terça-feira, 6 de julho de 2010

Mundo GORDO

Foi assim, como quem não quer nada, que as coisas começaram a inflar diante dos seus olhos. A vida toda João pensou enxergar como os outros, mas, no dia em que as coisas ganharam volume, ele percebeu que o seu mundo era chapado, coisa em cima de coisa, como um desenho num pedaço de papel. Literalmente, visualmente.

Nunca lhe disseram que era anormal ver assim. Criou-se na mente dele uma realidade corrompida de mundo. Assim viveu por longos poucos anos até o dia de sua alforria. Ou quem sabe a partir daquele dia ele aprisionou-se no comum do mundo. Talvez fosse um privilégio ser diferente.

Funcionava assim: só se sabia que algo estava na frente d’algo porque uma imagem contornava-se por cima d’outra, mas não havia profundidade entre as coisas. Por isso gerou-se em sua mente virgem outra forma de percepção, porque era necessidade pegar nas coisas para entender as coisas. O tato estava visceralmente ligado à visão. 

João era algo como um semicego, o que não lhe era possível pôr à mão, sua imaginação recriava completando os vácuos de e-n-t-e-n-d-i-m-e-n-t-o bem assim, como quem não quer nada.  Este era o seu jogo solitário. Completar os espaços que entrecortavam a linha pontilhada que o mundo lhe oferecia.

Esta era sua vida possível até o dia que, como quem não quer nada, o mundo engordou. Foi um encantamento indócil arregalando-lhe os olhos. Ainda comprimiu-se enterrando a cabeça entre os ombros e cerrando a vista, mas foi inevitável. O mundo intumescia-se sem pedir licença.

E assim, o mundo roubou seu mundo. Foi-se embora a simplicidade com que encarava as coisas em redor. Dali adiante só lhe restava fechar os olhos e intumescer-se de si mesmo, antes que não se reconhecesse mais. Porque do lado de fora, quando levantava as pestanas, era como se estivesse num lugar irreconhecível, no meio de lugar nenhum.

E as coisas continuaram seus rumos, menos para João, que nem parar no tempo, como de costume, pôde. As coisas não o deixaram respirar. João foi levado pela correnteza, nem deu para dizer adeus. Agora não era mais necessário imaginar para entender. Esta foi a sua pior morte até então. Ninguém viu, ninguém sentiu, ninguém percebeu sua transição do infinito para o nada. As pessoas também engordaram, as pessoas também são coisas. Este era o seu novo destino. Bem assim, como quem não quer nada.

6 comentários:

Phil ou Pil disse...

Eu nao entendi nada ._. mas parece ser bem profundo. Vou tentar interpretar melhor mais tarde, pq parece muito interessante

Clarice Ferreira disse...

Muito bom o texto, gostei muito. Me lembrou alguns livros que eu li. " O menino e o espelho" de Fernando Sabino, depois dê uma olhada nesse livro, tem bastante coisa haver. Sabe... quando se tem uma visão diferente do mundo, é sempre muito difícil, mas mais de difícil ainda é quando se tem uma visão panorâmica. Minha dúvida é... se Joao só conseguia ver as coisas planas, ele tinha uma visão diferenciada (positivo?) ou limitada do seu mundo? Sendo assim... Quando ele deixa sua visão particular de lado, ele estaria perdendo sua autenticidade no mundo ou se ampliando seus horizontes?
De se pensar não é?
Muito bom mesmo!

Thiago Ya'agob disse...

Danilo,

Enquanto lia seu texto uma frase que ouvi há alguns anos, significativa, me veio à mente:

Escravo de orelha furada.

(“... No ano de shemitá – sabático - os donos deviam libertar seus escravos. Caso o escravo não desejasse partir em liberdade, mas permanecer trabalhando na casa de seu senhor, sua orelha deveria ser furada”).

Isso fala.

Meu abraço, amigo.
Paz, sempre.

ps.: perdoe-me a demora em regressar ao teu blog.

Pi** disse...

acho que o que falta a muita gente é isso mesmo. é imaginar, e verdadeiramente viver e não somente olhar a volta.

joven disse...

beautiful blog..pls visit mine and be a follower.. thanks and God bless..

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moça disse...

é acho que me sentiria anormal se eu tivesse que começar a nao imaginar as coisas para começar a entende-las.
Penso que o queacontece com Joao é o que verdadeiramente acontece quando a gente cresce(vira adulto) pq começamos a ver o mundo com coisas em cima de coisas, mas pior que virar adulto é nao conseguir seguir e imaginar como é na cabeças das crianças!

Enfim, talvez eu tenha visto assim pq estou com convio com pequenos...

E essas expressoes tudo juntas?("d'algo", "d'outra"), parece as coisas italianas!

adorei o texto...
beijoo