sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Amolemos a navalha

Mychel Kayã, em Navalha na Carne - Grupo Imagens
A arte permite-nos que ressignifiquemos a vida. O teatro é aquilo que da vida colhemos disperso para transformamos em essência na cena. Talvez um dos maiores prazeres do artista seja inventar um mundo a partir daquilo que lhe é dito como mundo. O tempo da vida é sintetizado no teatro e a leitura daquilo que é vida se faz noutra dimensão, noutra proporção que só a arte permite.

Quando se parte do princípio de que aquilo é quase a vida ou a tentativa de se chegar o mais próximo disso, do submundo escatológico e visceral que Plínio Marcos tão bem expõe em Navalha na Carne, há um risco grande de se cair numa veracidade cênica pieguista, que transita entre a verdade e o artificial. É uma opção estética, não nos cabe julgar como erro, mas é uma opção difícil, tênue, que precisa ser reavaliada a todo instante para que a poesia não suma diante da verdade pura e utópica a que se deseja chegar. É preciso que entendamos a mimesis para além da imitação.

Com Navalha na Carne, o Grupo Imagens chega à terceira montagem da trilogia que começou com Abajur Lilás e Barrela, também de autoria de Plínio, mas há um diferencial que aos meus olhos tornou-se destoante em relação aos outros espetáculos do belo projeto trifásico que o grupo construiu. A crítica e a sensação inquietante que os finais dos dois primeiros espetáculos propõem, perdeu-se em Navalha. Depois dos bofetões e palavras ríspidas que tão aridamente atingem o público, sair do teatro sem o impacto da crítica que o texto exala foi um caminho que deixou de cutucar e atordoar o espectador para confortá-lo.

A dor, a perversão, o amor, a piedade, o ódio, o sexo e a possessão num mundo escatológico, doentio e marginal exposto em cena, num piscar de olhos, diluíram-se em meio ao público, que partiu do teatro satisfeito e sorridente. Esse atordoamento de outrora era algo que já havia se tornado uma assinatura nos outros dois espetáculos do grupo. Navalha não me gritou “Eu só vim incomodar”, não me atordoou em nada. Navalha me deixou surpreso pela ausência desse incômodo delicioso que até então havia sido muito bem proposto, uma pena.

O trabalho de Mychel Kayã é um destaque no espetáculo. Seria bom vê-lo mais vezes iluminando o jogo cênico. Sua figura ambígua é de extremo interesse aos nossos olhos, seu trabalho como Veludo é crível talvez principalmente porque pouco se vê a figura do ator por trás da persona. Vê-se alguém que vive, apenas, com a intensidade e entrega que a cena pede, sem resquícios do racional do ator se impondo sobre a atuação. Isso é muito bom.

A trilogia gerida por Edson Cândido através do Grupo Imagens é a prova concreta do potencial e da profissionalização dos grupos de teatro em Fortaleza. Que a pesquisa perdure com outras histórias, que surjam outras trilogias e que a identidade do grupo se consolide para que possamos nos incomodar sempre mais com uma navalha amolada e pronta para dilacerar-nos em carne viva.

Conheça o blog Plínio Marcos - Trilogia do Grupo Imagens.
Danilo Castro
09/09/2011

6 comentários:

th. disse...

Elogios na Internet sempre soam bobos e gratuitos, e estes já até devo lhes ter dito pessoalmente, mas tens acertado a mão sempre nos teus textos de crítica teatral, Danilo. Leio sem medo de spoilers exagerados, elogios afetados ou comentários desagradáveis. Na verdade, o contrário se faz, sempre vem com um texto muito bem estruturado e apontamentos inspiradores até. Dosa muito bem a coisa toda.

Com relação ao espetáculo, muito se perde por causa do espaço lá do bnb, há de se dar esse desconto. Revi o Barrela lá, e fiquei um tanto desapontado, pois sabia ser melhor e mais intenso que o que se passava ali. Decidi não ver o Navalha por causa disso. Esperar para ver noutra ocasião e lugar.

Danilo Castro disse...

Obrigado pelos elogios não afetuosos, esses são os melhores, Th. Acho q o CCBNB criou uma dinâmica de produção teatral que não se comporta mais naquele espaço. É NECESSSÁRIO URGENTEMENTE que eles revejam seus espaços e criem um novo lugar, um novo teatro para comportar as belas produções que passam por lá, mas que prejudicam suas composições cênicas devido às limitações físicas atuais.

Saymon Morais disse...

Boa Danilo, Boa!

Andrei Bessa disse...

não vi o espetáculo ainda.... mas me fez criar mais vontade de vê-lo!

Danilo Castro disse...

Saber que meu texto lhe instigou é massa, Andrei. Depois, se quiser expôr sua opinião aqui, fica a vontade. =]

Walmick Campos disse...

texto muito bem escrito mesmo!

mas n tive a oportunidade de ver o espetáculo ainda.

quero ver!!!

=D