quinta-feira, 16 de junho de 2011

O que me incomoda é a Coisa

Espetáculo Ivanov, do Teatro Máquina
A experiência Ivanov, do Teatro Máquina, pra mim foi uma coisa. Sim, essa é a palavra, por mais boba e bruta que pareça ser, eu repito: Coisa. Quando me vejo diante de uma sensação que não sei explicar, isso me incomoda, então na minha cabeça essa é a palavra que mais se encaixa.

Ao me ver diante de um Ivanov caminhando numa linha naturalista, um paradoxo novamente me tomou os pensamentos. Será possível o naturalismo (no sentido mais puro da palavra) no teatro? Penso logo na voz, porque no teatro é preciso se fazer ouvir e na vida cotidiana não se fala projetando a voz para um público. Então é preciso se fechar um pacto: o público ouve o ator projetar e finge que aquilo é normal. Eu não vi isso em Ivanov, que bom. As vozes não são projetadas e o tom da interpretação dos atores acaba sendo trilhado num caminho cada vez mais sutil e natural. Eu quis estar mais perto porque o espetáculo me chamou pra dentro dele, pro íntimo daquelas vidas expostas em cena, mas me questionei se ali no fundo da plateia era possível ouvir, porque mesmo de perto, perdi alguns momentos por não conseguir escutar. E não me refiro aos momentos estratégicos em que as vozes baixavam, aumentavam ou se sobrepunham umas sobre as outras, estabelecendo pequenos caos.

Cada vez mais eu venho percebendo que no teatro é preciso de calma para fazer as coisas. Ivanov é assim: uma coisa calma e incômoda, construída por belas imagens tediosas e fascinantes. Como a imagem virginal e vadia de Sasha à beira do casório, ou a imagem de Ivanov afundando na poltrona, ou mesmo as embaraçosas e encantadoras passagens de Gavrila pelas cenas. Sua figura estranha entrecortando o andar da carruagem talvez seja o que mais representa Ivanov, um homem que tilinta como taças de cristal numa bandeja sem nunca cair no chão e se espatifar. É agoniante.

Não há como falar de Ivanov sem evidenciar o trabalho do elenco, que, mesmo com as dificuldades que a proposta traz consigo, desempenha um bom papel e se mostra num caminho direcionado à ascensão, uns mais a frente, outros menos, mas todos na mesma direção. No meio de uma cena, certa vez, em algum ensaio alguém já me disse: “faça somente aquilo que lhe couber”. Os atores de Ivanov são assim, fazem o que lhes é cabível e essencial, na verdade até nos esquecemos dos atores em detrimento das suas personas, não há um esforço para “interpretar”, simplesmente se faz e aquilo já é o suficiente. Ana Luiza Rios, com seu jeito de bailarina bauschiana, é, sem dúvidas, o grande destaque do elenco, seu trabalho se mostra tão crível e maduro que até me gerou uma ansiedade de vê-la novamente em cena cada vez que ela saia, queria ler mais do âmago de Anna, que, mesmo diante de sua bondade doentia e santa, permite-se à explosão, enquanto Ivanov continua estático à beira do abismo sem nunca ter coragem de pular.

Para completar a Coisa, as portas posicionadas na minha frente me geraram uma raiva por não conseguir ver alguns momentos como eu queria e ao mesmo tempo me instigaram por me permitir presenciar cenas através das brechas entre elas. É interessante perceber que cada um, em determinado momento, dependendo da posição em que se está sentado na plateia, vai ter uma visão exclusiva da Coisa. Foi ali que percebi que eu tive um Ivanov só meu e me senti feliz e egoísta como uma criança comendo algodão doce.

Ivanov é uma Coisa porque é inegável que é um trabalho seguro ao mesmo tempo em que evidencia seu processo inacabado de edificação, afinal o bom teatro é aquele que se permite à mutação. Ivanov é uma Coisa porque é indefinível e me provocou sensações que não me foram cabíveis noutros momentos ou experiências artísticas que já vivi, é realmente estranho. E isso é louvável diante de muitas produções com “encaminhamentos sensitivos” pré-definidos que te levam para uma conclusão fechada e objetivada pela direção. Com o Ivanov eu não sei o que o Teatro Máquina e a Fran Teixeira querem, e essa dúvida é o que me faz escrever agora sem necessidade nenhuma de explicação, apenas de me expor. Talvez com o tempo eu me resolva diante dos meus questionamentos pós-Ivanovianos, porque, como um espetáculo, amanhã também não serei mais o mesmo. A Coisa-Ivanov está em transformação, oscilando entre comum da vida e a poesia.

Conheça mais sobre o espetáculo Ivanov e sobre o Teatro Máquina

Danilo Castro
17/06/2011

10 comentários:

Fran Teixeira disse...

Querido,

Obrigada pelo texto e por ter ido ver nosso Ivanov. Fico realmente feliz com a forma que o espetaculo chegou ate você. Com Ivanov queremos nos desafiar pela descoberta de pequenas açoes e de poder encontrar onde a palavra se faz gesto. acho dificil isso tudo, mas fazemos o que podemos fazer e assim vamos conhecendo um pouco mais de nos mesmos e do teatro. Adoraria conversar mais contigo sobre suas impressoes.

Um beijo,

Fran

Danilo Castro disse...

Fran,

Eu ainda achei outras coisas, mas já estava com bastante sono ontem de noite e percebi que era melhor parar de escrever, por isso acabei não falando tudo, mas em geral é aquilo que escrevi. Quero assistir numa outra temporada, quando o Ivanov estiver mais transformado pelo tempo, assim como foi no Cantil, assisti umas 4 vezes em tempos diferentes e percebi coisas novas, que enriqueceram o meu olhar. A última vez foi no Emiliano Queiroz, e, pelo teatro ser pequeno e pelo fato de eu ter visto de perto, nas primeiras fileiras, vi os bonecos respirando. Aquilo foi inédito e interessante pra mim. Esfacelou mais ainda minha percepção. Bem... É isso. A gente vai conversando...

Um beijo e parabeniza o elenco por mim!

edivaldo batista da silva disse...

Hum... diferente seu comentário...

Danilo Castro disse...

Diferente quer dizer o que, Edvaldo?

Loreta Dialla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Loreta Dialla disse...

Boas reflexões Danilo! Espero que possamos conversar sobre. Essas são questões no teatro que merecem muito serem dialogadas.

Bjos.

PS. Posso postar o texto no nosso blog?

Danilo Castro disse...

Loreta, acho que o Levy já postou no blog do Diário Ivanov. Conversemos! Beijão!

Dois Rios disse...

Danilo,

Teu texto é uma coisa! As tuas palavras derramam-se pelo palco e me fazem querer estar numa platéia para testar a minha própria visão.

Creio que mesmo sem portas que nos impeçam de visualizar alguns momentos, eles acontecem dentro de nós de uma maneira muito particular. Cada um "recebe" a peça de acordo com a fresta da sua própria visão.

Acho que me perdi em explicações intuitivas, mas valeu a intenção, rs.

Admiro o quão bem você escreve, Danilo! Parabéns!

Beijos,
I.

Danilo Castro disse...

Inês,

Fico feliz com seu comentário. Acho que qualquer um pode sim comentar uma obra estética, basta ter sensibilidade para entender a vida em poesia. Acho que fomos agraciados com esse dom.

Beijo!

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, li o que partilhou no twitter referente aos deficientes [deficiência], que me atrai por mais, estou engajada nesta área, apenas não pude me posicionar sobre, espaço curto, assim como o blog. Portanto, qual o seu e.mail?

Abraços

Priscila Cáliga