quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

NOTA DE REPÚDIO: BIENAL DA UNE É UMA FARSA

A União Nacional dos Estudantes (UNE) promoveu um encontro para 15 mil estudantes de toda a América Latina. Música, Teatro, Esporte, Audiovisual, Intervenções, Shows, Tecnologia e diversas outras atividades em diferentes áreas eram o mote para a 7ª Bienal da UNE.

Ao todo foram selecionados 201 trabalhos para as mostras artísticas que o evento estimava reunir. No Aterro do Flamengo, uma estrutura grandiosa estava montada, várias tendas com equipamentos de primeira linha estavam instaladas para receber o evento, além das estruturas na Lapa, na Quinta da Boa Vista e no Museu da República.

É, mas parece que a imaturidade de muitos organizadores não deu conta do evento faraônico. O alojamento em que os estudantes foram abrigados estava em condições deploráveis, sim, é essa a palavra. Locais sem nenhuma estrutura para receber os 15 mil estudantes. Onde estava a Coordenação de Mobilização dos estudantes e artistas nessa hora? Banheiros em péssimas condições, cantinas com alimentação escassa, cara e ruim, nem telefone público havia nos alojamentos. Diversos foram os casos de estudantes que tiveram seus pertences roubados, máquinas digitais, notebooks, celulares, dinheiro... Estavam rasgando barracas para roubar os pertences. E onde estava a segurança? Dormíamos todos tensos, com medo de ladrões. Claro, qualquer estudante sabe que não se espera luxo num congresso, mas espera-se o mínimo de dignidade para recebê-los, atendê-los, entendê-los.

As oficinas e palestras aconteciam com presença mínima dos estudantes, que, em sua maioria preferiu ir ao Rio de Janeiro para fazer turismo, após se deparar com aquilo. E o retorno disso tudo? Chega onde, chega a quem, à imprensa? Porque para os estudantes a Bienal foi como um festival de música, afora os atrasos absurdos em praticamente todas as programações, somente os shows foram bons, somente. Mas uma Bienal não é só festa, entretanto, parece que foi só isso que importou para muitos dos organizadores, só isso que levamos dessa Bienal, uma festa como qualquer outra, regada a bebida e canabis, no caso, muita canabis.

Pior para os selecionados, que foram apresentar seus trabalhos e, para muitos deles, nem isso foi possível devido à desorganização dos coordenadores. Comigo, por exemplo, aconteceu que após produzir um videoconto com parceria da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Vila das Artes (Casa de Cinema – Prefeitura de Fortaleza), não exibi meu trabalho porque um televisor no “Buteco Literário” quebrou e uma pessoa da coordenação da mostra de literatura a qual fui selecionado, me disse “Cara, não posso fazer nada!”. Imagine só sair da sua cidade, parar sua vida para apresentar um trabalho que te gerou custos, conseguir autorização para se ausentar do trabalho, desmarcar ensaios dos seus trabalhos artísticos e ouvir: “...não posso fazer nada!”.

É absurdo, mas pior é que nem desculpas eu ouvi, nem depois de gritar reivindicando por esse ato revoltante da Coordenação de Literatura. Havia projetor no Teatro Arena, na mostra audiovisual e em outros lugares, mas nenhuma solução foi encontrada por imaturidade da organização que pouco se importou com os trabalhos que eram ou não eram apresentados. Além disso, publicaram um pedaço no meu conto no jornal e assinaram “Danilo Lima”, mas meu nome é “Danilo Castro”. Além disso, meu conto no site foi publicado paragrafado, mas no meu conto não há parágrafos. Além disso, somente o nome de duas convidadas para mostra de literatura saiu na programação, nenhum selecionado de literatura saiu na programação, enquanto todos os selecionados das outras áreas teve seu nome publicado. Além disso, houve um atraso horrendo quanto ao pagamento dos 100 reais prometidos como pró-labore, que foi pago somente no último dia às 21 horas. Além disso, a Coordenação de Áreas, não foi tão cortês com muitos que reivindicavam o que nos era de direito. Além disso, nem certificados os selecionados receberam porque a Bienal não fez certificados para os selecionados. Se eu continuar, não pararei de citar a palavra “além”. 

Se fosse um caso isolado, poderíamos pensar, em toda produção há falhas, mas não foi isolado, pelo contrário, todos que conversei detestaram a Bienal, estudantes do Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Pará, Puaí, Brasília, etc.

E o que fazer agora depois da desmoralização? Será que um estudante dentre os 15 mil vai ter voz para alguma coisa? Será que a UNE vai me responder esta nota pedindo desculpas pelo ocorrido? Será que algum veículo vai dar espaço para esse manifesto? É completamente paradoxal um estudante ser lesado por uma entidade que luta pelos estudantes.

No 9º Distrito Policial do Rio de Janeiro, fui aconselhado pelo inspetor a ir ao Juizado Especial e à Defensoria Pública do Rio de Janeiro para mover uma ação contra danos morais. Então, estou tentando resolver por vias legais, é o mais sensato numa situação como essa.

Espero que a Coordenação Geral, numa outra oportunidade, possa repensar sua equipe e trabalhar com pessoas que tenham competência para arcar com um evento nessas proporções, pessoas humanizadas que, no mínimo, saibam respeitar o estudante.

Abaixo segue o meu trabalho audiovisual para quem tiver curiosidade:


Danilo Castro
26/01/2011

20 comentários:

ly disse...

Danilo, concordo com toda sua indignação, estás certíssimo.
Comigo, tambem ocorreram tais erros e o pior nem recebi a grana. Sendo que a Eleonora avisou que iria depositar... e até agora nada!
Uma palhaçada. Acho que devemos divulgar todda essa farsa!

Carlos Quadros disse...

Cara, também fui selecionado para a mostra de literatura através de um conto e concordo plenamente com o que você escreveu aí. Até porque, como você, não tive oportunidade para apresentar o meu trabalho. Porém, não tive um dispêndio ou ônus muito grande nessa viajem, por isso não me incomodei com a situação. E outra, como não estava no alojamento dos selecionados, a minha estadia foi mais tranquila, eu estava em uma outra escola, onde tudo ocorreu bem. Mas tudo isso que você falou eu ouvi de outros estudantes, tanto relativo à desorganização, quanto ao alojamento ruim, etc. Ademais, sei de mais alguns selecionados (literatura) que não apresentaram seus trabalhos.

E como você muito bem colocou, é realmente paradoxal o que aconteceu. Pois foi visto que a Bienal da UNE, eu disse UNE, que deveria valorizar os estudantes e o que eles produzem, só deu valor aos convidados que já tem algum espaço, aos famosos que já cansaram de aparecer por aí. Enfim, gostaria de parabenizar-lhe pelo seu trabalho, o vídeo ficou excelente. E, por último, não quero que a Elisa (coordenadora) pense que estou difamando-a, pois achei ela um ótima pessoa, que, apesar de tudo, esforçou-se para conseguir as coisas, mas a situação em sua conjuntura não ajudou.

Ps: não sei se você viu, mas no último dia (sábado) a TV estava funcionado.

Abraços

ly disse...

Danilo, concordo com toda sua indignação, estás certíssimo.
Comigo, tambem ocorreram tais erros e o pior nem recebi a grana. Sendo que a Eleonora avisou que iria depositar... e até agora nada!
Uma palhaçada. Acho que devemos divulgar todda essa farsa!

Danilo Castro disse...

Carlos, Ly, quanto mais pessoas comentarem aqui, melhor. Tem um monte de gente prejudicada nessa história. Pior foi saber agora que a TV estava funcionando. Então quer dizer que foi má vontade da Coordenação de Literatura não exibir meu videoconto?

Carlos Quadros disse...

Olha cara, isso acho que não, pois quando fui testar o meu vídeo a TV não ligou, ao menos foi o que me disseram, isso foi na quinta. E sexta-feira não vi ninguém mexendo nela, aparentemente estava com problemas mesmo. Porém, para a minha surpresa, no sábado estava ligada. Agora, se trocaram por outra, ou arrumaram, ou foi tudo mentira eu não sei.

Danilo Castro disse...

Carlos, independentemente se estava funcionando ou não, o que me revoltou foi o fato de que haviam outrso aparelhos projetores em outros lugares, e mesmo após eu solicitar, nada foi feito.

Carlos Quadros disse...

Sim, compreendo e isso não é nada menos do que revoltante. Faltou muita organização mesmo, sem falar que a propaganda foi bem enganosa.

Juliana Moura disse...

Estudantes: nunca confiem na UNE! Ela não luta por nada!

Danilo Castro disse...

Juliana, nunca tive nenhum outro contato com a UNE além dessa Bienal que me desmoralizou, entretanto, este evento faraônico pode ser o reflexo do trabalho que é desenvolvido.

Thiago Ya'agob disse...

"Agora - silêncio e leve espanto." (Clarice Lispector, Água Viva)

Danilo,
Enquanto lia seu desabafo na tarde de ontem, aqui postado como Nota de Repúdio, fiquei tão boquiaberto que as palavras para te consolar me fugiram e ainda não voltaram. Meu espanto se deu por ter vivenciado, mesmo que distante, sua alegria em participar desse evento e ter lido o desfecho que ele lhe causou, nada agradável.
Imagino o quão desapontado você está: e isso é perceptível, uma vez que tanto empenho, recursos (que brotaram) e disposição lhe vieram (e você os buscou) à mão e não houve um retorno no mínimo humanizado.
Sinto por isso, meu amigo.

Meus votos: Que oportunidades melhores possam aparecer/ ser encontradas no seu caminho. Há um diferencial em você. E você o conhece.

Paz, querido.


PS.: Curti pakas o vídeo – é muito bom ver você, meu amigo, através de imagens e sons, atuando. Fiquei emocionado. Parabéns.

Danilo Castro disse...

Thiago,

Obrigado pelo apoio. Sou apenas um estudante como qualquer outro, talvez a grande diferença é que resolvi publicar o que muitos viveram, mas vão deixar que a omissão seja mais forte do que a vontade de mostrar pro Brasil a farsa que foi essa Bienal para todos nós, estudantes. O ano começou com uma grande decepção, com um evento emplastificado, com um evento que só tem carapaça.

Mais uma vez obrigado.

Rafael Mesquita disse...

Episódios como esse só reforçam que a gente deve ter atenção com o proposito principal da política que desenvolvemos. A bienal da UNE, em todo o seu esplendor e gigantismo, deveria ter investido mais, depois de anos de organização, no seu obejto principal: o encontrista! É muito comum a precaridade dos eventos, como encontros de estudantes e de movimentos, mas comparar com a grandiosidade da Bienal da UNE é no mínimo errado, tendo em vista dizer que sempre é assim.

Danilo Castro disse...

Pois é, Rafael,

Algumas pessoas podem ter achado minha nota de repúdio imatura, melodramática, exagerada ou algo do tipo. Mas há mas há muito mais a dizer e todos nós sabemos que não há conforto absoluto em congressos, mas há dignidade, pessoas que, no mínimo, te tratam bem. Entretanto, como já afirmei e reafirmei, nem isso era possível diante da organização esplendorosa, como você mesmo afirmou. Façamos desta nota de repúdio, um manifesto não só de reinvindicação por direitos, mas um manifesto em prol da reflexão, principalmente por parte daqueles que compõem a UNE, por parte daqueles que produziram esta bienal e por parte daqueles que também foram vítimas desta farsa.

Síntique. disse...

Olha, por mim, está mais que apoiado.

O evento foi super desorganizado, as informações mudavam da água pro vinho por cada boca dos des-organizadores que passava.
Eu tive que andar a pé por um bairro inteiro para fazer meu credenciamento, para descobrir (depois de muito caminhar!) que o real local era exatamente o mesmo em que eu estava antes. E isso se deu por conta de uma informação errônea de uma das coordenadoras da Bienal, que nem se deu ao trabalho de me pedir desculpas pelo erro.

Na abertura da Bienal, tive que ficar mais de meia hora com vários estudantes do lado de fora da Cidade do Samba porque alegaram que a capacidade do local era pra 3 mil pessoas. Como isso é possível, se o evento deveria comportar 15 mil? Depois de muito esperar, conseguimos entrar, depois de termos sidos humilhados pela polícia e pelos seguranças. Uma vergonha.

Desisti da Bienal logo no primeiro dia, ao ver tal desorganização. Se não é possível fazer algo para "15 mil pessoas", então é melhor não fazer, ou fazer algo menor.

Bom, é isso. Está completamente apoiado.

Danilo Castro disse...

Pois é, Sarinha. Cada comentário como esse só reforça que não foi isolado o que aconteceu comigo. Todos fomos desrespeitados com essa Bienal. Obrigado pelo apoio!

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, concordo em grau, numero e genero no que relatas-desabafo tão preciso, de descaso para com quem se empenha, vesti a camisa do que acredita e faz com primor. Fico indignada diante situações como estas, que são corriqueiras na sociedade, a tratar o ser humano-o proximo como lixo. Estás em pleno direito de requerer solução ante a problemática que afetara a massa, apenas espero que a quem recorrer possa dar valor a causa, e não engavetar, e ficarem ilesos o afetados, afinal, triste mencionar, a história arrebenta sempre para o mais fraco e nada se contempla de nó desatado.

Abraços

Priscila Cáliga

Danilo Castro disse...

Priscila,

Obrigado pelas palavras de conforto. Acho que o que posso arrancar de proveito nessa situação inteira, é que estou mais firme, mais humanizado, mais calejado. E, apesar de tudo, isso pode me ajudar muito a enfrentar problemas futuros.

Abraços perfumados como o seu jardim.

Anônimo disse...

Meu camarada,
Só ratifico meus elogios feitos no e-mail da comunidade da Bienal.
Seu texto é genial e transmite muita sensibilidade e dor.
Já enviei a muitos amigos dentro e fora do país seu trabalho.
Sei q o “boca a boca” é a melhor forma de divulgar trabalhos sem incentivo financeiro de mega empresas.
Portanto, espero noticias de seu sucesso.
Parabéns pela interpretação.

Saudações estudantis sempre.

Roney Farias

Danilo Castro disse...

Roney,

Seu apoio é muito gratificante. A Bienal passou, a poeira baixou, mas em mim o artista ainda vive, mesmo que calejado, o artista aqui ainda grita, mesmo que quase sem voz.

Retribuo suas saudações estudantis!

Juss disse...

'-'

Caramba, hein, cara. A coisa foi feia mesmo. E é porque isso não foi nem tudo o que aconteceu por lá, né.

O que nos resta fazer além de tentar resolver pelos trâmites legais...

Um absurdo o que aconteceu. Deveria servir de exemplo do que NÃO devia ser um evento desse porte.