domingo, 4 de dezembro de 2011

O espetáculo torto

Giordano Castro em "1 Torto"
A necessidade de um ambiente preparado para que seja cênico um trabalho me é quase natural. Acho que isso talvez seja o que me afastou. Uma sala comum, com cadeiras comuns, sob luzes comuns me deixaram inerte. Na penumbra, no lugar atmosfericamente preparado para o ritual, diante do cênico, do figurino, do cenário (e não necessariamente do espetaculoso), prendo-me mais, acho. “1 Torto”, do grupo pernambucano Magiluth, é um trabalho claro. Mas o claro não me deixa mergulhar no depósito de aporias proposto, onde as máscaras mal se impõem, onde a vida de Giordano Castro, sob a direção de Pedro Wagner, é o mote para o espetáculo. Esse pessoalismo é a prova de que nossas vidas são potenciais para a arte. O fluxo de idéias inconclusas ou desconexas costuram um trabalho de retalhos estranhos e interessantes de serem vistos. É um espetáculo torto, sem nenhuma ironia de minha parte agora, pois tem mais um aspecto de exercício e, que bom, propõe-se a isso, ao inacabado, ao espontâneo. Não seria legal se a proposta tentasse ser megalomaníaca e não perdesse a característica de ensaio. É porque a gente tem uma necessidade de ver o extracotidiano em cena. É o costume que temos de querermos a convenção. “Eu fico me perguntando se o espetáculo já não começou lá fora”, se quando eu comprei meu bilhete aquilo já não era um pedaço do espetáculo que só eu tive acesso. Talvez nossas vidas sejam pedaços de um grande espetáculo. Talvez “1 Torto” também seja isso.

Danilo Castro
05/12/2011

Abaixo segue um vídeo com trechos do espetáculo:

3 comentários:

Walmick Campos disse...

é mais ou menos isso mesmo o q penso.
inclusive sobre a relação com o lugar da apresentação. curti.

Chris Salas disse...

tirar da penumbra, dos efeitos, do "lugar" já causa essa estranheza. o ator deixando-se ver claramente, espetacularizando a si mesmo, mostrando sua vida COMUM, livre de glamorizações, sem maquiagens, com suas neuras e seus suores, interessa ou desinteressa?

Danilo Castro disse...

Que questionamento interessante, Chris.