terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ópera contra a barbárie

Espetáculo Ópera dos Vivos, Cia. do Latão
O discurso brechtiano é didático e explícito, outras vezes se mostra ambíguo e capaz de estrategicamente ofuscar a nossa percepção do que é certo ou errado, do que deve ou não ser feito para então revermos nossos conceitos diante da obra. O que talvez inicialmente me causou enfado é justamente o excessivo discurso claramente ideológico, político, bem articulado, crítico e panfletário. Sim, esta é a palavra. Queria eu algo que não me entregasse duma vez a verdade das coisas, queria eu quebrar a cabeça e me obrigar a encontrar os porquês da poesia. 

Foi um posicionamento imaturo, porque eu já devia estar ciente de que as mais belas flores não desabrocham num piscar de olhos. Aquele incômodo inicial diluiu-se a partir do momento em que o ditatismo pieguista metamorfoseia-se numa crítica voraz contra a mercantilização da arte, ganhando uma propriedade incrível com o passar dos atos até que não me houvesse mais espaço para além daquilo que aconteceu entre nós, os vivos, e a ópera.

Ópera dos Vivos, último espetáculo da Cia. Do Latão, com direção de Sérgio de Carvalho, é um grito rasgado para o mundo, um trabalho que se mostra quase como uma lição de casa para qualquer artista, ou melhor, para qualquer cidadão que acredita na luta por uma sociedade democrática. Não dá para sair do teatro sem pensar na sua real função, sem pensar na necessidade de clamar por uma arte onde o político seja tão essencial quanto o estético, onde a crítica seja tão fundamental quanto o entretenimento. Brecht não era avesso ao teatro recreativo, pelo contrário, ele acreditava no divertimento como uma ótima estratégia para fisgar ainda mais o seu público e propagar o seu “teatro de ideias”.

São quase quatro horas de espetáculo numa mistura caleidoscópica entre teatro, música, cinema e televisão, onde somos instigados a agir, a acordarmos da apatia que o mundo nos impõe, a ficarmos vivos. A Ópera é um banho de água fria, é desconfortável, é avessamente catártica, é sarcasticamente engraçada, é aquilo tudo que inicialmente não imaginei que fosse. É a Cia. do Latão se consolidando ainda mais com seu método esfacelador de aparências. 

Cutuquemo-nos agora. De que serve a arte? Por que ser artista? Para ganhar dinheiro? Por que não? Mas quando não há propósito além desse, encontramos o ponto chave do problema. A arte, com seu caráter subjetivo e humano, deve ser estratégia fundamental para enfrentar a ordem vigente. É desonesto imaginar que produtos são assimilados como arte simplesmente porque entretêm na mesma proporção em que alienam. 

Ópera dos Vivos é a teatralização do manifesto “Arte contra a barbárie”, encabeçado pelo grupo ao lado de diversas outras companhias de teatro em São Paulo, que lutam contra a cultura inserida no “mero comércio do entretenimento”. A ação resultou na criação de uma lei municipal de incentivo à pesquisa teatral de grupos paulistanos. Mas poucos dias antes da estreia em Fortaleza, Sérgio de Carvalho, em sua aula inaugural da Escola Pública de Teatro (Vila das Artes), disse: “Temos que lutar contra o mercado”. Eu me perguntei: “Qual?” porque a realidade do teatro no Ceará é bem diferente da realidade do teatro do idealizado eixo RJ-SP.

Talvez pelo fato de mal haver investidores em teatro, por não haver celebridades fazendo espetáculos, o teatro cearense mostra sua peculiaridade, ainda mais agora, diante da ascensão das escolas de formação no estado. Pela ausência desse mercado, nosso teatro construiu-se pouco a pouco alternativo, crítico, político, porque quem faz teatro no Ceará definitivamente não está buscando dinheiro, faz-se pela chama artística que arde em profissionais interessados em dialogar com o mundo e os seus conflitos, profissionais que lutam para sobreviver da arte, mas que a tem como uma filosofia para além do próprio sustento. O VII Festival de Teatro de Fortaleza acertou no alvo ao visibilizar teatro local para a população e trazer a Cia. do Latão como exemplo para os nossos grupos naturalmente colaborativos e que vem se profissionalizando cada vez mais. Isso é conceito.

Visite o site da Companhia do Latão.
Conheça o site do VII Festival de Teatro de Fortaleza e veja a programação completa.


Danilo Castro
12/10/2011

12 comentários:

Walmick Campos disse...

Texto bacana
Não consegui entrar para o espetáculo, mas tive a oportunidade de assisti-lo anteriormente.
Concordo com toda a qualidade do espetáculo, e com o acerto do Festival de Fortaleza em trazê-lo.
Mas devo confessar que o excesso de ideologia panfletária, que você cita, me cansou um pouco. Aqui digo que cansar é diferente de incomodar, entende? Acho que conseguiriam provocar os espectadores sem necessidade de tempo tão logo. Falo especificamente do segundo ato, o filme.
QUEIJOS E ABRAÇOS

Danilo Castro disse...

É, Wal, tb fiquei cansado, principalmente no primeiro ato, mas aos poucos as coisas foram se justificando. Pra mim, o discurso foi se fazendo necessário daquela forma. Ah, e hoje finalmente vou ver Otelo. #ansioso

Walmick Campos disse...

As coisas se justificam de mais! de mais mesmo! O que é o último ato?! Maravilhoso! Mas acho que o poder de abreviação pode ser uma virtude. (rs) Impressão pessoal. Até OTELO.

Rafael Mesquita disse...

interessante! deu vontade de ver, só fico pensando nas longas 4hs. Consegui entender um pouquinho do que está sendo processado hj no teatro cearense. N dá mais pra ver aqui, neh?!

Danilo Castro disse...

É, Rafael, agora é esperar pra ver quando a Cia. do Latão volta, mas não deixe de assistir o nosso teatro. Opção não falta. =]

Felipe Sales disse...

Isso tudo é o espetáculo? Nossa, fiquei ainda mais com vontade de ver, que só não o fiz porque estou num curso. Parabéns pela crítica.

Natalia Régia disse...

Adoro o Latão, sempre que tenho oportunidade vejo os seus espetáculos e todos são muito bons.
A Ópera dos vivos tem atores excelentes e afinadíssimos. Mas o espetáculo cansa, tem uma hora que você não entende direito e ás vezes os links de um núcleo pro outro ficam dificeis.
Esse tema panfletário, ditadura, mercantilização se repete muito a ponto de a mensagem não chegar pra mim de modo tão claro e me tocar. No último ato é que as coisas se esclarecem um pouco. É o melhor.
E outra, é muito fácil uma pessoa que é professora universitária da USP, que a renda não é só do teatro falar que temos que lutar contra o mercado.
Não concordo. temos que achar o meio termo entre um teatro de qualidade, artístico, que as pessoas gostem e que os atores possam ganhar dinheiro. Afinal, todo mundo precisa pagar as suas contas. Natibeijos

Danilo Castro disse...

Valeu pela contribuição, Natalia!

Marina Brito disse...

O discurso da Cia. do Latão vai muito além dos esteriótipos do que é fazer ou não fazer teatro mercadológico. O discurso deles é ideológico, social, anti-reacionário, anti-ditatorial. Por que ditadura não é passado. Vamos abrir os olhos, por que ainda estamos vivendo nela. Não preciso ir muito longe para exemplificar, olhemos para bem perto. Censura ainda existe, e não é pouca, daqueles que detém do poder da mídia no nosso estado, no nosso país. E ainda, principalmente dos que detém do poder dos orgãos públicos. Respeito muito as opiniões de cada um. Mas, não gosto quando nós artistas olhamos as coisas pela margem, sem aprofundamento, sem qualidade de pensamento não só político (essa palavra é muito distorcida hoje em dia), mas pensamento de vida. Estamos vivendo numa geração voltada para o pensamento técnico, rápido e sem densidade, sem ideia do todo, sem 'conceito'. "O mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está o apodrecer da vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada" (Álvaro de Campos - F. Pessoa)

Marina Brito disse...

Indico o poema ULTIMATUM (Álvaro de Campos - F. Pessoa). Muito necessário, e atual.

Danilo Castro disse...

É verdade, Marina. Acho que em vez de ficarmos centrados nessa lenga-lenga do que é e do que não é mercadológico, é essencial que percebamos a máquina que estamos inseridos. Isso é fundamental. Os mesmos donos de veículos de comunicação no país, são os mesmos donos das grandes empresas e corporações que exploram funcionários afora, e pior, são os mesmos políticos que governam em conchavos engendrando a máquina pública. É contra isso, principalmente, que devemos lutar. Muito pertinente seu comentário, valeu!

Danilo Castro disse...

Pra quem se interessar, aqui o poema indicado pela Marina.

ULTIMATUM ((Álvaro de Campos - F. Pessoa)

Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.