segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Simplesmente Nós

Simplesmente eu assisti. Como qualquer velhinha que volta a tomar banho de mar depois de anos de reclusão e privações por causa da idade. Simplesmente eu vivi aquilo como se aquele me fosse o último espetáculo possível. Fiquei estarrecido, o espetáculo me tocou de uma maneira inexplicável. Nunca havia acontecido aquilo comigo, nunca mesmo. Sabe quando um cirurgião de traumatologia não se afeta mais com o que vê? Quando crânios abertos ou clavículas quebradas são para o médico experiente como gravetos secos, duros, sem vida e só? Eu ando assim diante do teatro. Vejo tanta coisa que nada mais me afeta, quase nada. Estou perdendo a sensibilidade ou isso é normal? Minha vivência com o teatro vem me deixando mais exigente, cada vez mais, inclusive principalmente comigo mesmo. Beth é uma atriz inteligente. Usa seu corpo e sua voz de uma maneira extremanete precisa, codificada e virtuosa. Uma voz limpa, preparada para dominar os confins mais impossíveis de quem a assistia. Demorou cerca de 40 minutos para eu realmente ser fisgado, mas quando isso aconteceu, o anzol transpassou todo meu corpo, depois eu morri por tempo indeterminado. Era realmente impossivel sobreviver. Não consegui me desprender daquilo que eu não sei explicar. O teatro, o verdadeiro Teatro aconteceu ali, entre mim e Beth, numa conexão sacra, creio. Não só por se tratar de Clarice, não só por se tratar de uma maestrosa atriz, não só por se tratar de um mero espectador possivelmente tendencioso. Mas eu passei por um momento divino de catarse como nunca me aconteceu antes. Saí daquele território modificado, isso é o que mais me importa. Clarice viveu em mim por aqueles ínfimos momentos agora eternos. Era ela, eu sei, por intermédio de uma grande artista, simplesmente era ela me preenchendo mais uma vez como se fosse a primeira vez.

                                                                                                                        
Danilo Castro
6 de setembro de 2010

5 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Quando vi o anuncio desta peça, em algum canal de tv, só lembrei de você e de mim talvez... Mais de você, é claro!, que se revelou um amante incondicional de Clarice. Eu... talvez não a ame, por que admito que pouco a conheço, mesmo tanto me reconhecendo nos seus gritos de silêncio, na solidão dentro das multidões, no colorido do preto e branco que suas palavras revelam. Dentro de mim, as idéias comungam às dela. Devo sofrer por isso? ou regozijar-me? Devo sofrer pelo sentimento? ou apertá-lo ainda mais forte à mim, na esperança de um dia sentar-me aos pés dela e lhe sorrir cordial.
Acredito sim, no seu estarrecimento, na sua experiência de quase-morte-quase-vida, em frente a palavra reencarnada e dita por boca de outrem que te levou ao encontro dela.
Beijos.

Sheila

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, que saudades em grito, como é delicioso pousar meus olhos nas tuas letras, que tanto falam ao meu íntimo, forjam meu caráter e reescrevem o livro dos meus dias.

Abraços ave

Priscila Cáliga

Thiago Ya'agob disse...

Oi, Danilo. Saudades, meu amigo.
Perdoe-me pela ausência.

Voltarei em breve, em letrar por aqui, para comentar suas postagens.

Tenha um ótimo final de semana: com "olímpica paz". (Como escreveu Clarice)

Wânyffer Monteiro disse...

E agora me sinto mal por não ter assistido... Salve Clarice!