quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Metavida em metalinguagem

O espetáculo é uma emboscada. Quem desejar cair numa armadilha bem planejada, basta conferir A Assassina, do grupo novato Teatro Elo. Com texto de Natália Régia, que também protagoniza a obra, e direção de Aline Campelo, os assassinatos são apenas pretextos para um besteirol inteligente, que culmina numa grande homenagem aos que têm o teatro como fonte de renda e de vida.

São camadas e camadas metateatrais, onde embarcamos sob um clima de suspense numa história que pode ser infinita, se quisermos. Revivemos os conceitos de Brecht, Grotowski, Stanislavski e de tantos outros pais do teatro universal, mas em carapuças pândegas, irônicas, que brincam com as múltiplas possibilidades de construção e desconstrução de personagens. A coreografia proposta por Saymon Morais é imponente, sendo um dos pontos fortes do trabalho, e se torna cômica principalmente por se opor ao estilo canastrão encabeçado pelo grupo.

O espetáculo, que começou como um trabalho de pouco mais de vinte minutos ainda no Festival de Esquetes da Companhia Teatral Acontece (Fecta), em 2010, encorpou-se, tornou-se mais firme, robusto, ao contrário da primeira temporada pós-esquete, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz, em junho de 2011. Na época, o trabalho cresceu meio desorganizado, cheio de enxertos que não se conectaram bem com o todo.  Hoje há uma nova Assassina solta por aí, que pode se impor ainda mais, confiante, pronta para matar o público de rir, como o musical esteriotipadíssimo que pegou os espectadores veteranos de surpresa.

Ficcionalizando a vida, seria esse um espetáculo direcionado a quem é de teatro ou o público comum se apropria dos dilemas típicos do fazer teatral? "O seu drama pessoal não deve estar no palco", diz o diretor (Naiane Andrade) aos seus atores-personagens. Mas, depois de cairmos em gargalhadas com as presepadas cênicas, recebemos um choque de realidade com depoimentos, dramas dos atores em suas labutas por reconhecimento. Vamos do topo ao chão em ínfimos segundos, numa queda energética que pode prejudicar o trabalho. Definitivamente, expor a vida real ensaiada e tentar torná-la crível como o cotidiano não é fácil. Esse é o maior desafio a ser enfrentado pelo grupo.

Danilo Castro
29/02/2012

Serviço] A Assassina vai estar em cartaz no dia 28 de março, o teatro do Centro Cultural Banco do Nordeste recebe a produção em duas sessões, às 15h e às 18h. A entrada é gratuita.

Visite o site do Teatro Elo.

Foto: Saymon Morais em A Assassina

Um comentário:

Saymon Morais disse...

Boas palavras! Adorei o texto escrito! Sua visão nos faz perceber e entender como estamos atingindo o público. Continue assim... obrigado Daniloo!!!