domingo, 17 de outubro de 2010

O rato entocado no canto

Aquele rato entocado no canto me era o impossível. Disseram-me firmemente, como conselho de mãe selvagem que não se desvencilha da cria, que o rato entocado no canto era dos mais perigosos, que se ele me atacasse qualquer dia desses, graves problemas se desentocariam. Mas o rato era quieto, eu também. 

Quanto mais o ponteiro rodava, mais eu me acostumava com o perigo. Pouco tempo depois da chegada do rato à minha casa, eu já nem me importava mais. O rato ia e vinha da toca, vinha e ia pra toca e sua presença já não me era mais tão estranha, como por muito tempo alertaram. 

Nós sabíamos um do outro. O rato fingia que não me atacaria, eu fingia que nunca seria atacado. Juntos éramos ótimos fingidores em felicidade clandestina, esperando até que alguém desse o primeiro passo. Seria eu a caça fácil? Seria o caçador adiantado demais? No meio da dúvida o relógio parou, e quando menos se esperou, o rato se desentocou e abocanhou meus dedinhos macios. Pronto, agora estava eu contaminado. 

Bem que as mães selvagens, que defendem os pedaços que nasceram de si, avisaram. Fui bobo demais. Agora era tarde. Que seria de mim, depois de abocanhado? Eu não contei para ninguém, mas, com o passar do tempo, meus dedinhos foram ficando cada vez menores, porque todo dia o rato malvado arrancava-me uns pedaços madrugada adentro. Eu estava tão condicionado, que minha obrigação de gente sã era repugnar aquilo. Mas toda noite, quando todos iam dormir, eu cerrava os meus olhos aguardando ansioso o momento em que o ratinho apareceria para comer-me os dedos.

Ele comia com tanto gosto que eu nem percebia meus dedinhos indo embora boca adentro. Em tantos anos, aqueles me foram os poucos momentos mais longos em que me senti amado. Aos poucos, os outros iam percebendo que meus dedos estavam ficando menores e eu, cada vez mais profissional na arte de fingir, fazia-me de desentendido. 

Certa manhã, depois de horas de amor entocado nos nossos próprios desejos impróprios, quando olhei para os meus dedos, vi que eles não mais existiam, e pior, nem as palmas das mãos me eram possíveis. Então corri furioso, procurei o ratinho por todo lado e quando finalmente enfiei-me braço adentro naquela toca suja à procura do meu amor, percebi que o ratinho não lá mais estava. Nem ele, nem meus dedos, nem as palmas das minhas mãos. 

Então olhei para o relógio imponente lá no alto, em cima da toca, parado outra vez desde não sei quando e marejei meus olhos atoleimadamente oblíquos. Era o que me restava fazer. O rato desentocado do canto nunca mais se entocou. E eu, aleijado pelo meu desamor, nunca mais toquei alguém.

Danilo Castro
05.10.2010

8 comentários:

Andrei Bessa disse...

AMEI o conto....

Andrei Bessa disse...

AMEI o conto....

Thiago Ya'agob disse...

Boa noite, Danilo
Meu amigo,
Eu fui pouco a pouco entrando no seu texto (identificando-me por aqui) e quando dei por mim, estava eu, mergulhando nessas águas: tão intensas, tão intimistas.
Perdoando Deus é o meu conto predileto de Lispector. O rato é uma “epifania”, talvez negativa, mas é. E o interessante foi ver esse animalzinho (rude), tão bem simbolizado por Clarice, ressuscitar através de suas letras, meu amigo: o rato entocado no canto. Tanto simbolismo (!) Tantas coisas indo sem autorização íntima ou racional. Tantas coisas.
Não vou me estender no comentário porque acabarei traindo-me. Nem tudo é para ser dito.
Obrigado por ter me proporcionado um momento tão belo de/em reflexão.
Saudades, sim: saudades.
Receba meu abraço: com paz.

Gilson disse...

Danilo

Muito legal seu texto, essa brincadeira de palavras com o rato foi algo impressionante. O amor se foi, deixando vc inerte.

Abs

Wânyffer Monteiro disse...

Vez por outra um rato desentocado aparece por aqui querendo entocar-se. Mas se a solução é tranca-lo em uma jaula como experiência laboratorial, ir contra sua natureza, é melhor que ele se vá antes de arrancar-me os dedos. E assim vai a monótona vida desentocada...

Muita saudade de vc, Dan!!!!!!!
Ainda bem que lembrou-me desse pedacinho de tesouro na internet. Voltarei a frequentar essa toca. ;]

;********

Diego Gondim disse...

Olá Danilo!
Passando no teu blog e gostei D+! Muito bacana! Parabéns" Bom, também tenho um blog que levo muito pro meu lado profissional, caso queria visitar: diegogondim.blogspot.com
Falow!! :)

Lia Silveira disse...

Danilo,
conheci seu blog pesquisando sobre o "Teatro Máquina"e adorei seu texto sobre a coisa.
Hoje voltei por aqui e descobri o projeto "rato entocado no canto". Adorei a proposta de trazer uma mesma idéia em várias linguagens. E o conto..gostei demais. o conto permite dizer muita coisa que nem mesmo quem escreve sabe onde vai dar. Então é claro que cada leitura é apenas uma das possíveis. O seu me fez pensar naquilo que Freud chama "Unheimlich"- o estranho familiar. Coisas que cultivamos com ardor, mas que nos causam espanto e estranheza qunado as encaramos de perto.
Vou continuar acompanhando o projeto.
abraços
Lia Silveira

Danilo Castro disse...

Lia, que bom que chegou até meu blog assim, por acaso e me gerou esse belo comentário. Eu não conheço o conto que vc se referiu, mas sem dúvidas vou conhecê-lo e entender a relação com "O rato entocado no canto". Eu ando ainda muito temeroso em relação ao processo noovo, mas creio que é hora mesmo de arriscar e que é assim que a gente aprende, sabe. Dando a cara a tapa e experimentando. Obrigado por colaborar! Um abraço!