quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O sobrado de Clarice

"E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara" 


C. L. - Restos de Carnaval

Estátua de Clarice.
Ao fundo, o sobrado onde viveu na infância
A tarde da última sexta (17) poderia ter sido uma tarde qualquer, mas passei por um momento epifânico de amor, quem sabe, e mudei completamente o rumo do meu Carnaval, que até agora me resta, ressoando em pedaços de felicidade. Se eu tivesse pensado mais, teria desistido, provavelmente. No dia seguinte, após doze horas de viagem, estava eu em Recife, terra onde Clarice viveu boa parte da história que descobri através dos seus contos ou de “Clarice,” de Benjamin Moser, escritor que conheci no ano passado. 

Um dos primeiros textos que li de Clarice foi “Restos de Carnaval”, aos 17 anos, pouco antes de entrar na faculdade de Letras. – Como eu não a conheci antes? – E, como estava eu em pleno Carnaval pernambucano, não poderia deixar de visitar a casa onde ela morou e tentar entender essa coisa doida que paira entre mim e ela, algo talvez oriundo das ruelas de lá, que se impregnaram na estrangeira recifense, pingaram nos seus textos e respingaram em mim. Num de seus escritos, ela deixou o endereço onde viveu, a partir daí fui procurar, com alguma sensação estranha de investigação, como se estivesse prestes a fazer uma grande descoberta. 

Quem moraria lá depois de tantos anos da passagem de Clarice? Pensei atoleimadamente desbravador: apertarei a campainha e pedirei destemido para entrar. Clarice, pequenina, autorizaria, talvez. Ali, em frente à praça Maciel Pinheiro, na esquina da Rua da Matriz com Rua da Glória, na casa 387, que antes era 215, estava o antigo lar de Clarice se impondo sobre meus olhos. No Centro, em meio a casas seculares esguias e rachadas, encontrei o sobrado antigo de dois andares. Pensei na Clarice infante, brincando moleca por aquelas ruas, dividindo aquela casa com outras famílias, vivendo com dificuldades uma infância refugiada desde quando saiu de Tchetchelnik, na Ucrânia, perseguida por ser judia sem saber. Mas acima de tudo, ela era nordestina e fazia questão de dizer. 

Na parede, uma placa-homenagem da imprensa local à escritora. O sobrado estava fechado, o térreo parecia uma loja, não sei ao certo. Em frente, uma estátua de Clarice sentada a datilografar ao lado de uma fonte pomposa. Ao redor, diversos mendigos viam o tempo passar, crianças banhavam-se na fonte, roupas eram estendidas na grama. O lugar é sujo, escuro. O Centro de Recife é úmido, sombrio e, talvez por ser uma manhã de Carnaval, com ruas ainda vazias, aquelas pessoas invisíveis aos pés de Clarice se destacaram aos meus olhos. Na Várzea, bairro periférico onde me hospedei, vi blocos de meninos vestidos de mulheres e meninas com roupas esquisitas, improvisadas, brincando destemidos com quem passava na rua. Lembrei da fantasia de papel crepom que Clarice usou, em pequena, feita com os restos da fantasia de outra menina, e rememorei meus carnavais pelas ruas de calçamento de Flecheiras. 

O Carnaval de Pernambuco deixou restos em mim. Restos de uma folia democrática que ainda não tinha visto nessas proporções. Restos de uma Clarice que ainda não conhecia me apregoaram como quando li seus primeiros escritos ou quando vi Beth Goulart em “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”.  Lá, vivi dias em que pude ser moleque desavergonhado, em que pude sorrir e conversar com qualquer pessoa. Ali, em meio a papangus misteriosos, serpentinas, fantasias bizarras, criatividade, frevos e marchinhas, senti mais ainda que todos somos iguais e que Clarice, afora toda a divinização da sua figura, também era apenas um de nós.

Danilo Castro
22/02/2012

13 comentários:

Júlio Lira disse...

Ótimo texto, Dani! Nunca tinha visto foto desse sobrado.

Domitila Andrade disse...

uma belezoca de crônica, como sempre. mas cadê o layout novo?

Danilo Castro disse...

Em breve, Domitila, o blog vai estar todinho do jeito que sempre quis. =]

Yadine Ximenes disse...

Amei a crônica! Bateu saudade de Recife!

Felipe Sales disse...

Perfeito! Adorei! Lendo é como se vissemos Clarice lá.

Gabi Alencar disse...

É emocionante mesmo Dan, muito perfeito seu texto. Adorável de ler. Pernambuco e suas magias.. depois quero saber como foi por lá.. beijos!

Flavia Cavalcante disse...

Muito bem, agora estou morrendo de vontade de voltar lá e ser tbém respingada

@rapha_batista disse...

@odanilocastro texto muito bom, moreno. :)

Thiago Cavalcante disse...

Na 7ª série a professora Alzira, de Português, indicou a Hora da Estrela para a turma ler. Eu havia faltado no dia da indicação. No outro dia a professora chegou até mim e falou sobre o livro acrescentando as seguintes palavras (+ ou – assim): “- Thiago, você vai adorar ler esse livro. Vá até a biblioteca e pega um exemplar.” (Como assim? Eu vou A D O R A R o livro? – pensei comigo). Fui à biblioteca e vi a capa do livro. Achei horrorosa. E por isso, não li. Fiquei com vermelha quando a professora deu uma prova sobre a leitura da novela clariceana, e pra tornar azul minha nota, a professora sacou de sua bolsa um livro chamado Salto Para a Vida (Célia Valente) e disse: “- Já que você não leu o livro de Clarice, leia esse livro ( e me deu um prazo de leitura) pois você vai responder um questionário sobre ele”. Esse livro eu li. A capa me agradou. O livro conta a dor de uma mãe indo ao campo de concentração (grande guerra) dentro de um trem... e no decorrer da “viagem” essa mãe consegue abrir uma janela do vagão e lança fora sua filha: Salto.
Esse foi o primeiro livro que eu li. Já tinha lido outros da série vagalume – mas esse foi o primeiro livro da minha vida. Lembro-me que fiz minha avó, mãe, tia... lerem também. A professora queria que eu devolvesse o livro pra ela. E eu dizia: Logo te devolverei. Devolvi.
Em Porto Alegre (22/02 –Quinta) entrei num sebo com meu amigo Paulo e perguntei: - Você tem “Salto Para Vida”? – Sim, na seção juvenil. Comprei por dez reais uma parte da minha vida que não tem preço.
Em 2007 - no Museu da Língua Portuguesa aqui em São Paulo - teve uma exposição homenageando Clarice Lispector. Uma amiga me convidou para ir com ela. Fui. Fiquei em êxtase. Lembro-me que pedi caneta e papel para um dos monitores da exposição e comecei a anotar todas as frases clariceanas que estavam num mural. Foi meu primeiro contato com ela. E tive a sensação que ela me conhecia.
Em 2008 iniciei o curso de Letras – e lá sim - consegui ter um respaldo maior acerca de Clarice Lispector. E gozado: Clarice também teve um “Salto para Vida” – veio em fuga para o Brasil. Assim como o relato verídico que Célia Valente conta no seu livro.
Acho que me estendi um pouco... Tudo isso para falar que através dos textos de Clarice pude conhecer pessoas fantásticas que estão na minha vida desde então, dentre elas, está você e meus amigos de Porto Alegre.
Bom conseguir olhar através das suas fotos o Sobrado de Clarice. Fiquei respingado aqui. E com paz.

Danilo Castro disse...

Thiago, seus comentários são pra mim quase outra postagem. E daquelas que fazem a gente mergulhar no seu íntimo passado. Na mesma época da exposição que vc viu pessoalmente, eu li na biblioteca do colégio onde fazia cursinho o livro dessa exposição no Museu da Língua Portuguesa. Enluqueci com o livro, com fotos enormes. Bati cópias das várias fotos grandes e algumas inéditas de Clarice Lispector. Colei no meu guarda-roupas. Copiei também várias frases na minha agenda. Um delas escrevi na porta do guarda-roupas. Lembro que ela falava que não sabia escrever e que passar as mãos nos cabelos de um menino ou andar a cavalo reproduzia melhor seus sentimentos. Não lembro mais como era a frase, mas achei aquilo lindo. O guarda-roupas foi pro lixo tempos depois, a frase foi junto. Quero ler Salto para a Vida, fiquei curioso. Obrigado por passar por aqui mais uma vez.

Folhetim da Vida disse...

Em pesquiusa na net achei seu blog. Li a postagem sobre Clarice Lispector. Fiz minha graduaçãom em Letras pela Universidade de pernambuco. Lá, começou a infinita jornada ,com critérios, de admiração e contamplação pela escritora. O primeiro trecho de que li da autora foi em livro de ensino médio: história das coisas. Nesse texto, Clarice falava sobre o telefone. Descreveu de uma forma brilhante este aparelho. Lembro bem de uma parte que ela disca para o numero 7777777. O telefone toca , toca e ninguém ateende. Ela, nesse texto, também pontua sobre a solidão do apareelho do telefone. É um aparelho que é intermédio de diversas conversas, confissões, etc, mas no final, é revigorado em extrema solidão. É muito bom ter contanto com pessoas que contemplam a escrito. Você não conheceu o ginasio pernambuco e a outra residencia de Clarice aqui no recife? Dois lugares também de muita história. Parabéns pela postagem.

Alan Nascimento

alanletrasupe@hotmail.com

Folhetim da Vida disse...

Em pesquiusa na net achei seu blog. Li a postagem sobre Clarice Lispector. Fiz minha graduaçãom em Letras pela Universidade de pernambuco. Lá, começou a infinita jornada ,com critérios, de admiração e contamplação pela escritora. O primeiro trecho de que li da autora foi em livro de ensino médio: história das coisas. Nesse texto, Clarice falava sobre o telefone. Descreveu de uma forma brilhante este aparelho. Lembro bem de uma parte que ela disca para o numero 7777777. O telefone toca , toca e ninguém ateende. Ela, nesse texto, também pontua sobre a solidão do apareelho do telefone. É um aparelho que é intermédio de diversas conversas, confissões, etc, mas no final, é revigorado em extrema solidão. É muito bom ter contanto com pessoas que contemplam a escrito. Você não conheceu o ginasio pernambuco e a outra residencia de Clarice aqui no recife? Dois lugares também de muita história. Parabéns pela postagem.

Alan Nascimento

alanletrasupe@hotmail.com

Folhetim da Vida disse...

Em pesquiusa na net achei seu blog. Li a postagem sobre Clarice Lispector. Fiz minha graduaçãom em Letras pela Universidade de pernambuco. Lá, começou a infinita jornada ,com critérios, de admiração e contamplação pela escritora. O primeiro trecho de que li da autora foi em livro de ensino médio: história das coisas. Nesse texto, Clarice falava sobre o telefone. Descreveu de uma forma brilhante este aparelho. Lembro bem de uma parte que ela disca para o numero 7777777. O telefone toca , toca e ninguém ateende. Ela, nesse texto, também pontua sobre a solidão do apareelho do telefone. É um aparelho que é intermédio de diversas conversas, confissões, etc, mas no final, é revigorado em extrema solidão. É muito bom ter contanto com pessoas que contemplam a escrito. Você não conheceu o ginasio pernambuco e a outra residencia de Clarice aqui no recife? Dois lugares também de muita história. Parabéns pela postagem.

Alan Nascimento

alanletrasupe@hotmail.com