sábado, 11 de junho de 2011

Dia das mães

Conheci esse conto no blog Debaixo das Asas. Não sei bem porque estou postando-o aqui, mas o conto é de uma sutileza que dialoga com uma fortaleza rara. É Clarice mais uma vez me envenenando... Sei que é longo pra se ler em blogs e que já passamos do mês das mães, mas vale a pena.

- Eu - disse-me a bailarina do corpo de baile do Municipal – eu dancei uma vez sem saber que estava grávida. E depois me culpei tanto por isso, mas foi uma dança lenta que não fazia mal. Depois quando desconfiei, mandei fazer o teste. Você não imagina o que senti quando o homem me entregou o papel onde estava escrito positivo. Minha alegria foi tão intensa, mas tão doida, que abracei e beijei o homem espantado do laboratório e lhe disse: “Muito obrigada”. Imagine, como se aquele desconhecido fosse o pai.

O sol estava se pondo enquanto a bailarina falava. Ela era muito frágil, quase sem peso, com busto de menina-moça.
- Mas o médico me avisou logo de saída que eu podia perder a criança. Porque tenho o aparelho genital infantil, sou fértil mas não posso conceber, não tem lugar para o feto: Então passei meses na cama para ver se assim eu não perdia a criança. Eu ficava deitada, falando com o bichinho que estava dentro de mim. Eu lhe dizia: “Olha, bichinho, nós dois havemos de vencer e você vai nascer, é assim mesmo, é difícil nascer.” Parecia até que ele me ouvia e respondia: “Está sendo difícil”. Eu tinha tanta vontade de ouvir ele chorar... como forma de resposta à vida: chorar a vida é uma resposta. Conversávamos horas. Ninguém entendia o êxtase sofrido que me acontecia, e depois também ninguém entendeu.

Ficamos em silêncio. Ela estava sentada no tapete escarlate, toda leve, com as pernas cruzadas à moda budista. Mas o dorso mantinha-se suavemente ereto e hierático pelo hábito das poses de ballet.

- Foi então que comecei a perder sangue. Eu mal acreditava, não queria acreditar. E quanto mais sangue se derramava,mais desesperada eu ficava. Até que aconteceu: perdi meu filho. Era um menino. Cheguei a vê-lo, pedi para vê-lo: lá estava ele todo aconchegado dentro do óvulo. Lembrei-me de um passarinho recém-nascido que uma vez vi e que tinha o corpo mínimo quase transparente e um bico enorme. Parecia que eu dera à luz um passarinho. Comecei a chorar. Eu não chorava de desânimo, eu chorava a morte de uma criança. Todos me diziam: “Mas, Gisele, não era ainda uma criança, era apenas um feto...” Ninguém entendia que para uma mulher tão pequena como eu o feto era uma criança. E muito menos entenderam quando pedi a meu pai para enterrá-lo no jardim. Não queria que ele fosse jogado no lixo, o meu bicho. Parece que é proibido enterrar um feto no cemitério. Mas meu pai, vendo meu estado, me concedeu isto: plantou meu filho no jardim, embaixo de uma amendoeira grande que estava na época de folhas amarelecendo.

Enquanto ela falava eu imaginava a terra do jardim com o ser ali enrodilhado no seu frágil óvulo, murchando, murchando. Fiquei calada.

- O pior, como eu já disse, era o sentimento de culpa: imagine só, eu ter dançado ballet naquele estado. Mas às vezes eu conseguia raciocinar mais claro: você não tem culpa, eu me dizia, a causa da morte não foi a dança, foi aquela história de infantil. Mas eu achava que não tinha feito tudo por ele, que talvez tivesse faltado alguma coisa.
Já era o final do crepúsculo: estávamos na sombra mas não acendi nenhuma luz.

- Mas não desisto, disse baixo.

- Não desiste de quê?

- De ter um filho. O médico me disse que de novo eu poderia perder. Mas, mesmo que numa segunda gravidez eu perca, não desisto: ficarei grávida muitas vezes e aceito a possibilidade de perder. Até que um dia, lá para um dia, eu com muito cuidado conserve ele em mim nove meses, dando até então muita coisa boa para ele ir bebendo e comendo através do meu sangue que vou enriquecer. Até que ele nasça. E será uma vitória nossa, minha e dele. Porque eu sei: é mesmo difícil nascer.

Olhei-a quase no escuro. Sofrida, machucada, corajosa. Sim, ela era uma mãe, a dançarina de Degas.



LISPECTOR. Clarice, 1920 – 1977
A descoberta do Mundo: Dia das mães
Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 416, 417

4 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, tive o privilégio de lê-lo [conhecer o conto] no Debaixo das Asas, que causara quebrantamento no meu interior. Com isso, vos digo, é válido, delicioso relê-lo no teu cantinho, que exala qualidade na utilização das palavras [domínio à lingua], gosto literário que envenena um ser, da mesma forma que Lispector faz.

Abraços

Priscila Cáliga

Danilo Castro disse...

Pri,

Vale muito a pena esse conto. Obrigado por estar sempre aqui, povoando meu blog.

Beijo!

Thiago Ya'agob disse...

Danilo,

esse conto me é pegajoso n'alma. As letras minutadas por Clarice me acompanham, e 'Dia das Mães' me tem um significado marcado por vivências intensas.

Um dia, quem sabe, eu possa realizar o meu sonho maior: ser pai.

ps.: sempre que quiser, pode fazer uso dos "meus" textos.

Meu abraço, querido: uma semana com paz.

(é bom ver a Priscila por aqui também)

Danilo Castro disse...

Obrigado pelo aval, Thiago!