sábado, 11 de dezembro de 2010

Clássico em releitura - Vida & Arte (O Povo)

Inspirado na obra de Tenessee Williams, espetáculo que aborda a exploração sexual, volta a ficar em cartaz a partir de hoje, em montagem assinada por ex-alunos do IFCE

Thiago Barros
especial para O POVO
14 Jan 2010

Dos corredores do Instituto Federal do Ceará (IFCE), antigo Cefet, surgiu a ideia. Raíssa Starepravo, então estudante de Artes Cênicas da instituição e dona da cabeça onde se deu tal fenômeno, juntou, por volta de dezembro de 2008, um grupo de colegas, com a intenção de montar uma peça baseada no texto de Esta Propriedade Está Condenada, de autoria do dramaturgo americano Tenessee Williams. Surgia aí o embrião para o grupo de teatro hoje conhecido como Grupo de Pesquisas e Experimentações Teatrais (GPet).

Criado especificamente para essa montagem, o GPet conta também, desde o começo, com Andrei Bessa e Danilo Castro, que se tornaram, respectivamente, o diretor e o parceiro de cena de Raíssa na montagem que ela imaginou. Com o passar do tempo, no entanto, os três viram a necessidade de abordar mais a fundo um ponto particular da obra original. Essa modificação no propósito da peça deu origem ao espetáculo Revoar, que fica em cartaz nas três quintas-feiras restantes do mês, no Teatro Sesc Senac Iracema, depois de duas apresentações em dezembro de 2009.

Em Revoar, Wille, interpretada por Raíssa, é uma adolescente lutando para se equilibrar nos trilhos de uma vida conturbada e desestruturada. Seu diálogo, inicialmente despretensioso, com o personagem Tom, vivido por Danilo, os permite redescobrir seus mundos e dilemas. ``O texto do Tenessee se desenvolve em torno das lembranças da protagonista. A história é focada na loucura dela e na postura de dúvida que Tom assume enquanto ela vai lembrando``, explica Andrei. No decorrer dessas memórias, Wille fala da irmã que se prostituía e, estendendo-se nesse assunto, dá a entender que já sofreu abuso sexual. ``Partimos, então, desse ponto. Fomos pesquisar o problema em Fortaleza e percebemos que era uma coisa séria``, revela o diretor.

Uma vez decidido o enfoque que iria ser dado à montagem, passou-se ao processo de adaptação em si. "Colocamos o que queríamos dizer e mudamos o que queríamos mudar", conta Andrei. Segundo ele, o espetáculo segue uma linha pós-dramática, dentro da qual o desenrolar das cenas nem sempre ocorre de maneira linear. "Há a conversa entre os dois, mas algumas cenas não têm nem falas", diz ele, explicando que se valeu desse recurso para ilustrar os momentos em que a personagem principal se refere às suas recordações. "Dentro da nossa proposta, nós nos utilizamos de recortes de cenas, que não necessariamente precisam ter sentido. Uma das formas que encontramos para fazê-lo foi através dos flashbacks, que retomam o abuso sofrido por Wille``, acrescenta Raíssa.

Tema difícil

Para compor a protagonista de Revoar, Raíssa, entre outras coisas, assistiu ao filme As meninas. "Aquilo tudo me chocou muito", afirma, ressaltando que a sensação que teve foi ainda mais poderosa devido à escassez de material produzido sobre a questão. A atriz revela que nunca antes havia incorporado uma garota tão jovem e que esse fator, somado ao peso da história, tornou o papel um desafio. "Ela não é uma menina normal, já passou por muita coisa", comenta. Para Andrei, a experiência não foi menos complicada, mesmo que por outro motivo. "O tema é forte. Por isso, tive muito cuidado para não tornar o espetáculo didático, cansativo. Desde as apresentações no fim do ano passado, nós reformulamos muita coisa para passar melhor o que queremos passar", explica.

SERVIÇO

REVOAR - Espetáculo do Grupo de Pesquisas e Experimentações Teatrais. Apresentações nos dias 14, 21 e 28 de janeiro de 2010 (quintas-feiras), às 20h, no Teatro Sesc Iracema (Rua Boris, 90 C - Praia de Iracema - ao lado do Centro Cultural Dragão do Mar). Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Outras informações: 3252 2215.

E MAIS

- O título Revoar remete ao significado múltiplo do termo. "Tornar a voar, voar novamente ou voltar ao ponto de partida" são algumas das definições que captaram a atenção do grupo, por todo seu caráter simbólico. Tendo em vista o abuso tematizado no espetáculo, Andrei explica a escolha. "Na peça, está-se diante de ações que já aconteceram e que acontecem novamente, num incansável movimento de "eterno retorno", diz.

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