Ele fala e fala mais alto que um grito em determinadas situações.

Gostei do espaço aqui!

me disse...

transitoriamente







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