segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Retornar sem resquícios

Elvis Jordan e Larissa Cândido em "O Pagador de Promessas"
Uma das maiores dificuldades em espetáculos de formação é encontrar os consensos, já que a união é estabelecida pela burocracia de uma relação de turma que se formou e está unida por obrigação e não de maneira instintiva ou com intuito de confluir os mesmos ideais, como acontece em grupos. Depois de dois anos da primeira apresentação, o espetáculo “O Pagador de Promessas”, antes da 10ª turma do Curso Superior de Tecnologia em Artes Cênicas, hoje do grupo O Pagador, mantém-se vivo. Um bom exemplo para futuras montagens do curso de Licenciatura em Teatro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

Infelizmente as comparações serão sempre inevitáveis. Se anteriormente Fernando Lira (diretor) trouxe a concepção de duplicidade dos personagens, onde dois atores dividiam uma mesma persona e isso, apesar das dificuldades, era o ponto forte do trabalho, hoje, por opção do grupo, há um grande desafio a ser enfrentado pela nova roupagem, pelos novos atores novos. É agora que cada ator tem a liberdade de não se enquadrar num molde pré-estabelecido por atuações anteriores.

Os personagens são independentes, individuais e livres dentro da criação de cada artista. Além disso, não há estilo vocal ou corporal a ser compartilhado com o seu duplo, portanto, que novos fluidos brilhem além da versão anterior. Um bom começo talvez seja não tomá-la como maior referência e estudar o texto original, não o adaptado. Com a musicalidade popular (direção de Simone Sousa), também ponto fortíssimo do trabalho, penso diferente. Não se deve jogar fora o que foi conquistado e buscar algo novo. A música pode e deve preencher ainda mais o espaço cênico como já fez um dia.

O texto de Dias Gomes e de diversos grandes dramaturgos é construído em cima de uma “linha quase-melódica” que oscila entre os mais graves e agudos, traz entretons e nunca cai numa monocórdia.  O espetáculo consegue se escorar na potencialidade textual e na simultaneidade cênica proposta pelo diretor, mas é preciso que parte dos atores não se entregue de vez à cena. É preciso encontrar como revelar um pouquinho mais de cada personagem a cada entrada, porque há de se descobrir a riqueza da complexidade das almas em cena e não apenas expô-las para apreciação superficial. Um autor joga pretensiosamente fagulhas antes de incendiar um enredo. Se em minha primeira cena eu revelo tudo que sou, poderei não despertar mais interesse até o fim do espetáculo, entrarei em chamas e virarei cinzas. Há também curvas dramáticas (ou “linhas quase-melódicas”) que cada ator deve construir para além do todo. O ator é o dramaturgo de si mesmo.

Talvez não faça mais sentido duplicar o Zé do Burro (João de Lima) apenas para resgatar o que já existiu, mas encontrar a maneira correta de inserir o mesmo ator na sua lembrança e de continuar coisificando-o em cruz sem a necessidade de outro ator (também Zé do Burro) carregando-o para reencontrar uma cena construída outrora. Se foi possível na famosa “Cena do Pesadelo”, por que não estender a toda a nova concepção?

Quando o trágico, o sóbrio, o erótico ou qualquer outra característica sensitiva proposta torna-se risível (e não cômica) por fugir das rédeas do espetáculo, há de se repensar certas cenas ou assumir de vez essas características, transformando-as em cômicas. Como a “Cena do Lundu” e a “Cena do Monsenhor”, que despertam risos descontextualizados no público. 

Elvis Jordan (Sacristão e Carijó) deu um salto incrível na firmeza da atuação em relação à versão anterior, trouxe personagens sólidos e opositores em breves participações. Larissa Cândido (Repórter), Amidete Aguiar (Minha Tia), Jennifer Suzana (Beata - com suas ações bem elaboradas e precisas) continuam trazendo grande destaque ao trabalho. Circe Macena (Dedé Cospe Rima e Iansã) e Marcelo Freitas (Galego), apesar de serem inéditos no elenco, são um bom potencial pela energia contagiante e pela criatividade na recriação de suas personagens. Creio que seja necessário que “O Pagador de Promessas” supere os resquícios do que já foi e consolide-se de vez com o novo e tradicional olhar encabeçado pelo grupo.

Danilo Castro
19/12/2011
Acesse o blog do grupo O Pagador.

7 comentários:

marcos bruno disse...

Já fui público e hoje faço parte do elenco do espetáculo Pagador de Promessas. Vi a duplicidade dos personagens em cena e hoje compartilho diretamente de uma nova roupagem. Acredito que a duplicidade dos personagens (proveniente do número excessivo de atores durante a montagem) tenha feito falta nesse novo processo,devido a beleza que trazia para a cena, mais em contrapartida temos um espetáculo muito mais dinâmico! Existe algo que eu acredito e que eu defendo: certos 'cacos' criados pelos antigos atores deixam de ser deles e passar a ser do espetáculo, e como é propriedade do espetáculo, os novos atores que entram no processo podem se apropriar e darem sua interpretação para aquela ação, para aquele movimento. E é isso que eu vejo que aconteceu, algumas boas criações foram mantidas e recriadas pelos novos artistas. Acredito que apesar de algumas marcações terem sido mantidas, temos personagens bem diferentes dos que eles já foram e por isso temos novas cenas e novas reações do público. Algo que era risivel deixou de ser, outras cenas passaram a ser risíveis, as relações entre os personagens mudaram. Temos um novo Pagador de promessas. A peça, certamente, estava ansiosa pra nascer, e nasceu com muita energia, com muitos excessos, mas nasceu, e bem viva por sinal. E talvez, por causa disso alguns equivocos foram vistos em cena. Mas como diz o grande Fernando Lira: 'Na dúvida, ultrapasse'. E foi isso que aconteceu, nascemos, agora é só crescer. Vida longa ao espetáculo Pagador de Promessas e que ele continue emocionando o público e provocando reflexões! MERDA, AXÉ, ARTE!

Danilo Castro disse...

Concordo com vc, o que é bom tem que ficar, mas quando estamos dentro de um processo às vezes não enxergamos muitas coisas. Entenda o texto como um incentivo, uma provocação bem intencionada, porque vocês podem mais. Obrigado pela contribuição aqui no blog.

Jeniffer Suzana disse...

Arrasou ;) Obrigada pelo elogio,lindo :)

marcos bruno disse...

Entendo suas provocações e, com certeza, filtraremos, criticamente, o que foi dito. Mas entenda que quando saimos de um projeto, ele ganha asas para novas criações... e quando retornamos como público, inconscientemente, projetamos no 'novo espetáculo', o que queremos ver, embasado no processo vivido anteriormente, quando na verdade se trata de um outro processo. Percebo, que contrário ao título da sua crítica, ela foi com resquícios de alguém que já participou do mesmo espetáculo!

Danilo Castro disse...

Não, é justamente o contrário, não consigo entender como pensou isso. Meu texto deixa bem claro o desejo de ver o projeto de vocês com asas para novas criações e as comparações são no sentido de ver o novo surgir e não de ver o mesmo espetáculo novamente com base no que vivi quando participei, pelo contrário. Mas entenda como quiser, não estou aqui cristalizando ideias ao mesmo tempo em que não estou analisando algo imutável (pense sobre isso), é um direito seu discordar. Um espetáculo é sempre um processo, ele nunca termina. E friso mais uma vez, é no intuito de ajudar.

Amidete Aguiar disse...

Infelizmente não tive oportunidade de ler antes sua critica, mas acho bem pertinente suas criticas, coisas que o grupo só vem a enxergar com a apresentação, e que devida a pessoas como você podemos repensar e dar uma maior atenção, gostei muito de sua critica e espero que nós consigamos corrigir, e que na próxima vez que você vier a assistir ao espetaculo, estejamos diferentes, melhor do que outrora....

Danilo Castro disse...

Teatro nunca é algo finalizado, estamos sempre em busca de nos descobrirmos cada vez mais. Obrigado, Amidete, o intuito foi dialogar, colaborar com o trabalho de vcs!