domingo, 17 de abril de 2011

O teatro dos escravos independentes

Espetáculo "Rebú" do grupo Teatro Independente, RJ
O épico (Brecht) e o pós-dramático (Lehmann) ressaltam a necessidade de se despertar outros tipos de sensações no espectador, que não aquelas que simplesmente o levem ao entretenimento puro ou à catarse, comoção. Diante do trabalho do Teatro Independente, caí na ratoeira, perfuraram-me o queixo com um anzol e vi que não tinha mais jeito de sobreviver.

Definitivamente: me rendi. O grupo surgiu há pouco tempo, seus membros são jovens, mas vê-se, pelo resultado dos seus trabalhos “Cachorro” e “Rebú” o quanto artisticamente estão interligados. Parece até que há uma pesquisa desenvolvida pelo grupo há muitos anos nessas linhas. Mas aquilo que vi nos dois últimos dias é a verdadeira força do teatro, isso explica a maturidade, não se trata apenas de talento. É o teatro que existe em cada um que os guia, que os leva, que está acima deles mesmos.

Não, eles não são Independentes, são escravos, rendidos em prol do verdadeiro teatro, assim como cá estou de joelho aos pés do grupo. É fascinante quando consigo me envolver dessa maneira, quando para além do artista, encontro em mim o ser humano, desprotegido, que arregala os olhos, tem medo, mas deixa-se levar.

Além de todo o refinamento, nos espetáculos do Grupo Independente são marcantes dois traços: a capacidade tragicômica que nos inquieta e nos deixa na dúvida como espectadores, se se é permitido rir ou se devemos chorar, ou se choramos rindo ao mesmo tempo. Não se tratam apenas de tragédias com alívios cômicos, está para bem além disso. A comicidade e o trágico são viscerais, indissociáveis, por isso ressaltei a nova sensação (cada vez mais clamada por novos teatrólogos) que o grupo conseguiu despertar em mim.

O outro ponto relevante é a codificação e a precisão dos gestos, dos movimentos que aqui acolá são como dança e extrapolam o cotidiano, mas as marcas, quebras, rupturas já estão incrustadas a ponto de tornarem-se extremamente orgânicas e, por isso, nós aceitamos aquilo como se fossem parte do nosso dia-a-dia, como se movêssemo-nos em poesia a todo tempo. Só mesmo renúncia, entrega e labuta para atingir esse nível de escravidão.

É louvável a passagem do repertório do grupo pelo Ceará e que nós, artistas, possamos embebermo-nos de um trabalho tão rico, que preenche, violenta e apaixona qualquer um.

Visite o site do Teatro Indepentente.
Danilo Castro
17/04/2011

15 comentários:

Péricles Davy disse...

Sou péssimo na escrita; mas vamos lá...

Quando vi os dois espetáculos também refleti sobre a incrível “força do teatro” e “talento” dos atores. Pensei, poxa como eles são verdadeiro em cena.

“a capacidade tragicômica que nos inquieta e nos deixa na dúvida como espectadores, se se é permitido rir ou se devemos chorar, ou se choramos rindo ao mesmo tempo.” Fiquei com essa indagação; o que era cômico e o que era trágico? O que eles queriam causar realmente. Defini os dois... rsrsrrs.

“outro ponto relevante é a codificação e a precisão dos gestos, dos movimentos que aqui acolá são como dança e extrapolam o cotidiano, mas as marcas, quebras, rupturas já estão incrustadas a ponto de tornarem-se extremamente orgânicas e, por isso, nós aceitamos aquilo como se fossem parte do nosso dia-a-dia, como se movêssemo-nos em poesia a todo tempo.” Isso era muito forte e genial nos espetáculos. Eles tinha gentes e movimentos, bem leves, mesmo nas situações pesadas... Adorei. Abraço Danilo, ótimas reflexões. Muito bom vc compartilha o que pensa.

Danilo Castro disse...

Valeu, Péricles, esse espaço é nosso!

Vinicius Arneiro disse...

Danilo, gostaria muitíssimo de agradecer ao seu ímpeto de (d)escrever sobre os nossos trabalhos. Fico lisonjeado e te digo que deveriam existir mais espectadores como você. Obrigado por partilhar de tão boas sensações!
Grande Abraço!

Danilo Castro disse...

Vinícius, costumo escrever sobre as experiências intensas que vivo. Essa foi uma delas, acho que dessa forma também acontece intercâmbio, diálogo, pena que não pude comparecer às oficinas. Continuem teatrando nesse estilo ousado pelo Brasil. Mande abraço a todos. Boa apresentação hoje.

Carolina Pismel disse...

Danilo,
muito obrigada pelas lindas palavras! Eu como atriz do grupo fico bem emocionada em saber tudo isso! bjs até uma próxima.

Dois Rios disse...

Danilo,

É disso que o teatro precisa. Ou melhor, é disso que os atores/autores precisam. De espectadores que saibam "ler" nas entrelinhas e que também saibam entregar-se sem reservas às suas asserções.
Você,ao que me parece, tem amplo cabedal, não só técnico como também emocional, para analisar/avaliar o que para muitos ficaria à margem da luz.

Agora vou dar uma chegada no site do Teatro Independente.

Beijo,
I.

Danilo Castro disse...

Inês, aproveita que você mora no Rio e vai conferir o trabalho do grupo. Tenho certeza que você vai gostar bastante!

priscilla disse...

Concordo em gênero,número e grau. Faço de suas,as minhas palavras. Saí do espetáculo enlouquecida,latente e louca pra fazer a oficina deles,para pegar nem que seja um pouquinhoooo daquilo tudooo que eu tinha visto,que me comia por dentro e mexia com tudo,mas não sabia nomear... São trabalhos como esse,que nos dá gosto de ver e a cada dia me dá mais certezaaa que quero morrer fazendo isso.

Danilo Castro disse...

Pri, um trabalho assim "a cada dia me dá mais certeza que quero morrer fazendo isso."

=]

priscilla disse...

Concordo também com a Inês! Não é todo ator que é bom espectador. Saber sentir quando está no palco e saber sentir também quando está na platéria,mas como platéia,não como "crítico de teatro" que é o papel que a maioria dos atores fazendo quando são públicos. Tem que ser aberto para sentir o que o outro está lhe passando...

Viva o teatro!

Danilo Castro disse...

O grande porém é que quando se é ator ou artista cênico, vc acaba analisando tudo tecnicamente e esquece de viver aquilo. Quando eu consigo esquecer que sou do teatro e apenas vivo o que vejo, sinal d que o espetáculo é realmente bom.
=]

priscilla disse...

Compreendo sim,pois nós fazemos isso sim,mas temos nos controlar,sei que às vezes é bem dificil. heheehehehe. Mas o que é o teatro se não sentir o outro? =]

moça disse...

Tenho mesmo um ótimo consultor de teatro, acho que esse blog(você) é quase isso...
rsrsrs
mas também me falta iniciativa de sair de casa para ver os espetáculos bons da cidade, e sei que existem vários, dou até uma olhadinha de vez em vez em quando nas programações, só me falta coragem =/
obrigada pela força, pelo incentivo e pela sua doação!

beijões!

Danilo Castro disse...

A gente faz teatro pro mundo, moça! Apareça!

Thiago Ya'agob disse...

Saudades, Danilo.

Que bom ler os recados da Inês por aqui. Fico contente.

Tenha um ótimo final de semana, meu amigo: com paz.