sábado, 19 de março de 2011

Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

4 comentários:

Aline Fontenelle disse...

sonho, desejo, aventura, busca do significado da vida perto ou longe. sorrisos e sufocos. resposta ausente.

O Espelho de Eva disse...

Vejo em ti o desejo e a dor misturados. Incrível, mas o que coloquei em meu espelho fala de olhos que não querem secar.
Bom ler-te mais e mais e sempre!

Danilo Castro disse...

Acho que é exatamnte isso, Eva e Aline... Acho que apesar de respostas ausentes, há desejo e dor misturados... Por isso não desisto...

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, um dos escritos de Meireles que sou apaixonada, que me remete por mãos dadas; no adentro que estão molhadas do azul das ondas entreabertas.

Sabes o que há lá fora ?
Uma série de tons maiores. É o arranjo da natureza governado pelas mãos do ARTISTA. Som harmônico para estar de acordo.
Nós optamos ou não cantarolar a canção que compõe todas as ocasiões. E com uma voz que parece vento de outono; som de folhas balançando e florestas adormecendo lentamente, tons da noite chegando e uma promessa de novos dias.


Abraços precioso!

Priscila Cáliga