sábado, 10 de março de 2012

Onde está a teatralidade, no campo ou na cidade?

Ir ao teatro e pouco encontrar a teatralidade é como ler poesia e não encontrar metáforas. Em palco, as possibilidades de dizer para além do texto são múltiplas e fundamentais. Desperdiçar esse potencial próprio do teatro para mergulhar numa verborragia infinda e não expor quase nada além disso, pode ser um tiro no pé. É como jogar fora aquilo que o teatro naturalmente pede, para optar cair no convencional. A vida é convencional. Se se leva à cena essas convenções cotidianas, pode-se não estar propondo a poesia cênica que o teatro traz através das imagens, sons, texturas, etc.

Dividido em dois atos, titulados “O Campo” e “A Cidade”, o espetáculo Duplo Crimp, do diretor Felipe Vidal, tem um elenco afinadíssimo, firme, equilibrado, mas que poderia nos contar bem mais se os atores falassem menos e poetizassem mais as passagens, em vez de apenas dizê-las com suas vozes limpas e bem articuladas. Os atos se correlacionam, assemelham-se em estrutura e instigam a partir da premissa de alguém que invade o território confortável de um casal e atordoa aquelas vidas. 

A obra é oriunda de duas peças do inglês Martin Crimp, traduzidas por Daniele Avila. Com uma dramaturgia cheia de nós e eivada de traços que se assemelham ao teatro do absurdo, somos fisgados, mas as imagens se desvalorizam num lugar aonde se vai para se ver algo exposto: o ambiente teatral. Então, por que não deshierarquizar essa relação dramatúrgica, trazendo relevância também ao texto visual?

O trabalho, por estar pautado em cima da dramaturgia de Crimp, pisa em solo firme. O texto ágil, ora simultâneo, ora justaposto, aliado ao esforço dos atores, é o que segura a energia do espetáculo. Cenário, contrarregragem e transições sonoras são artifícios com caráter tão acessório ou ilustrativo, que se fazem desnecessários, perdendo-se me meio à potência do elenco e do autor.

Danilo Castro
11/03/2012


Assista algumas cenas do espetáculo:


Serviço] O espetáculo encontra-se em cartaz hoje (11/03) no Teatro Emiliano Queiroz, às 20h. O ingresso custa R$ 5 a meia e R$ a inteira.

3 comentários:

Priscila C. O. Taveira disse...

Primeiro quero parabenizá-lo pelos posts tão bem escritos. Algo que impressiona, chama a atenção, diante a formosura de escritos articulados, cada qual num sítio harmônico e inteligente. Em segundo, a sua paixão, ou melhor dizer, o seu amor para com o teatro é bonito de se contemplar. Simplesmente, sinto-me inserida nos escritos, sem cegueira, pois tu me permites compreender o universo teatral. Há simplicidade e ao mesmo ponteiro grandiosidade nas linhas que por aqui percorri em gosto. Muita vivacidade e um olhar minucioso aos detalhes de um encenar, que em essência é para trazer mudanças, reflexões à plateia.

Abração,
Pri

Danilo Castro disse...

Pri, são pessoas como vc que me estimulam a manter esse espaço. Fico muio feliz com suas visitas e comentários. Escrevo também para quem não é de teatro. Com o tempo estou aprendendo a utilizar as coisas que ando colhendo na faculdade de Jornalismo e replantando aqui para fomentar o debate teatral. Teatro a gente faz para você, público, e não pretendo me fechar em conceitos teóricos ou em redomas da própria pesquisa teórico-artística. Esteja sempre por perto. É um prazer tê-la na plateia. =]

Andrei Bessa disse...

Agora deu vontade de ver.

hunf