domingo, 18 de março de 2012

Dancem, dancem, ou estaremos perdidos

É dança com efeito de teatro ou teatro com efeito de dança? Isso é o que menos importa. Para entender Pina Bausch e como sua vida e obra transformaram-se numa referência para as artes cênicas no mundo, o documentário Pina, do cineasta alemão Wim Wenders, chega a Fortaleza um ano após o lançamento no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Seu jeito lacônico e certeiro talvez explique o porquê mal é necessário falar nos seus espetáculos. O corpo fala bem mais que a fala. A voz não precisa codificar sons para dizer. Voz também é corpo, eivado de dor, angústia, felicidade, amor e tantos outros fragmentos de emoção que se entranham e nos amordaçam, deixando-nos reféns em seus espetáculos essencialmente sensoriais. 

Seus bailarinos exalam uma verdade acima de qualquer virtuosismo tecnicista, levando à cena um extracotidiano por vezes bizarro, que se engendra num trabalho sustentado não numa megaprodução, mas numa ideia simples, bem realizada. São possibilidades cênicas incrivelmente pueris, mas que nos chegam tão intensas, tão grandes, que nos roubam até o último fôlego. Esse é o Tanztheater (dança-teatro).

A expressividade de movimentos cotidianos e abstratos, fortemente marcados pela repetição de gestos num contexto narrativo, dramatúrgico, levam-nos a transbordar naquilo, junto aos seus bailarinos esguios, de aspecto doentio, mas cheios de vitalidade. As imagens propostas pela bailarina, que rompeu os padrões de sua época, são daquelas que prometem ressoar na cabeça por longas datas. 

O documentário foi feito com ajuda da própria Pina, que faleceu em 2009, aos 68, antes da finalização do trabalho. São bastidores e processos dos espetáculos Café Müller, Le Sacre du printemps e Vollmond, além de produções voltadas para o cinema (video-dança), que ganham cada vez mais força na dança contemporânea. “Dancem, dancem, ou estaremos perdidos”, sentenciava messiânica até seus últimos dias. Cumpramos seu ensinamento.

Danilo Castro
18/03/2012

Saiba mais] A Dança-Teatro ou Tanztheater, de acordo com o Dicionário de Teatro de Patrice Pavis, surgiu em 1928 com o trabalho do germânico Kurt Joos, mas popularizou-se no mundo a partir de 1970 através do trabalho da bailarina Pina, que foi sua aluna.


Assista o traller do documentário:

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