sábado, 17 de setembro de 2011

A ópera das malandras

Espetáculo Ópera do Malandro - IFCE
Quando concebemos um objeto artístico, é necessário o tempo inteiro, de alguma forma, distanciarmo-nos para que possamos tentar analisar com o olhar do outro aquilo que construímos, analisar com o olhar alheio de espectador.  É um exercício árduo, porque chega um momento em que aquilo já nos embebe de uma forma tão intensa que fica impossível nos espremermos até que nos tornemos uma esponja seca novamente. E o olhar livre e leigo do espectador é tão apurado quanto o do artista profissional. Muito provavelmente o espectador pode não conseguir analisar aquilo em sua profundidade técnica, mas nos seus comentários mais simples e desprendidos, ele consegue encontrar aquilo que nós, artistas, melhoraríamos, mas que foi impossível pela cegueira que o processo criativo proporcionou ao criador. Por isso vem se tornando cada vez mais importante a realização de ensaios abertos e debates pós-espetáculos.

No clássico de Chico Buarque de Hollanda “Ópera do Malandro”, espetáculo de conclusão da primeira turma de Licenciatura em Teatro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), com direção de Thiago Arrais, há uma concepção muito evidente, mas os atores estão em cena tão livres de um jeito que chega a incomodar, porque não se está claro aquilo como opção, parece algo mal lapidado, sem o refinamento tão necessário para que se possa expor uma obra, ainda mais no palco italiano, onde certas convenções simples estabelecidas pelo próprio espetáculo, não foram cumpridas. O teatro não é feito de regras, definitivamente, mas cada concepção determina as suas convenções, quando se define as suas e isso não é cumprido, aí está cerne do problema.

Nós, público, vemos atores disponíveis, interessados na cena, interessados no seu trabalho como peça de uma maquinaria complexa, mas que funcionou com engrenagens meio empenadas principalmente porque é muito difícil para o ator se perceber sozinho em cena, para isso recorre-se à figura do encenador, tão importante nesse processo, sobretudo quando se envolve um elenco numeroso. O que percebi foram atores sedentos por um direcionamento cênico, pareceu-me que cada um estava numa vibe diferente, criando sua própria direção a cada nova cena, então se estabeleceu um caos, mas não daqueles estratégicos, elaborados e tão belos de se ver em cena.

O público precisa ouvir, um musical em que o público não escuta os atores cantando precisa ter a sonoplastia revista, um detalhe fácil de resolver. O público também precisa enxergar. Creio que a iluminação (Paulo Victor Aires e Elano Chaves) deve ser novamente estudada, apesar de que a atmosfera penumbrosa e suburbana de gueto carioca foi trazida muito bem, mas as variações são poucas diante das muitas possibilidades, por isso a luz acabou se tornando mero apetrecho de ambientalização, pouco sendo utilizada como elemento comunicativo e estratégico para as cenas. 

Pra mim há também um dilema simples e mal resolvido nessa história carioca encenada por cearenses. Algumas coisas me incomodaram nesse estilo que ora era genuinamente arretado, ora era genuinamente da gema. Pareceu-me uma concepção que precisaria de uma adaptação mais próxima de nós, do nosso teatro, do nosso gueto, para que não ficasse uma peça cearense travestida de carioca ou vice-versa. Pra mim ficou uma identidade mal assumida ou a identidade local ficou mal evidenciada, não sei.

Por fim, sem penumbras, parabenizo a todos que trabalharam no espetáculo. Sinto-me parte disso porque também vivenciei essa fase de encerramento de curso do IFCE outrora e tenho plena ciência de todas as dificuldades para se levantar um espetáculo desse porte numa turma de conclusão. Vale ressaltar também que as malandras do espetáculo são o brilho do trabalho. Elas roubam a cena, ainda que sem o senso de direção que afirmei no início, mas merecem destaque pela evidência que ganham naturalmente, sem nenhum esforço. Todas, umas mais a frente, outras menos, mas principalmente as malandras Terezinha (Liliana Brizeno), Margot (Marina Brito), Vitória (Ana Negreiros) e claro, Geni (Wellington Saraiva), a malandra mais fogosa.

Visite o site do espetáculo Ópera do Malandro!
Danilo Castro
17/09/2011

5 comentários:

Felipe Sales disse...

falou pouco, mas falou bunito! é isso mesmo!

wellington saraiva disse...

Boas suas considerações amigo...Realmente muitas coisas deveriam ser revistas.

Dyhego Martins disse...

‎Danilo Castro, vc consegue fazer a gente se deliciar nas suas palavras... Temos muito a falar, a discutir, trocar... Parabéns pelo texto, pela fala!! Abração.

Walmick Campos disse...

texto muito bom, Danilo...
deu mais vontade ainda de ver, huhuhu...
tinha me programado para ir na sexta passada e não deu certo.
certamente o farei na próxima.

abraço

e sucesso a vc e aos Malandros

Danilo Castro disse...

Olha aí, Wal. Bom saber que meus textos andam despertando a vontade de assistir do pessoal.