segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Os (in)cômodos de Ivanov

Cena de Ivanov, do Teatro Máquina
Parece-me que Ivanov, do Teatro Máquina, acomodou-se bem melhor em cômodos. No palco, ainda que o público seja posicionado bem próximo à cena e, por causa disso, invadimos - como se fôssemos espiões - a intimidade do casal que um dia já foi feliz, definitivamente não é a mesma coisa. Há uma grande  e encantadora  diferença quando quando nos inserimos em ambientes de um casarão do século XVIII. 

Ali, entre paredes espessas e um pé direito enorme, entranhamos de vez na vida daquele casal doentio. Somos como fantasmas onipresentes, sentimos os cheiros, o calor, o vento que balança as folhas das árvores, percebemos os sons e a beleza de suas barreiras e ecos quando emitidos de locais diversos num casarão secular, coisa que o palco provavelmente nunca nos ofereceria com tanta nitidez e realidade que só a vida possui. Vivenciamos uma percepção completamente diferenciada e talvez mais próxima do próprio Ivanov depressivo de Tchekhov. Os meus incômodos quanto ao naturalismo em palco da versão original diluíram-se quando o Máquina tornou-se vida quase real na Casa de Juvenal Galeno. 

Entretanto, não sei o porquê, a figura de Gavrila (Loreta Dialla) ofuscou-se, não me chegou como um "à parte" estranhíssimo, e o estratégico incômodo das taças tilintando prestes a estourarem no chão mal aconteceu, uma pena. Além disso, ainda com as epifanias por quais as personagens passam e com a projeção audiovisual de um passado não muito distante - traços estilísticos muito bem propostos - senti no casarão um outro Teatro Máquina. 

Diante de espetáculos que trabalham de alguma forma com maquinarias, um estranhamento mais evidente ou cenas com a ficção esfacelada, e de outras características que se firmaram como identidade do grupo, a exemplo do cenário original de Ivanov, do futurismo com os patins de "Leonce + Lena" (2005), da manipulação de "O Cantil" (2008),  das repetições de "Répéter" (2009), do jogo de encaixes com o cenário de "João Botão" (2011), como provocação me questionei: na nova versão de Ivanov, onde está a máquina do Máquina?

Danilo Castro
30/01/2012

Dica] A casa de Juvenal Galeno funciona de segunda à sexta, das 8h às 12h e de 14h às 17h. A visitação e a utilização dos espaços é gratuita, mas necessita de agendamento prévio através do telefone: 32523561. Outra dica é que espetáculo estará em cartaz na versão original aos domingos de fevereiro no palco principal do Theatro José de Alencar. Para ter mais informações, conheça o Diário Ivanov, do Teatro Máquina.


6 comentários:

Felipe Sales disse...

Excelente a versão do espetáculo IVANOV na Casa Juvenal Galeno! Boas pontuações, Danilo! Parabéns ao Teatro Máquina!

Felipe Sales

projeto cadaFalso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Danilo Castro disse...

Obrigado pela sugestão, Washington. Tb acho que esse é o trabalho mais diferente do Máquina, ainda mais dentro do casarão. O questionamento foi no intuito de fomentar a inquietação que passou, mas fico feliz pela experimentação proposta pelo grupo.

projeto cadaFalso disse...

valha! deu tilt aki: o comentário foi apagado e tou postando de novo! sorry!!!

bacana seus comentários, danilo! intrigante que o que me incomodou foi justamente me sentir um fantasma! e tb me questiono sobre a maquinaria do máquina: mas já acho bastante interessante esse deslocamento que eles propõem...

peço licença pra sugerir a leitura de um texto meu sobre a casa como locus (sobre ivanov) no blog do projeto cadaFalso:

projetocadafalso.blogspot.com

grande abraço,

washington hemmes

fran teixeira disse...

oi danilo, que bom é escrever e você tem escrito cada vez melhor. obrigada por perguntar, porque assim preciso responder. é curioso como o publico é sempre uma surpresa, é o porquê mesmo do teatro. o ivanov na casa se afigura como outro espetaculo e nao como uma versao do original. nos demos conta disso e abrimos mao de uma serie de recursos especificios do palco, que so funcionam no palco, porque sao do palco. acho que é isso que você e washington chamam de maquinaria. preciso explicar que sao coisas diferentes as reunidas sob a mesma egide de marcas do grupo. a narracao e a exploracao do gesto sao os principais interesses do grupo. com eles continuamos trabalhando, seja na casa, seja no palco, seja na rua. mas esses principios sao explorados em suas dimensoes e possibilidades, nas suas camadas de construcao e nas suas formas expandidas, e isso inclui distorçao, negaçao, supressao tambem. é diferente do uso de recursos cênicos, que, claro, tambem imprimem marcas estilisticas, mas nao podem ser confundidos com principios de trabalho.
ocupar a casa é, para mim, antes de qualquer coisa, poder ficar em cartaz em fortaleza. como teatro de grupo, como teatro maquina, encaramos tres frentes de trabalho: a criaçao, a formacao e a açao politica. essa é uma frente do trabalho em teatro de grupo: resistir é uma açao politica. inventar formas de estar em cartaz é resistir ao marasmo da nossa programacao cultural e ao abandono pelos orgaos publicos dos espaços de exibiçao.
um beijo pra ti!

Danilo Castro disse...

Obrigado por responder, Fran. Fico feliz pelo esclarecimento. Uma aula, como sempre. Eu ando gostando bastante de escrever as coisas que me vem à cabeça quando vejo uma obra teatral. Estou me propondo a pensar sobre aquilo que me é oferecido. Penso como um espectador. E estou disposto a aprender com essas reflexões. =]