sábado, 13 de agosto de 2011

Julie

Do portão, Julie olhava os seus pares passarem radiantes. Ela estava cansada como um cavalo de cargas. A diferença é que Julie não carregava peso, apenas rédeas continham seus cavalgar. Ser bibelô de um apartamento branco não lhe era mais possível. Ou era por conveniência. Ela não era leal, fugia à regra. Quando o portão deu brecha, num ímpeto de coragem, Julie correu pro mundo desnudo a sua frente como se aquele fosse seu último dia de vida e se entregou venturosa aos miasmas que por tantos anos quis conhecer. Virou latas de lixo, sujou-se de vida, passou fome, adoeceu várias vezes, curou poucas outras. Ela deixou de ser dela. Ela deixou de ser cadela, agora era uma cachorra doida de rua, enfeitiçada pelo cio acumulado dos anos. Desleal e sem dona, finalmente Julie descobriu a felicidade.

Danilo Castro
14/08/2011

7 comentários:

Dois Rios disse...

Oi, Danilo!

Muito bom! Gosto dessa pungência de palavras quando, no ápice da aspereza, emanam vida e, concomitantemente, a leveza que dela se pode extrair.

Sim, não há como ser feliz, ainda que por instantes, sem lambuzar-se de vida.

Beijo,
I.

Anônimo disse...

muito ruim! não desista do seu trabalho atual!

Danilo Castro disse...

Pena que o/a comentarista acima não se identificou e explicou melhor o posicionamento dele/a.

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, venho para ler-te e deparo-me com o comentário acima, e digo-lhe que fico a cada dia abismada, e entristecida com tamanha frieza de certas pessoas ao dirigir-se a seu (s)semelhante (s); ponto de minar todo um processo. Enfim, meu caro, siga adiante, pois em ti há uma gama de talento e um repertório letral ao qual coloca muitos de queixo caído; sua árvore possui frutos saborosos e saudáveis para os que sabem absorver dignamente e humildemente, a essência do entrelinhado de um olhar apaixonado pelas letras e as utiliza de forma nobre.

Abraços querido!

Priscila Cáliga

Danilo Castro disse...

Pri, mas sabe que eu nem fico tão triste assim. Na verdade é bom ouvir outros pontos de vistas, críticas sobre o que escrevo. Acho que o nosso espaço também deve servir pra fomentar isso, fica mais interessante, instigante. O problema é quando a crítica soa vazia. Obrigado pelas palavras de conforto. =]

Canteiro Pessoal disse...

Sabes querido Danilo, ouvir outros pontos de vista [crítica] de forma ética e responsável - construtiva pouco se absorve no global, tão pregado como promissor, deixando-me ficar por horas a pensar que a prevalência da frieza e distância do que é ser 'humano' é bem mais crescente do que o aperfeiçoamento do cárater; a palavra respeito e amor, que infeliz encontram-se em morada no esgoto. E uma das indignações eminentes na pele, no quanto o vazio [destrutivo], além de afetar o protagonista, o que se expôs, é uma praga que cresce absurdamente, e a epidemia afeta as mentes [a massa] com ações e reações no que diz respeito ao psíquico, social e afetivo - dirigir-se ao próximo.

Obs.: Desativei o comentário na postagem que mencionaste.

Abraços!

Priscila Cáliga

Danilo Castro disse...

É verdade, não é todo mundo que entende a crítica como um processo de evolução. Critiquemos, mas fundamentados principalmente na vontade de ver o próximo crescer.