sábado, 29 de outubro de 2011

Do cotidiano à poesia

Espetáculo de dança Alaksa
Alaska, espetáculo de dança da coreógrafa argentina Diana Szeimblum, silenciou-nos até o mais possível íntimo. Era impossível não se deixar fisgar. Quatro bailarinos e dois músicos preencheram o maestroso palco principal do Theatro José de Alencar na 8ª Bienal Internacional de Dança do Ceará. Mas o que havia de diferente no trabalho do grupo se a iluminação era tão simples, se o cenário não passava de algumas poucas cadeiras numa arena branca, se os figurinos eram tão comuns que nem pareciam figurinos? Bem, quando Grotowski, famoso teórico teatral, clama “Em Busca de um Teatro Pobre”, é disso que ele fala. De um trabalho onde o foco está nos atores, bailarinos, performers ou artistas cênicos. Quando se cai na armadilha das pompas cenográficas e nesse embelezamento ludibrioso, é possível que se perca a essência do espetáculo. Em Alaska, o interessante é perceber que os pontos mais triviais das relações humanas começam com simples trocas de olhares e pequenas ações, mas transcendem em poesia, extrapolam as barreiras dos clichês da dança contemporânea e, o melhor, não precisam de mais nada além de excelentes bailarinos em cena, virtuosos, entregues à dança como se aqueles momentos lhe fossem os últimos momentos possíveis para exercerem seus ofícios. O espetáculo lembra em alguns momentos o trabalho da bailarina alemã Pina Bausch, famosa pelo conceito “Tanztheater” (Dança-Teatro), onde seus bailarinos dançam a vida cotidiana e brincam com a repetição de sons e movimentos. A Dança-Teatro é a dança com efeito de teatralidade. No trabalho de Pina, e também no de Diana, isso é revelado na expressividade de movimentos que oscilam entre cotidianos e abstratos, fortemente marcados pela repetição de gestos dentro de um contexto narrativo. Nós, atores e atrizes, temos que vivenciar mais a dança, não só assistindo espetáculos, mas fazendo oficinas, cursos, treinamentos, porque o corpo consciente e preparado para a cena muitas vezes fala bem mais que a voz no nosso típico "teatrão".

Saiba mais sobre a 8ª Bienal Internacional de Dança do Ceará

Danilo Castro
29/10/2011

Um comentário:

Fátima Muniz disse...

Boas palavras e observações. Esse espetáculo me chegou muito forte em mim, adentrou. É pura poesia.
Abraço,

Fátima Muniz.