sábado, 17 de março de 2012

Como morre uma tradição?

Em meio à luta para manter viva a dança Cana Verde do Mucuripe, Dona Gerta continua a sonhar. Entre suas lembranças, a senhora desabafa sobre os percalços que enfrenta para não deixar morrer a brincadeira que tanto ama

Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO
danilocastro@opovo.com.br

Numa casa de poucos cômodos no alto do Morro Santa Teresinha, no Mucuripe, mora Gertrudes Ferreira dos Santos, mais conhecida por Dona Gerta, mestre da cultura popular. Entre falas que se perdiam diante de uma memória já fragilizada, a senhora de 85 anos conta a história da Cana Verde do Mucuripe, que surgiu no Ceará há quase um século e resiste através das gerações. Com muito orgulho, a mestre dedicou sua vida à dança, mas, hoje, pouco lhe restam forças para que a tradição não se perca no tempo.

Como um ensinamento, ela explica que a dança nasceu na praia do Cumbuco com a chegada de portugueses. “Hoje a praia é especial, mas naquela época era só areia e mar”. Em alusão ao ciclo da cana-de-açúcar, os brincantes vestiam a calça feita da palha, a blusa amarela feita da flor, uma faixa vermelha na cintura “para prender a cachaça” e o lenço verde “de fazenda bonita para combinar e prender no pescoço”. Em Fortaleza, “Zeca três vêis” passou o rito ao afilhado, José Ferreira dos Santos, que, anos depois, casou-se com Gerta.

Na década de 1940, em meio às brincadeiras dançadas, Gerta conheceu José dos Santos. A senhora simpática cai na gargalhada quando o repórter conclui que dessa “brincadeira” nasceram 15 filhos. Após o falecimento do marido, ela assumiu a liderança. Hoje, apenas Mazé, 45, toca o barco ao lado da mãe, cantando segunda voz nas apresentações. A filha conta que a vida traz outras prioridades. “Minhas irmãs se casaram, aí deixaram de brincar, se desinteressaram”, lembra.

Dona Gerta diz que os brincantes passavam nas ruas, encenando de casa em casa por uns trocados. Em época de Carnaval, saíam várias vezes e o apurado era dividido. O pesquisador Gilmar de Carvalho explica que a dança era o que unia a comunidade. “Aos poucos, quebrou-se um vínculo. Isso traz prejuízos, mas não sei o que é pior: a gente aceitar ou fazer um folguedo artificial para turista. Só faz sentido quando é espontâneo”, disse. Mazé conta que, por causa da violência, pararam de fazer a brincadeira nas ruas.

Lourdes Macena, presidente da Comissão Nacional de Folclore, diz que a dança expressa a felicidade do povo e pode desaparecer numa dinâmica natural, mas diversos fatores influenciam. “Quem vive as expressões vai envelhecendo e fica difícil dar continuidade. Há muitos elementos externos que acabam pressionando uma expressão cultural”. Para ela, é necessário desenvolver mais políticas públicas para fomentar as manifestações.

Dona Gerta ainda tem esperanças de voltar a sentir o doce da cana que lhe trouxe tanta alegria. Depois de lhe escorrerem lágrimas entre gargalhadas e mágoas, ela toma fôlego e afirma com olhar lançado aos céus, entrecortando a janela da pequena casa. “Enquanto eu puder cantar, eu canto. Enquanto eu puder dançar, eu danço. Enquanto eu estiver viva, a Caninha Verde também vai viver!”, sentencia.

Os mestres e as políticas de patrimônio

Em 2005, Dona Gerta foi nomeada pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) como Tesouro Vivo da Cultura e passou a receber um salário mínimo por mês. Quando fazem apresentações para o Governo, segundo Mazé, o cachê é descontado do salário. “Tá atrasado desde janeiro”, desabafa a filha. “Eu preciso de ajuda. Comprei tudo com meu dinheiro”, afirma a mestre, que sobrevive com pensão de R$ 622, deixada pelo marido. O grupo, composto por 36 pessoas, reúne-se apenas quando surgem esporádicos convites.

De acordo com Otávio Mesquita, coordenador da Célula de Patrimônio Histórico e Cultural da Secult, são 60 prêmios vitalícios aos mestres. Ele explica que, no começo do ano, o pagamento costuma atrasar. “O Governo tem que fechar suas contas e é uma burocracia”. Segundo ele, no último dia 14, foi feito o depósito e a situação foi normalizada. Desde 2006, a Secult realiza o encontro Mestres do Mundo, reunindo os líderes populares para apresentações e debates. Além disso, faz o acompanhamento das manifestações com visitas mensais aos mestres, solicitando relatórios. Mazé afirma que nunca recebeu visita do Governo e que não tinha conhecimento dos relatórios.

Devido à pouca escolaridade da família, Dona Gerta tem dificuldades para manter o grupo com editais. “Queria um terreiro grande pra receber o pessoal. Agora não tenho mais ninguém, quero que alguém tome conta da Caninha”, lamenta. O POVO encontrou no site do Ministério da Cultura (MinC) que, em 2008, ela foi agraciada com R$ 10 mil no Prêmio Culturas Populares. O MinC informou que os mestres receberam o valor em reconhecimento ao trabalho já realizado, mas não precisam justificar a aplicação. A filha diz que o valor nunca foi depositado.

Saiba mais 

A Caninha Verde possui um enredo, não é apenas uma dança, mas um folguedo que encena um matrimônio. A tradição oriunda da região do Minho, Portugal, dura mais de 600 anos. Segundo artigo de Lourdes Macena, a Caninha Verde surgiu de Aracati, trazida por João Francisco Simões de Albuquerque por volta de 1919.

Multimídia

Assista ao vídeo do grupo Miraíra, que reproduz a Caninha Verde do Mucuripe, abaixo:


Fonte: Vida & Arte - Jornal O POVO (17/03/2012)
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2 comentários:

Gabriela Alencar Sousa disse...

Me deu um arrepio quando vi a foto de Dona Gerta no Jornal. Danilo mostrando que vale a pena insistir numa boa pauta. Parabéns pelo ótimo texto

Danilo Castro disse...

Não sei quanto tempo durou desde que soube dessa história e quando comecei a investigar com Gabriela Alencar Sousa até o dia de hoje. É a concretização de muito esforço. Que Gerta consiga voltar a permear o Mucuripe com sua dança. Caninha Verde não pode ficar só na memória.