domingo, 23 de outubro de 2011

Arte para virar o mundo ao avesso

Danilo Castro em cena do curta Rua de Brilhantes
Um ator que não vive a vida, não ganha subsídios para reproduzi-la cenicamente. Um ator que não se desamarra dos seus estigmas, oferece-se limitado à arte. E, definitivamente, a impossibilidade de transgressão tem caminho contrário ao da criação. Como ser artista sem se doar por completo? Como fazer arte sem pensar na sua função transformadora? Com o decorrer dos meus trabalhos com o teatro, venho percebendo quão importante é pensarmos na arte para além do entretenimento, pensarmos nela como ferramenta de combate por um mundo mais justo. E não é necessário um discurso panfletário para isso. Basta que sejamos cidadãos, críticos, com pensamentos coerentes, com respeito às diferenças. 

Esse caráter social naturalmente veio se revelando em Revoar, espetáculo em que enfrentávamos a violência sexual contra crianças e adolescentes, em Uma rapadura, 3 atores & uma História, onde fazemos uma campanha de incentivo à leitura, em O Pagador de Promessas, onde o sincretismo religioso e a crítica à imprensa sensacionalista foram temas evidenciados no texto do Dias Gomes, dentre outros trabalhos que me dão orgulho como artista.

Os grupos Coletivo Cambada e 3x4 de Teatro trabalharam conjuntamente produzindo curtas-metragens para o 5º For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, que tem realização do Centro Popular de Cultura e Ecocidadania (Cenapop) com apoio do Governo do Estado do Ceará, da Prefeitura Municipal de Fortaleza através da Secretaria de Cultura de Fortaleza, Banco do Nordeste do Brasil, Casa Amarela Eusélio Oliveira e Universidade Federal do Ceará (UFC). 

Assim nasceu o “Rua de Brilhantes”, um curta que fala de sonhos, que mostra os desejos de travestis que só tiveram a rua como oportunidade de sustento. Sonhos calados por uma sociedade que as oprimiu em todas as fases de suas vidas. Como exigir que elas saiam das ruas, se ninguém dá emprego a uma travesti? Como exigir que elas estudem se, na prática, elas não são aceitas em escolas? Até mesmo em ambientes acadêmicos, onde há um falso cosmopolitismo, elas são alvo de discriminação, como me disse Luma Andrade, primeira travesti com doutorado do Brasil, quando tive oportunidade de entrevistá-la no início do ano. Como querer que sejam delicadas e sociáveis, se a igreja e a comunidade as excluem ou taxam-nas de anormais? Se elas são violentadas verbalmente, agredidas fisicamente e muitas vezes só têm a noite como morada? Nada mais natural do que ter a agressividade como instinto de defesa. É uma relação de causa e consequência, não de vilão e vilania.

O dever de visibilizar os LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) não pode ser visto como um incentivo à perversão ou ao “homossexualismo”*, absolutamente. A orientação sexual e a identidade de gênero independem de raça, religião ou classe social. Temos que pregar o respeito e o convívio com as diferenças, por isso a importância de visibilizar os oprimidos. Viver por uma noite a Virgínia Lispector (nome da personagem) era algo inimaginável pra mim até que me surgisse a oportunidade. O mais fácil era dizer não. Não por preconceito, mas por não me achar suficientemente capaz de carregar a alma densa de uma travesti em tão pouco tempo. E não é fácil. Sair na rua carregando no corpo o signo da diferença me tornou um bicho para apreciação, motivo de chacota ou apetrecho sexual. Imagine quantas mil coisas diferentes passaram na minha cabeça. Sentir-me travesti foi um baque, eu achava que sabia de todo o preconceito que elas vivem, mas depois de me passar por uma, entendi pelo menos um pouco que é bem mais complexo tudo isso. A prostituição acaba sendo vista quase como uma fase obrigatória na vida de uma travesti. Mas sabe o que elas mais querem? Casar com um homem bom, ter filhos, estudar, ter uma profissão digna. Coisas que a maioria das mulheres desejam. Mas esses sonhos simples são praticamente impossíveis quando se tem uma identidade de gênero diferente do sexo biológico, quando se tem um comportamento diferente daquilo que é imposto como padrão.

Mas com tantos bons atores para fazer esse papel, por que eu? Bem, a concepção proposta é de uma travesti que “canta” em Libras (Língua Brasileira de Sinais), então logo lembraram de mim devido a minha fluência no idioma. Tomei isso como uma missão, era impossível negar. Viver esse trabalho me transformou. Agora desejo que a exibição desse curta seja capaz, pelo menos um pouco, de transformar o público também. Quando resolvi ser artista, nunca imaginei que isso poderia ser uma ferramenta valiosíssima para virar o mundo ao avesso, atordoar nossas próprias convenções, hoje não consigo não pensar nisso.

Exibição: 29 de outubro, 18h, na Casa Amarela – Av. da Universidade, 2591, Benfica. - Entrada Franca.

Direção de Andrei Bessa
Danilo Castro como Virgínia Lispector
Assistência de Direção de Silvero Pereira
Argumento de Gyl Giffony e Andrei Bessa
Operação de Câmera por Luciana Gomes
Maquiagem e caracterização por Bernardo Vitor
Trilha sonora de Ayrton Pessoa (Bob)
Supervisão de Valdo Siqueira e Luciana Gomes

Para finalizar, indico o vídeo abaixo de um artista plástico francês, JR, que descobriu na arte uma forma incrível de intervir no cotidiano e, de alguma forma, transformar a vida de muitas pessoas. 




*o termo "homossexualismo" foi abolido e deve ser substituído por "homossexualidade", já que o sufixo "ismo" também é utilizado para designar patologias.

24 comentários:

Barbara Figueiredo disse...

demais! adorei o post e dia 29 tô lá :}

danimelo disse...

porra! que post massa! Coragem, viu Danilo Castro! Sei que o preconceito com a Virgínia está para muito além das cantadas ou preconceito de alguns ignorantes na rua.. tem um cara por aí que diz que se deve ter cuidado com quem diz que a arte não deve propagar idéias políticas, esses tais se referem a idéias políticas contrárias a suas.

Danilo Castro disse...

Valeu, Dani e Bava, apareça no sábado. =]

Templo disse...

O termo mais adequado seria Homoafetividade já que as pessoas homoafetivas são estigmatizadas como se só soubesse ou servissem para o sexo e não para o amor

Danilo Castro disse...

Templo, creio que a homoafetividade deva ser compreendida como um braço da homossexualidade e não um termo deve substituir outro. Bem como diz-se heterossexualidade. Não acho que uma coisa invalida outra ou que o termo pode ser preconceituoso, descartando as relações afetivas para relacionar o termo apenas a uma conotação sexual. Enfim, são muitos termos e eles são mutantes. As sociedades sao assim. Vou me informar. Valeu pela contribuição.

Luciana Gomes disse...

Danilo! Obrigada pela dedicação, esse é alimento para aqueles que caminham entre as idéias e produzem através da arte. Meus Parabéns à todos os envolvidos com esse marcante projeto.


Se Essa R. Fosse Minha_______

Rafael Mesquita disse...

Estou com orgulho de vc, do que li e vi, Danilo Castro! Estar na pele do "outro" é uma das vivências que só o ator pode chegar a desfrutar...creio eu. Com o seu texto, com a sua história, lembrei de Paulo Freire, que coloca que o processo e...ducativo envolve estar no lugar do outro e trabalhar com ele a situação de opressão, sendo este um caminho para a plena libertação de ambos. Que nós, seres humanos, nos libertemos do machismo, do sexismo, do racismo, do preconceito contra pessoas com deficiência, da homofobia e de tantos outros estígmas, rumo a uma sociedade da tolerância, do respeito e por que não da felicidade!

Andrei Bessa disse...

Texto belíssimo.... é bom saber que fizemos um trabalho bacana (mesmo que não tenha sido exibido ainda), o trabalho, a experiência já valeram a pena.


sobre os termos... concordo sobre homosexualidade e homoafetividade... eles podem ser usados de formas diferentes e ainda não foram estabelecidos critérios exatos para ser usado.... eu prefiro usar homoafetividade para falar de relacionamentos e homosexualidade para falar em outros termos....


Enfim.... agora sobre Homosexualismo, eu acho que é pura ignorância do movimento LGBT.... *ismo não é e nunca foi usado para termos patológicos.... Cristianismo seria doença de quê? (isso sem falar de Comunismo, Capitalismo e todas os ismos ao nosso redor)

o que acontece é: Homosexualismo era o termo que estava na lista de doenças da Organização Mundial de Saúde... e por isso, não se deve ser usado... para não haver confusão. Mas ismos não são doenças.

camila chaves disse...

Parabéns pela postagem, parabéns pelo trabalho que, embora eu ainda não conheça, já me alegra pelo processo.

Também sou do acreditar que a arte se posiciona, se reivindica e serve para tocar, mudar as pessoas e as coisas. Quanto potencial transformador há na arte. Espero que muitos mais despertem e façam uso disso. Vou te assistir.

Um abraço,
Camila Chaves

Felipe Sales disse...

Parabéns!!!!
Deve ter sido o bom trabalho. Quando foi isso? Quero ver esse filme. Quando será exibido? Merdas cinematográficas!

Danilo Castro disse...

Andrei, eu acho que é preciso cuidado ao generalizar como "pura ignorância do movimento". Ismo é um sufixo que também é designado para patologias, mas não é somente isso, se não Jornalismo ou todas as palavras que terminam com esse sufixo estariam com essa conotação. A questão é, como vc mesmo falou, "para não haver confusão". Foi só um processo de melhoria do termo, assim como muitos outros.

Danilo Castro disse...

Felipe, a exibição é dia 29 - 18h, na Casa Amarela, ali perto da UFC.

Danilo Castro disse...

Camila, eu fico super feliz quando pessoas como vc (que não conheço), comentam no meu blog. Acho isso interessantíssimo. Ver como as postagens e nossos manifestos podem estabelecer relações (impossíveis até então) entre pessoas que pensam de maneira parecida, ou diferente, sei lá. Apareça no dia 29. Obrigado pela contribuição!

Elba Cunha disse...

Achei incrível tudo o que você escreveu. E que bom que você ainda tem um blog. Procurei pelo seu blog antigo e já tinha ficado triste por ele ter sido desativado...pensei que você tinha parado de escrever. Não o faça, viu? Você tem dons e deve expressá-los, sempre. Sucesso! Beijo.

Elba Cunha disse...

Achei incrível tudo o que você escreveu. E que bom que você ainda tem um blog. Procurei pelo seu blog antigo e já tinha ficado triste por ele ter sido desativado...pensei que você tinha parado de escrever. Não o faça, viu? Você tem dons e deve expressá-los, sempre. Sucesso! Beijo.

Ah, e esse é o meu blog!

Elba Cunha.

Camila Brandão disse...

Danilo, depois de ler seu texto fiquei alguns minutos paralisada...

Já sabia que vc escrevia e era um ótimo ator... mas, vc se superou na escrita e na ousadia de ser um travesti no teatro e na rua... fiquei tb triste pq não vou sta ai pra ver este belo trabalho... qdo vc vai fazer turnê pelo Brasil... e vai passar por Brasília???
beijos da sua eterna admiradora do seu trabalho!

Danilo Castro disse...

Camila, acho que vai ser algo bem simples e belo. O que mais valeu foi a experiência. Posso depois te mandar uma cópia de presente. =]

Grupo 3x4 de Teatro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Grupo 3x4 de Teatro disse...

Danilo, a arte sem desafio torna-se vazio. É bom quando a danada mexe com a gente, e principalmente quando com propósito mexemos com ela. Estou querendo muito ver o resultado do vídeo, pois todo o processo tem sido valoroso. Te parabenizo pela coragem. Abraço grande, Gyl.

Domitila Andrade disse...

Querido, tendo tempo de fazer a leitura somente agora. Reafirmo que já lhe disse: você tem uma fluência de ideias e e um estilo de escrever que envolve quem o lê. Dessa vez não foi diferente, pelo tema, pela sensibilidade com a qual você o trata, e ainda mais pela curiosidade que me acometeu de vê-lo belíssimo travestido de Virgínia. Como não pude ir ao Festival, aguardo ansiosa (e com promessa de compartilhá-lo) o link no youtube. Mais uma vez, parabéns, pelo texto e pela coragem.

Danilo Castro disse...

Tila, isso é tão instigante pra mim! Obrigado pelas palavras. Escrever sobre o q a gente se identifica é um plus a mais. Comigo e a arte acontece isso. Beijo!

Thiago Ya'agob disse...

Danilo,

que trabalho excelente, rapaz.

Quanto tempo não passo por aqui. E quando retorno ao seu blog me deparo com tanta novidade de alma. Gostaria de assistir ao curta. Você tem o link?

No livro A Via Crucis do Corpo Clarice aborda o tema Travestis. Conhece esse livro de contos dela?

Ontem eu li uma reportagem sobre os Eunucos na Índia. Que me embrulhou o estômago. Cerca de 15 eunucos foram mortos numa reunião por conta de um suposto incêndio. Mas não foram as mortes que me tomaram a alma, foi a reflexão que tive: a maioria dos eunucos na índia não os são porque desejaram ser - mas por conta do atraso daquela sociedade, muitas famílias acabam por tornar seus filhos, ainda crianças, eunucos. Fiquei imaginando o quão terrível deve ser e é: um cara ser tratado como mulher desde pequeno, se ver num corpo de mulher (pois seu órgão sexual fora "removido" sabe-se-lá-de-que-forma quando era criança), sem reação de virilidade, e TER que ser mulher, mesmo não tendo desejado isso. Um soco no meu estômago. Imagino a alma dessas pessoas.

...

Thiago Ya'agob disse...

E o que foi que aprendi na terra, bastando-me para isso abrir um pouco meus olhos estreitos? Vi que o problema da prostituição é obviamente de ordem social. Mas, atrás dele, também, há outro profundo: é que muitos homens preferem pagar, exatamente para não terem afeto nem sentimento, exatamente para humilharem e serem humilhados. A fuga ao amor é um fato. Paga-se para fugir. Até homem casado gosta, às vezes, de sustentar a casa para transformar a esposa em objeto pago.

Clarice Lispector
Escândalo Inútil

Danilo Castro disse...

Thiago, infelizmente eu não tenho o link pq o curta Rua de Brilhantes não vai ser disponibilizado via web, infelizmente, pq muitos festivais têm uma burocracia e ele foi feito para circular em festivais. Obrigado pela contribuição sobre A via crucis do corpo, de Clarice. Tenho esse livro sim, é ótimo. E não sabia da existência dos Enucos, deve ser algo estranhíssimo e interessante. Vou ver se tem algo na web.

Até mais!