terça-feira, 8 de novembro de 2011

O imprevisível fluxo de Vida

Ranieri Gonzalez, em Vida., da CBT
A incoerência é algo tão coerente, que, num piscar de olhos, a gente se entrega sem medo ao ilógico. O cotidiano é assim, desestruturado, desarrumado e a gente teima em estruturar o mundo e não se permitir à beleza da confusão pansemiótica que se faz, desfaz-se e refaz-se todos os dias diante dos nossos olhos, ouvidos, pele, nariz, psique. Vida., da Cia. Brasileira de Teatro (CBT), de Curitiba, é assim: um texto sem pontos finais e com muitas, muitas vírgulas, onde a palavra se concretiza numa brincadeira linguística na boca dos atores, que, antes de qualquer coisa, entregam-se como seres humanos se entregam ao suicídio, sem pensar, porque o suicida quando pensa demais, desiste. Raciocinar é um tiro no pé. Incoerentemente, aqui a reflexão não se faz importante, mas permitir-se à ilogicidade cênica tão verossímil quanto a própria vida. Vida. é um pulo no abismo, é caótico e arrebatador. São duas horas que nos levam a um vácuo no tempo, no espaço, e simplesmente nos deixamos fluir, como uma criança seduzida por guloseimas. Vida. é o enaltecimento do fluxo da consciência em contrassenso aos estruturalistas. As atrizes Giovana Soar e Nadja Naira e os atores Ranieri Gonzalez e Rodrigo Ferrarini mais parecem performers por entregarem-se ao trabalho com trechos de suas próprias vidas. Quatro músicos exilados numa sala sem janelas, de uma cidade que não sabemos qual é, tecem pensamentos que se entranham uns nos outros e se perdem neles mesmos. Com texto e direção de Márcio Abreu, Vida. é um trabalho com características essencialmente pós-dramáticas. Imagético, superabundante, musical, corpóreo, simultâneo, estranho e sem a convenção aristotélica início-coerência-nó-clímax-desenlace.  É absurdo como os textos de Beckett ou Ionesco e cruel na medida em que as coisas não se justificam. É uma ruptura elaboradíssima da convenção. É um mergulho dramatúrgico ou des-dramatúrgico e colaborativo nas profundezas populares peneiradas do erudito texto Leminskiano. Vida., deveria chamar-se Vida,, com uma vírgula ao fim, em vez de um ponto final.

Danilo Castro
9/11/2011

Abaixo, um vídeo onde o grupo comenta um pouco do processo de construção do espetáculo.


Conheça o site da Cia Brasileira de Teatro.



20 comentários:

Rafaela Diógenes disse...

lindo, dan! mas sou suspeita pra falar... me derreti nesse espetáculo. acho que amanhã poderei falar de forma mais coerente, mas hoje ele ainda tá pulsante sem permissão pra "crítica" em mim.

Felipe Sales disse...

Em Vida tudo brilha! O espetáculo me arrebatou. vou ficar assim por um bom tempo!

Isabela Bosi disse...

massa, danilo!!
achei essa uma das melhores peças que vi nos últimos tempos. atores incríveis, texto incrível, a música, o cenário.. gostei de tudo. a histeria, o tédio, a dor e os sonhos dos personagens me invadiram e falaram por mim.
beijo!

Danilo Castro disse...

Tb fiquei pensando isso, que essa é umaa das referências que vou ter de espetáculos, sem dúvidas.

nadja naira disse...

Muito obrigada pelas palavras sinceras, bonitas.
Repassaremos a todos certamente. Abraço
Nadja Naira

Flávia Cavalcante disse...

AH Vida!ainda na respiração, no encantamento. Estou um pouco suspensa, desde ontem!

Marcio Abreu disse...

Danilo, obrigado pelas impressões generosas expressas no seu texto. Obrigado também pelas manifestaçõs de afeto pela nossa peça. É pra isso que ela existe! abraços.

Marcio Abreu.

Larissa Cândido disse...

Que lindo, Dan. A cada texto ainda me surpreendo mais com as tuas colocações. Me deu uma vontade ainda maior de assistir hoje! :)

Dois Rios disse...

Danilo,

O mais incrível das tuas sempre precisas críticas sobre um espetáculo, é que os descreves com as cores e sons que a tua sensibilidade capta.

É impossível não sentir os respingos da tua paixão.

Beijo,
I.

Fronteiras do Pensamento disse...

A maneira que escreves sobre teatro cativa os seres leigos. E com linguagem condizente na vivacidade, a visão perpassa ao tempero que enlaça.

Walmick Campos disse...

como já disse... concordo plenamente...

ADOREI o espetáculo!

e ponto.

Danilo Castro disse...

Esse espetáculo é unânime nas impressões. =]

Companhia Brasileira de Teatro disse...

Valeu Danilo,

as apresentações foram ótimas, gratificantes. Sempre reveladoras!!
como a nossa vida.
Você está fazendo um belo trabalho, vai fundo, foi realmente um prazer
ler seus comentários.
A gente volta em abril com OXIGÊNIO no Palco Giratório do
SESC...marque na agenda.
abraço,

Nadja e cia

Fronteiras do Pensamento disse...

entrei para conferir se havia algo novo --- no aguardo para a leitura.

Danilo Castro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Danilo Castro disse...

Minhas postagens costumam ser semanais, mas essa semana não assisti nenhum espetáculo. Acho que meu próximo post será sobre teatro de rua, intervenções urbanas, não sei. Estou estudando com um especialista nisso, André Carreira, e tô bem empolgado. Até mais! Obrigado por voltar sempre.

Canteiro Pessoal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Canteiro Pessoal disse...

Danilo, agradecida pelas ricas palavras em 'tela e pincel'.

Enfim, pra uns belo, para outros singular. Mas, dentre os textos que recebem tanto o positivo, quanto oposto, hoje ou ainda mais, o belo pra mim possui uma imagem - face que foge das convenções. Tal ato, postura, faz com que eu siga adiante!

Abraço precioso!

Priscila Cáliga

Thiago Ya'agob disse...

Danilo, meu amigo,

o ponto final, na esfera física, um dia acontece.

Hão de haver vírgulas nesse percurso. Que elas possam construir significados de reflexões: sempre.

...

Deu vontade de ver o espetáculo.

Um abraço, querido.

PS.: É bom ver a Inês e a Priscila por aqui. Gente's boa's: com vida.

Dois Rios disse...

Oi Danilo,

Vim em busca de novos e textos, e também para agradecer os seus sempre precisos e gentis comentários.


Beijo,
I.