sábado, 5 de novembro de 2011

Febre gelada

Hermila Guedes em "Essa Febre Que Não Passa"
Adaptar é tão difícil quanto criar. Na verdade não há adaptação que não seja uma criação. Partir de um texto para gerar uma obra cênica é traduzir não apenas replicando o que está escrito para a concretude do real, até porque seria impossível se não fosse assim, mas descobrir com maestria onde a palavra se faz gesto, imagem, e dilui-se para dar vida à luz, ao som, ao beijo, ao choro é fundamental nesse processo de transcrição criativa.

“Essa Febre Que Não Passa” é uma adaptação do coletivo pernambucano Angu de Teatro, que partiu do texto homônimo de Luce Pereira, dando vida material à obra. Diga-se de passagem, com uma roupagem bastante pessoalista, com histórias íntimas das próprias atrizes que hora ou outra se confundem com as personagens. Essa aproximação é interessantíssima até mesmo para evidenciar que o processo criativo é colaborativo e, consequentemente, deshierarquizado, onde todos são coautores da história.

Com um caráter genuinamente feminino, o espetáculo se mostra bem construído em cima de belas cenas imagéticas, mas talvez o excesso do caráter narrativo cause um certo distanciamento, uma ruptura que nos afasta da febre. O calor não me acometeu porque as personagens mais contavam que viviam suas histórias. Quando a gente vê o personagem arder, doer, sofrer, viver, em vez de vê-lo contar que ardeu, doeu, sofreu, viveu, nos aproximamos muito mais do seu íntimo.

O espetáculo traz um jogo cenográfico em projeções e tecidos que compõem e ambientalizam as histórias, mas que não me comunicaram muito para além de uma boa ideia inserida no espetáculo. Senti a necessidade de ver o cenário mais conectado com as atrizes, com as histórias em vez de vê-lo como ambientação. É bem subjetivo e talvez pessoal esse meu comentário, mas senti que faltou coesão no trabalho como um todo. Queria que fosse impossível assistir uma das cenas sem o cenário, mas é quase como se ele não me fizesse muita falta apesar da boa e prática ideia. Digo o mesmo em relação à musicista com o imenso violoncelo. Se o som fosse mecânico e não tivéssemos sua figura diante de nós, não faria tanta diferença, por vezes ela some, mesmo com toda expressividade do seu som e do próprio violão. É uma figura mal aproveitada. Como a tela branca que não é utilizada ou o batom vermelho que não se torna carne ou sangue no corpo da atriz.

Essa Febre Que Não Passa não é daquelas que chegam aos 40 graus, infelizmente. Talvez por ser um espetáculo novo, as atrizes se mostram disponíveis, mas não entregues por inteiro à cena. Ceronha Pontes, Hermila Guedes, Hilda Torres, Márcia Cruz, Mayra Waquim e Nínive Caldas sob a direção de André Brasileiro e Marcondes Lima ainda podem descobrir um caráter mais visceral, suado, onde o vermelho realmente aguce nossa vista, onde não somente a delicadeza feminina possa ser explorada no texto de Luce, até porque as próprias personagens se mostram bem mais ambíguas e cheias de possibilidades. O espetáculo ainda é um potencial de intensidade mal aproveitado, mas que pode sim ser mais.


Danilo Castro
06/11/2011



13 comentários:

Lucas Teófilo disse...

vc sempre tão sutil, gosto de ler teus comentários.

Camila Vieira disse...

Concordo, Danilo. Mas vejo que é um problema mais de dramaturgia do que das atrizes, que são boas. O problema é q o espetáculo todo são solilóquios que narram o que elas passaram e não o q elas potencialmente poderiam viver em cena. Mas eu gosto do cenário, da ambientação.

Danilo Castro disse...

É, Camila Vieira, tb achei que a dramaturgia tá mal amarrada, não que precise de uma estrutura tradicional, não mesmo, mas são fragmentos que não se conectam...

Camila Vieira disse...

Esse desenvolvimento do "quente" no figurino, que o André Brasileiro explicou, tb não fica muito forte. É visível, mas não tem força.Eu confesso que me perdi um pouco nos solilóquios do Essa Febre. São textos ditos de forma muito rápida. Talvez se trabalhasse mais o silêncio iria contribuir para o espetáculo.

Felipe Sales disse...

Eu nao vi febre alguma. Nem mesmo senti. Eh somente, pelo menos ate agora, um espetaculo com imagens bonitas de se ver (talvez porque ainda seja novo). Mas nao toca, nao sensibiliza, nao emociona... Falta embate, suor, o fazer e nao o contar. Eu queria ter ardido de febre.

Felipe Sales disse...

*ardido em febre.

Fronteiras do Pensamento disse...

Muito bem apresentado o comentário para quem é desprovido do conhecimento teatral.

Toda a riqueza que há neste universo sinaliza importância, significado como o significante.

Aos que estão engajados neste meio, que se ariscam num todo, com olhar tanto pessoal/íntimo, como economicamente não os impedindo (os poucos recursos até atingirem o valor nobre em mãos), mas que vestem a camisa pelo 'ideal' - por um bom espetáculo em todas as esferas.

Admirável a todos pelo sangue derramado (crédito) que se dá à arte como fonte de mudança e/ou mudanças. Entre as quais, o solo se torna intenso e a febre em questão, perpassa possibilidades - reflexões.

Gabriel Matos disse...

Comentário sutil e verdadeiro, gostei bastante! Concordo em parte. Há narrações e narrações, pude me envolver com a narração vivida em cena junto às emoções das atrizes, as palavras ora amaciaram ora rasgaram meus tímpanos e os olhos transbordavam sinceridade, com esse conjunto pude levar minha imaginação pelas histórias das personagens. As ações limpas e toda a prosa da peça realmente me envolveram, eu senti a doce febre que oscilava em graus. Quanto a violoncelista, realmente concordo contigo, Danilo, a meu ver, não haveria diferença entre sua performance cênica e o áudio gravado. Lindo espetáculo! Gostaria de revê-lo!
Abraço

Danilo Castro disse...

Gabriel, legal que a arte promove isso. Pontos de vistas diferentes. Nosso gosto passa pela nossa percepção, pelas nossas vivências. Eu tento me distanciar pra não escrever contaminado, mas muitas vezes é impossível. A arte nos envolve ou desperta os mais diversos sentimentos, até mesmo os de desgosto. O importante é que possamos também discuti-la, sempre. Afinal arte é feita para o outro vivenciá-la, apreciá-la. Obrigado pela colaboração.

Virgínia Bezerra disse...

Eu particularmente gosto do espetáculo. Acho sensível, bonito, e fala de coisas tão próximas a nós...Pude ver muito de minha vida ali. As atrizes estão maravilhosas em cena, e tudo se passa com uma delicadeza extrema. Cada gesto, cada olhar (E que olhares sinceros), cada palavra balbuciada. Porque tudo que é "bom" tem que ter suor e víceras? Senti essa febre...Febre sutil que só habita em nós, mulheres. E a força também. A força de viver, força sutil de levar adiante, seguir sempre!Gostaria de ver o espetáculos mais vezes.E não concordo sobre a violoncelista não. O som de um celo ao vivo não é o mesmo que um mecânico. E ela não só tocava, ela fazia também alguns momentos de sonoplastia (Ou estou enganada?).Enfim, senti a Febre em cena, como a sinto em minha vida.Achei um trabalho admirável, parabéns ao grupo.

Fronteiras do Pensamento disse...

Para os que não têm conhecimento de teatro. Exemplificando: Eu.

Fronteiras do Pensamento disse...

Corrigido:

Muito bem apresentado o comentário para àqueles desprovidos do conhecimento teatral.

Fronteiras do Pensamento disse...

Já que, ocorreu interpretação oposta, opto pela frase atual. Ao qual direciono a reestruturação com extensão para outros que poderão na leitura pensar o mesmo. Afinal, se surge dúvida em um, é possível o pensamento vir a outros mais.

---- ok!