sábado, 15 de outubro de 2011

Anacrônico Otelo

Ana Paula Prudêncio em Otelo, do Coletivo Cambada*
Trabalhar com teatro é conseguir domar o tempo, utilizando-o e ressignificando-o nas suas mais diversas formas de expressão. O ritual teatral acontece numa experiência para além da cronológica e cotidiana vida. No momento em que entramos em contato com a cerimônia onde público e artistas compactuam do fenômeno artístico, o que acontece nesse entremeio do que é apresentado e o que é recebido, isso sim é o teatro, uma nova realidade que nós artistas e espectadores temos o poder de criar.

Com pouco tempo de carreira, o jovem grupo de jovens mostra-se sólido, com maturidade suficiente para conquistar gregos e troianos devido à propriedade evidenciada no espetáculo. Mais de um ano de processo foi essencial para que o coletivo atingisse esse resultado. Como Yuri Yamamoto disse certa vez, temos hoje em Fortaleza uma “Cambada de talentos” sedentos pela expressão e parece que o grupo pariu uma bela contradição estética para expor o pensamento de Shakespeare.

A presença de Joca Andrade (diretor), com sua experiência, concatenou todo aquele talento que talvez estivesse dissipado em tanto potencial nas figuras de Raquel Mendes (Rodrigo e Bianca), Jonathan Pessoa (Otelo), Andrei Bessa (Cássio), Ana Paula Prudêncio (Emília), Thalita Lopes (Desdêmona) e Walmick Campos (Iago). Extrapolando as próprias possibilidades, o grupo encontrou suas rédeas.

Otelo - O Mouro de Veneza, de William Shakespeare, ganhou nova roupagem no trabalho do Coletivo Cambada, que criou um clássico fora do tempo. É um texto tradicionalíssimo, numa estrutura dramática conservadora (apresentação-coerência-nó-clímax-desenlace) e que nos leva à catarse aristotélica muitas vezes negada ou repudiada pelo teatro contemporâneo. Isso porque às vezes “falta um domínio do teatro tradicional. As pessoas experimentam sem conhecer o que veio antes, então fica um pouco falso, apenas ilusoriamente experimental. Há uma preocupação em ser original que fica superficial”, disse Bárbara Heliodora numa entrevista para a Folha.

É muita pretensão tentar criar um épico sem característica dramática. Precisamos lembrar que o texto dramático muitas vezes também se mostra épico, narrativo, distanciado, crítico (o coro das tragédias ou o alívio cômico dos textos medievais podem provar isso) e vice-versa. O distanciamento não surgiu com Brecht, o teórico sistematizou seu uso como técnica e o Cambada soube aproveitar essa sistematização dentro do conservadorismo e convenções dramatúrgicas encontradas no texto shakesperiano. 

Além da ressignificação estética, houve uma tradução textual (Andrei Bessa e Walmick Campos) em que a essência do pensamento de Shakespeare mostra-se sintetizada na versão Cambada, numa linguagem coerente e simples. O grupo soube descartar o excesso de um rebuscamento e sofisticação textual característicos do autor para se aproximar ainda mais do público através do que realmente importa: o amor, o ódio, o ciúme, a insanidade, a pureza, o mau-caratismo, o racismo e o sexismo, apesar de achar que os dois últimos temas que citei ainda mereçam ser evidenciados com posicionamentos claros do grupo pela pertinência social dessas discussões. O espectador abandona a vivência teatral sem se questionar mais profundamente sobre essas últimas questões. 

Analisemos: o texto de Shakespeare é idealizado, define e oprime a mulher-amélia com o papel de Desdêmona (Thalita Lopes), titulando-a como padrão de mulher perfeita, além de associar o “mouro”, o mocinho, ao caráter mais brutal e animalesco do homem. São posicionamentos do autor. Para a época, talvez o racismo literário (e não como uma opção combativa) se justificasse, mas nos dias de hoje, apenas replicar o caráter sexista e o preconceito racial sem contestá-lo pode se tornar um problema. Um agravante é o uso do termo “negro”, equivocadamente substituído por “afrodescentente”, em tom sarcástico (porque há a ideia de que dizer “negro” é preconceituoso), rompendo a temporalidade medieval da obra com um “caco” e confirmando ideias racistas. Não que Iago (Walmick Campos) não possa ser racista. Pode e isso é essencial para evidenciar seu caráter, mas ele é racista num contexto em que o racismo não é trabalhado, sendo assimilado como algo natural. Isso é o que não pode acontecer.

O termo “afrodescendente” é vinculado à valorização cultural das origens da população negra brasileira e amplamente defendido hoje na sociedade, mas não como substituição do termo “negro”, que é encarado pelo movimento social também como uma afirmação de identidade e defesa de direitos. No teatro ou em qualquer obra, podemos cristalizar ideias opressoras por pura inocência, entretanto quem produz arte deve ter responsabilidade social com a sua produção. Não sei como propor agora soluções para se trabalhar essas questões sem didatismos, mas o grupo apenas replicou o texto sem contestá-lo na sua montagem.  Shakespeare não se mostra suficiente na discussão porque estamos noutro tempo, não podemos atribuir a responsabilidade ao mesmo e simplesmente dizer “mas esse é o texto”. Nosso papel também é contrapor.

Quando pensamos nas tradicionais e essenciais ações físicas, conceitualizadas por Stanislavski, vemos uma tradução delas numa composição coreográfica que exprime o interior dos personagens de maneira poética e extracotidiana, mas que ultrapassa a codificação puramente técnica e atinge um caráter visceral, entregue de corpo e alma à cena. A preparação corporal (Jacqueline Peixoto e Jonathan Pessoa) foi fundante nesse processo.

Otelo mostra atores totalizados (sonoplastas e iluminadores) no seu processo de feitura e execução, atores criadores e colaboradores de um mesmo ideal consensuado pelo grupo. É o teatro cearense evidenciando-se com um espetáculo qualificado, profissional, inovador, de proposição. Afora o debate, que deve ser intensificado, e os momentos aqui-acolá em que se perde a verdade da interpretação de alguns atores, creio que o espetáculo está pronto para ser aclamado anacronicamente por longas datas e vivenciado por inteiro pela população cearense e, quiçá, nacional.

Danilo Castro
15/10/2011

Conheça o site do Coletivo Cambada!

*foto de Levy Mota

6 comentários:

Felipe Sales disse...

Muito boa a critica. Nao tinha atentado para toda essa questao do termo afrodescedente... na verdade acreidto que plateia e artistas precisam estar mais por dentro de abordagens como esta e outras tantas. devemos aprender! mas tambem acredito que o cambada so assim o fez porque cabe ao IAGO pela sua personalidade, mas uma vez proferida na boca dele no tempo hoje entra em cena tambem tudo o que voce disse na critica. eh um ponto que precisa ser revisto mais pela responsabilidade social que isso implica, do que por uma arranhura no espetaculo do Cambada.
No mais... belas palavras. e o melhor, fundamentada. o que nao temos visto nos jornais locais.

Danilo Castro disse...

Massa, Felipe. O meu medo é de não ter sido claro no posicionamento porque tudo isso é bem delicado e o assunto exige uma compreensão mais ampla mesmo. O importante é que possamos discutir. Sei também que o Cambada é bastante crítico, com profissionais compromissados e que isso é um detalhe, mas bem importante, de um espetáculo lindo. Obrigado pela contribuição!

Herê Aquino disse...

Parabéns, Danilo, pelos seus escritos. Olhar aguçado que consegue penetrar o fazer teatral com análises que contribuem para provocar no público a curiosidade pelo espetáculo. Essa deveria ser, a meu ver, a verdadeira função da crítica: contribuir para o debate de idéias. Seu olhar vai contra análises descontextualizadas e irresponsáveis que ditam o que o público deve ou não assistir. Michaslski, em um de seus livros, não lembro agora o nome, faz uma crítica dizendo que algumas obras são devastadas nas páginas dos periódicos especializados, de forma injusta e sem uma argumentação coerente. O crítico se posiciona, nesse caso, como aquele que deve dizer vá ou fuja, para orientar o leitor indefeso. Parabéns, portanto, por ir ao contrário dessa tendência que parece estar se alastrando em nossos meios de comunicação.

Danilo Castro disse...

Nossa, Herê. Acho mesmo que podemos analisar o teatro para além de achismos e venho tentando fazer isso com esse meu espaço que tenho tanto carinho. Faço com a maior honestidade e sem ego nenhum se sobrepondo sobre a análise, até porque minha experiência com o teatro ainda é bem curta e não tenho intenção de desqualificar ninguém. Acredito que o teatro está para além da cena, nos ensaios, na produção, na formação, na discussão. Obrigado. Fiquei agora sem palavras.

Walmick Campos disse...

muuuuito obrigado por dar o seu retorno ao nosso espetáculo.
estamos e estaremos sempre abertos aos posicionamentos externos.

sobre essa questão de temáticas, tudo parte da escolha do que desejamos dizer com maior intensidade.
certamente pensaremos ao partir do por você exposto; contudo, sempre atendendo a linha de raciocínio que tivemos ao levantar o espetáculo.

algumas questões são importantíssimas e devem ter a arte como um caminho de levar à criticidade. no entanto são muitas essas questões, o que as vezes faz com que tenhamos que priorizar uma ou outra, principalmente no que diz respeito a uma adaptação, e no intuito de propor um olhar sobre a obra que nem sempre é o mais recorrente em demais montagens.

Nos manteremos atentos,
e mais uma vez, muito obrigado!

Danilo Castro disse...

Pois é, Wal, num texto que tem tanta coisa, é difícil não focar. Focar é essencial para o andamento do todo. O texto é basicamente sobre ciúmes e sobre a vilania do Iago, mas ainda acho que há sim problemas nos temas transversais, por isso é anacrônico. É fora do seu tempo e, hoje, as coisas não se justificam bem, afora o binômio ciúme-vilania. O racismo e o sexismo não são trabalhados, eles são expostos, apenas, e assimilados como naturais, por isso a minha contestação. Se em toda novela eu ponho negros em papeis subservientes, por exemplo, há racismo, mas isso não é trabalhar o racismo. Se eu coloco Desdêmona como a mulher perfeita, mesmo ela sendo submissa oprimida, por mais que nem ela se dê conta disso, não estou trabalhando o machismo ou o sexismo, estou apenas mostrando-o e, infelizmente, permitindo a assimilação dos mesmos como naturais. Creio que acaba sendo um caminho contrário, um caminho de promoção dessas mazelas das relações humanas. Mas repito, não sei agora como propor algo, é preciso uma compreensão bem ampla para se sensibilizar a essas questões. Enfim, acho tb que preciso ler o texto com calma para fazer uma equiparação mais embasada. Abraço! =]